Comissão Europeia

Recuperação de salários em Portugal é das mais lentas da Europa

O ministro das Finanças, Mário Centeno, com o comissário europeu Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/TIAGO PETINGA
O ministro das Finanças, Mário Centeno, com o comissário europeu Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/TIAGO PETINGA

Bruxelas mais otimista que na primavera, mas ataca governo por não mostrar redução mais convicta do défice. Moscovici deitou depois água na fervura.

Portugal já é e vai ser nos próximos dois anos dos países mais lentos da Europa a recuperar salários, indicou ontem a Comissão Europeia, nas previsões do outono.

Isto acontece apesar das políticas nacionais de devolução de rendimentos do trabalho e da subida do salário mínimo, por exemplo.

O mote foi dado logo de manhã pelo comissário da Economia, Pierre Moscovici, na apresentação do estudo, em Bruxelas.

O responsável começou por referir, em relação à retoma europeia, que “persistem alguns desafios”, designadamente “a dívida elevada e o aumento limitado dos salários”.

E depois concretizou. “Embora a recuperação cíclica da economia europeia já esteja em curso há 18 trimestres consecutivos, continua a ser insuficiente, nomeadamente porque ainda temos uma estagnação significativa dos mercados de trabalho e um crescimento anormalmente lento dos salários”. Mostrou-se ainda um pouco impaciente com o problema da desigualdade, que persiste.

A preocupação de Moscovici assenta como uma luva no caso português. De acordo com o novo estudo de Bruxelas, o salário nominal bruto por empregado (medida que inclui contribuições patronais para a segurança social e suplementos salariais) vai crescer apenas 1,6% em 2017 e 1,7% em 2018, o sexto nível mais baixo da União Europeia a 28 (ainda com o Reino Unido).

E fazendo a média de três anos (2017 a 2019), a situação mantém-se. Portugal fica como sexto mais fraco, à frente de Finlândia, Espanha, Itália, Grécia (que ainda está sob um programa de ajustamento) e Chipre.

Mais competitivos porque mais baratos

Esta medida que sinaliza uma maior competitividade preço pode ser lida juntamente com outra, a dos custos totais por unidade produzida (CTUP). Este último indicador relaciona os salários médios com a produtividade do país (PIB por empregado). Também aqui Portugal parece liderar, esmagando cada esses custos de produção, prevê a CE.

No ano que vem, os CTUP portugueses vão subir apenas 0,8% (sétima variação mais baixa) e em 2019, o país passa a ser quarto neste ranking (0,9%).

O que está acontecer, então? Segundo Bruxelas, é a produtividade por trabalhador (o denominador) que está evoluir mais rápido do que os salários (2,3% em 2018 e 2019). Daí o embaratecimento aparente da economia.

O enfraquecimento relativo dos salários reflete-se noutras dimensões da economia. O consumo sobe, mas cada vez menos (1,6% no ano que vem), as exportações devem aumentar mais de 7% em 2018, mesmo depois dos expressivos 8% deste ano.

Mas a retoma é menos intensa em emprego do que no passado. Este cresce apenas 1,2% no próximo ano, depois dos 2,9% de 2017, indica a CE.

As habituais pressões sobre Centeno

A Comissão também deixou as habituais pressões sobre a gestão das contas públicas, tutela do ministro das Finanças, Mário Centeno, queixando-se de falta de medidas. O governo vai obter um défice de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, que ficará na mesma em 2018. Devia cair, diz o Pacto de Estabilidade.

Além disso, o ajustamento estrutural de 0,5% do PIB potencial prometido pelas Finanças em 2018 também não vai acontecer, pelo menos com as medidas que estão em cima da mesa. Acresce que ainda pode haver impactos negativos por causa da banca (efeito CGD e fundo de resolução). E o peso da dívida desce, mas mais devagar do que diz o governo.

Bruxelas reitera que o ajustamento orçamental em curso tem pouco de permanente ou estrutural, diz que a descida do défice é “sobretudo cíclica”, mas admite que vai ver melhor estas contas com o governo.

A semelhança do que diz Lisboa, a CE vê a economia portuguesa a perder gás: depois de crescer 2,6% este ano, abranda para 2,1% em 2018. As Finanças esperam 2,2% no ano que vem.

Mas até está um pouco mais otimista no mercado de trabalho: a taxa de desemprego desce de 9,2% em 2017, para 8,3% da população ativa em 2018 (o governo diz 9,2% e 8,6%, respetivamente).

Duro, mas suave

A dureza das previsões da Comissão sobre défices e ajustamento estrutural (que, para já, parece ser invisível aos olhos da CE) contrasta com a maior suavidade no discurso político.

O comissário Pierre Moscovici disse que “esperamos que estas discrepâncias possam ser anuladas ou reduzidas, como aconteceu em avaliações anteriores”.

O socialista francês justificou-se, dizendo que em 2018 estão a ser “mais conservadores na receita” e incluíram mais “pressões do lado da despesa”. “Nos gastos com pessoal e nas transferências sociais”, concretamente.

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