Rei dos cogumelos com salários em atraso a dias do ok à reestruturação

Os 430 trabalhadores ainda não receberam salário de fevereiro. Cerca de 300 mil euros deverão ser adiantados pelo fundo CoRe.

Depois de adiado o OK ao plano de viabilização da maior empresa ibérica de cogumelos, na semana passada, a Sousacamp volta a ter salários em atraso. Os pagamentos deviam ter sido processados até quinta-feira, mas até agora os 430 trabalhadores não receberam as devidas remunerações mensais, uma vez que a empresa não tem dinheiro para cumprir as obrigações salariais para com os trabalhadores.

O problema deve, no entanto, ficar resolvido no próximo par de dias, acredita Bruno Costa Pereira. O administrador de insolvência que tem ajudado a manter a operação durante este processo está otimista numa resolução rápida, com a intervenção do fundo que desenhou o plano de recuperação da companhia, que deverá ser aprovado até ao final desta semana, a adiantar o montante necessário para regularizar os salários. Em causa estão cerca de 320 mil euros.

Não seria, aliás, uma solução inédita. Ainda em dezembro, a CoRe Capital desembolsou uma quantia considerável para assegurar a continuidade da operação, em risco depois de um problema que obrigou a descartar a matéria-prima. Apesar de ainda não ter o ok oficial para avançar com o plano de reestruturação, a gestora de capital de risco adiantou então "1,5 milhões à massa insolvente para garantir a continuidade da atividade da empresa e a manutenção dos trabalhadores", revela Bruno Costa Pereira.

"A minha expectativa é que a CoRe volte a intervir na resolução do problema", disse ao Dinheiro Vivo o gestor de insolvência, justificando que a gestora de capital de risco está desde o início "empenhada em ajudar ao melhor desfecho da operação e tem dado importantes contributos nesse sentido".

Sem investimento e manutenção adequados durante demasiado tempo, a Sousacamp precisa de um investidor que injete capital para incrementar a produção, explica ainda, congratulando-se pelo facto de já todos os principais credores estarem de acordo quanto a um aspeto essencial: "Quer material quer socialmente, a empresa vale muito mais a funcionar do que insolvente."

O fundo de capital de risco CoReEquity conseguiu já em dezembro luz verde também da Autoridade da Concorrência para entrar no capital do grupo, faltando apenas a aceitação da proposta de viabilização da empresa, que já foi valorizada pelos maiores credores do rei dos cogumelos, o Novo Banco, a Caixa Agrícola e o IFAP- Instituto de Financiamento Agrícola e Pescas.

Levado a reunião de credores pela terceira vez no dia 3 de março (depois de dois adiamentos), o plano de viabilização, que prevê uma redução de 70 dos 430 trabalhadores (20 já saíram por comum acordo) e o perdão de 40 dos 60 milhões de euros de dívida, deverá merecer uma decisão até ao final desta semana. Foi esse o prazo que ficou decidido no Tribunal de Vila Flor para votar o plano e é positivo o sentido da decisão que Bruno Costa Pereira acredita que será tomada até sexta-feira, permitindo virar a página na Sousacamp.

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No plano submetido pelo administrador de insolvência, prevê-se a entrada do fundo de capital de risco CoRe Restart, com investimento de 13 milhões para assegurar a restruturação da empresa, a regeneração do negócio dos cogumelos frescos produzidos em Portugal e a proteção dos postos de trabalho em Vila Flor, distrito de Bragança. Esse passo está dependente de um conjunto de condições, incluindo a restruturação da dívida bancária pelos principais credores para níveis compatíveis com a atividade da empresa - havendo disponibilidade para esse perdão, a rondar os 70%. Este requisito, que implica o encerramento de projetos com baixa racionalidade económica mas continuação dos restantes, de modo a concentrar a empresa naquilo que a distingue, a produção de cogumelos frescos de diferentes variedades para abastecer sobretudo o mercado nacional, é essencial à concretização do plano.

Fundada em 1989 e tendo chegado a receber a visita e os maiores elogios do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apesar das dificuldades entretanto vividas a Sousacamp foi exportadora até 2017, tendo chegado a atingir a fasquia de cerca de 30% da produção em vendas ao estrangeiro. O acumular de dívidas nos últimos anos, chegando a 69 milhões de euros, quase obrigou a empresa a fechar as portas, tendo mesmo estado perto de ser vendida num pacote de malparado no Novo Banco, que era credor de mais de metade desse valor. O banco, porém, tal como a Caixa de Crédito Agrícola, aceitaram a restruturação proposta pela CoRe, fundo de capital de risco vocacionado para a restruturação de pequenas e médias empresas em dificuldades e que já ajudou a recuperar a Jayme da Costa, por exemplo.

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