Energia

Renováveis. “Como não há painéis solares em todos os telhados do país?”

Nicolette Bartlett é especialista sobre alterações climáticas e veio a Portugal falar sobre transição energética
(Jorge Firmino / Global Imagens)
Nicolette Bartlett é especialista sobre alterações climáticas e veio a Portugal falar sobre transição energética (Jorge Firmino / Global Imagens)

A responsável do Carbon Disclosure Project diz que o país vai no bom caminho, mas ainda há muito por fazer, sobretudo no solar.

Quando se trata de energias renováveis, Portugal destaca-se no radar desta especialista em alterações climáticas, que esteve em Lisboa para participar num evento sobre o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, promovido pelo Ministério do Ambiente. Nicolette Bartlett garante que o país vai a caminho de um futuro “limpo” e assume um papel de liderança na União Europeia para travar as alterações climáticas.

O governo português já aprovou mais de 1000 Mw de energia solar sem tarifas subsidiadas. É um bom ponto de partida?
Portugal deve investir na energia solar fotovoltaica a 100%. Não percebo: Como é que não há painéis solares em todos os telhados do país? É incompreensível não terem atingido ainda o pico máximo de produção de energia solar. É a energia do futuro e Portugal tem um potencial solar extraordinário. É só somar dois mais dois. No Chile, Marrocos, África do Sul, os investimentos no solar também são sem subsídios. As eólicas ainda são a forma mais barata de produzir energia renovável e não deviam ter tarifas subsidiadas, por isso o solar segue a mesma tendência. E quanto mais centrais solares forem ligadas à rede, mais os preços vão baixar.

Como está Portugal no combate às alterações climáticas?
Portugal vai a caminho de um futuro “limpo”. Para mim é claro que o país está a desempenhar um papel de liderança na UE para travar as alterações climáticas. É um país com muitas oportunidades para o crescimento de energias limpas e a implementação de novas tecnologias, como os veículos elétricos. A mobilidade elétrica será crucial. Já se vê as mudanças a acontecer.

Como por exemplo?
Muitas das grandes utilities (empresas de serviços de utilidade pública) estão a investir nas renováveis. Portugal está numa encruzilhada mas não vai hesitar na opção pelas energias renováveis. Se evoluir rapidamente para esse novo mundo vai tornar-se um dos grandes players a nível global.

Mas como ficam os investimentos nos combustíveis fósseis?
Também se pode apostar na exploração de petróleo e gás natural, para que as empresas nacionais invistam mais e consigam o maior valor das reservas disponíveis em Angola e no Brasil. É cada vez mais arriscado investir na exploração de petróleo e gás, porque estes ativos podem ficar cativos. Por mais quanto tempo pode uma empresa continuar a explorar combustíveis fósseis e conseguir lucros? As empresas no Médio Oriente têm vantagem porque o extraem com menores custos. Mas para quem opera em Angola e no Brasil, não é barato.

Nessa lógica, a Galp poderá estar em risco?
Poderá estar, sim. Mas os investidores ainda não estão alarmados. A Galp até poderá conseguir o que precisa dos seus investidores, mas, no próximo ano e daqui a dois anos, o cenário poderá já ser outro.
Há que esperar o inesperado. O petróleo, o carvão e o gás eram bons investimentos até há 15 anos. Era possível fazer previsões. As utilities estão em apuros porque os seus modelos de negócio não estão adaptados à nova realidade. Haverá ainda lucros a extrair da exploração de combustíveis fósseis, mas vão acabar. O pico da procura acontecerá algures em 2020, por isso, os novos projetos têm de estar operacionais e têm de bater o petróleo e gás de xisto dos EUA e as empresas sauditas.

Quando é que as empresas vão dar os seus ativos como perdidos?
Essa é a pergunta que vale um milhão de dólares. Um ativo perdido é quando as empresas ainda conseguem extrair petróleo ou gás mas já não têm lucro.

Estão preocupadas?
Sim, mas dizem algo diferente aos investidores. Precisam deles e faz sentido que tentem explorar ao máximo os seus ativos. Mas há cada vez menos investimento em combustíveis fósseis. A Comissão Europeia anunciou uma meta de 32% de renováveis até 2030 e as empresas são cada vez mais prosumers, ou seja, produzem a sua própria eletricidade renovável.
Portugal quer chegar à neutralidade carbónica até 2050. É ambicioso?
Não. Cada vez mais países europeus terão o mesmo objetivo. É o alvo certo.

As empresas estão a fazer a sua parte?
Sim. Por exemplo, a Galp tem classificação máxima A do Carbon Disclosure Project no parâmetro clima e água. A EDP não classifica tão bem, bem nas suas emissões (A-) face aos ativos atuais a carvão, mas vai mudar com o encerramento com a central de Sines. Mas está no topo quando comparada com outras elétricas europeias na aposta nas renováveis, por exemplo.

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