Eleições EUA

Reportagem. Como os EUA viveram a noite das eleições

Donald Trump Foto:  EPA/SHAWN THEW
Donald Trump Foto: EPA/SHAWN THEW

"Sinto-me enojado, surpreso, confuso, no sentido de como é que o meu país pode aceitar alguém deste calibre?" confessava Nick Ross, 37 anos

Todos os bares e restaurantes de Los Angeles, da Melrose à Hollywood Boulevard, estavam cheios ao final da tarde. Ecrãs gigantes ligados na CNN, travessas cheias de asas de galinha e batatas fritas, cerveja a rolar.

As urnas ainda não tinham fechado na Califórnia quando começaram a surgir as primeiras projeções e a incredulidade tomou conta da cidade. No The Parlor, um popular bar na Melrose, havia grupos de mulheres com t-shirts de apoio a Hillary Clinton a roerem as unhas. No The Dark Room, um pouco mais abaixo, homens e mulheres sentavam-se cabisbaixos a olharem para as televisões.

O índice de futuros do Dow caia 500 pontos quando o site de imigração do Canadá foi abaixo devido à enchente de cibernautas. O New York Times, que teve provavelmente a melhor cobertura em tempo real das hipóteses de cada um dos candidatos vencer, começou a mostrar percentagens cada vez mais altas para Trump. Os transeuntes gritavam ao passar pela varanda onde estavam duas televisões.

Leia também: Bolsas afundam com vitória de Trump

Quando foram anunciados os resultados da Califórnia, que deu 55 votos eleitorais a Hillary Clinton, houve uma explosão de alegria, com palmas e uivos: a candidata democrata passara à frente pela primeira vez nesta noite de todas as decisões.

Mas não durou muito. Quando foram confirmadas as vitórias de Trump nos estados cruciais da Carolina do Norte e Florida, começou a tornar-se evidente que o caminho de Clinton em direção à vitórias estava bastante mais curto. O índice de futuros do Dow já caia 700 pontos por esta altura e todos os mercados internacionais estavam em queda livre.

Quando foram confirmadas as vitórias de Trump nos estados cruciais da Carolina do Norte e Florida, começou a tornar-se evidente que o caminho de Clinton em direção à vitórias estava bastante mais curto

“Sinto-me enojado, surpreso, confuso, no sentido de como é que o meu país pode aceitar alguém deste calibre?” confessava Nick Ross, 37, um músico que cresceu na Califórnia. “Há tanto dinheiro na política, e é por isso que ele conseguiu candidatar-se e ser eleito.” Nick não é apoiante de Clinton; na verdade, votou Jill Stein porque ela estava no boletim de voto.

“Pensei em escrever o nome do Bernie, mas não o fiz. Não ia votar pelo mal menor. A Hillary é uma entidade malévola.” E não, não se arrepende de não ter votado Clinton. “Pessoalmente, não tenho muito a perder com Trump.” Nick é branco.

Supporters of Democratic U.S. presidential nominee Hillary Clinton react at the election night rally in New York, U.S., November 9, 2016. REUTERS/Adrees Latif

REUTERS/Adrees Latif

Corrida aos 270

As eleições norte-americana baseiam-se em votos dos colégios eleitorais, que são proporcionais à população de cada Estado. Para ser eleito, um candidato precisa de chegar à barreira extraordinária dos 270 votos; às nove da noite, hora da Califórnia, Donald Trump tinha 238 votos contra 209 da Hillary Clinton.

Leia também: Krugman: “É um desastre para a América e para o mundo”

O NYT apontava as hipóteses do Republicano de ganhar nos 95% – uma percentagem em que ninguém acreditaria algumas horas antes, dadas todas as sondagens publicadas até ao dia das eleições. Um pouco depois das onze da noite, o diretor de campanha de Hillary Clinton, John Podesta, apareceu para dizer que os votos ainda não estavam todos contados e pediu para os apoiantes irem descansar. “Voltamos a falar amanhã”, prometeu.

Mas a desgraça dos Democratas estava ditada. A esta hora, Trump tinha 268 votos eleitorais contra 215 de Clinton.

O NYT apontava as hipóteses do Republicano de ganhar nos 95% – uma percentagem em que ninguém acreditaria algumas horas antes

Todas as mulheres com quem o Dinheiro Vivo falou nesta noite eleitoral estavam em descrença. “Estou envergonhada por viver neste país”, declarou Michylle Peterson, de 28 anos, segurando nervosamente um copo de vodka. Não acredita que o resultado se deva ao facto de Hillary ser mulher: atribui-o à ignorância de grande parte da população.

epa05623655 People listen as Hillary Clinton Campaign Chair John Podesta asks everyone to head home as they wait for votes to continue to be counted at Hillary Clinton's 2016 US presidential Election Night event watch results come in on a big screen at the Jacob K. Javits Convention Center in New York, New York, USA, 08 November 2016. Americans vote on Election Day to choose the 45th President of the United States of America to serve from 2017 through 2020. EPA/ANDREW GOMBERT

EPA/ANDREW GOMBERT

Falámos também com Raymond Bergstrom, professor de Física no Los Angeles Pierce College e investigador. “Olhando para isto do ponto de vista científico das sondagens, como foi possível isto não ter sido previsto?”, questionou. “Penso que sobrestimámos o número de pessoas que estavam dispostas a sair de casa para votar Trump.”

Sobre a possibilidade de Trump não cumprir o mandato de quatro anos, algo que muitos americanos nos disseram acreditar que irá acontecer, Bergstrom duvida. “Não há precedentes para alguém não se aguentar lá os quatro anos. Mas haverá muita gente a tentar encontrar algo que possa ser usado contra ele, para um impeachment.

Leia também: A força bruta que ganhou a Casa Branca

O que o professor também nota é que um presidente Trump irá nomear um ou mais juízes para o Supremo norte-americano, efetivamente virando o equilíbrio a favor dos conservadores. Isso terá impacto em questões cruciais, como aborto e proteção dos direitos de minorias, em especial LGBTQ.

“A Califórnia poderá enfrentar uma situação em que tentará passar leis estatais progressivas contra as federais e haver uma decisão nos tribunais”, sublinhou. “Todos os meus amigos estão em descrença.”

Quando Mike Pence apareceu para falar, as pessoas começaram a atirar coisas à televisão. Houve gritos. “Fuck America!”

Leia também: O discurso de Trump. Estados Unidos vão dar-se bem com todos os países

U.S. President-elect Donald Trump and his campaign manager Kellyanne Conway greet supporters during his election night rally in Manhattan, New York, U.S., November 9, 2016. REUTERS/Mike Segar

REUTERS/Mike Segar

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens

Famílias com 12 meses para pagarem rendas do estado de emergência

Antonoaldo Neves, presidente executivo da TAP. Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens

TAP também vai avançar com pedido de layoff

EPA/MIGUEL FIGUEIREDO LOPES

Mais de 90% querem ver estado de emergência prolongado

Reportagem. Como os EUA viveram a noite das eleições