Política Monetária

Reserva Federal entre Trump e a parede na decisão sobre os juros

O presidente americano, Donald Trump, tem pressionado o líder da Fed, Jerome Powell. REUTERS/Carlos Barria/File Photo/File Photo
O presidente americano, Donald Trump, tem pressionado o líder da Fed, Jerome Powell. REUTERS/Carlos Barria/File Photo/File Photo

Presidente dos EUA não quer mais subidas dos juros. Incerteza sobre a política da Reserva Federal e a evolução da economia castigou as bolsas.

Jerome Powell foi o escolhido por Trump para liderar o banco central mais poderoso do mundo. Mas o presidente da Reserva Federal dos EUA (Fed) não se livra da pressão do presidente americano. A Casa Branca quer juros baixos e tem criticado de forma dura as últimas decisões tomadas pela autoridade monetária.

Até agora, Powell tem resistido à pressão. E esta quarta-feira deverá contrariá-lo novamente com mais uma subida na taxa dos fundos federais depois de ter já feito três aumentos este ano. Mas o líder da Fed está com a margem de manobra mais reduzida para manter a orientação de que os juros continuarão a subir no próximo ano devido à instabilidade nos mercados financeiros.

Nos dias que antecederam a reunião da Fed, que começou ontem e termina esta quarta-feira, Trump deixou mais do que um aviso. “É incrível que com um dólar muito forte e praticamente sem inflação, com o mundo lá fora a rebentar em cima de nós, com Paris a arder e a China a vir por aí abaixo, a Fed esteja sequer a considerar outra subida das taxas de juro”, escreveu esta segunda-feira.

Um dia depois repetiu o aviso, exigindo além de juros baixos que a Fed parasse com a redução do balanço de forma a garantir um maior apoio aos mercados financeiros. “Sintam o mercado e não se guiem apenas por números sem significado. Boa sorte!”.

A pressão de Trump até pode não ser nova e é uma forma de conseguir juros baixos que compensem os custos de algumas das suas políticas, como a reforma fiscal e o investimento em infraestruturas. O presidente que evitar que a maior economia do mundo perca gás até 2020, ano de novas eleições. Mas além da marcação cerrada do presidente, Powell começa também a sentir a pressão dos mercados.

Desde a última reunião da Fed, a 8 de novembro, as bolsas americanas tombam cerca de 10%. No mercado instalou-se o receio que a economia comece a desacelerar. Para a reunião desta quarta-feira os investidores atribuem uma probabilidade de mais de 70% de uma nova subida de 0,25 pontos percentuais da taxa dos fundos para entre 2,25% e 2,50%.

Apesar de juros mais altos serem mais restritivos para os mercados financeiros e para a economia, não tomar essa decisão poderia ter custos maiores. “Daria múltiplos sinais negativos ao mercado, incluindo que haveria de facto algo errado com o cenário económico (apesar dos bons dados) e que estaria a capitular face ao desejo da administração Trump de não ver mais subida dos juros. Ambos os sinais iriam, provavelmente, criar problemas de credibilidade”, explicam os economistas do Royal Bank of Canada, num relatório a investidores a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

De olhos em 2019

A tarefa mais difícil de Powell nem será decidir o que fazer aos juros esta quarta-feira. Mas sim a indicação que terá de dar sobre a evolução das taxas em 2019. Os dados deixados nas últimas reuniões pelos responsáveis da autoridade monetária apontam para mais três subidas no próximo ano. Mas as bolsas têm fraquejado também à custa de receios de que a Fed esteja a aumentar o custo do dinheiro a um ritmo demasiado rápido. “Neste momento, os mercados esperam, no máximo, duas subidas das taxas em 2019”, observa Hans-Jörg Naumer, num relatório. A questão, enuncia o responsável de mercado de capitais da Allianz Global Investors, é se Powell vai apoiar essa perspetiva.

E é nesse ponto que a Fed está quase entre a espada e a parede. Se mantiver a perspetiva de três aumentos no próximo ano, os investidores podem reagir de forma negativa por recearem que isso contribua para a desaceleração da economia. Mas se indicar uma pausa ou um ritmo muito mais lento nos juros, Powell arrisca que “os investidores suspeitem que o recuo da Fed indique que os responsáveis do banco central estão preocupados com as perspetivas para o crescimento económico”, segundo Chris Rupkey. O analista do MUFG Union Bank avisou, citado pela Bloomberg, que isso também teria impacto negativo nos mercados financeiros.

Pressionado por Trump e pelos investidores, Powell terá de executar um guião difícil. “Terá de assegurar três tarefas de uma vez: remover a anterior orientação para os mercados, tornar a política das taxas de juro mais dependente dos dados económicos e não aparentar ser muito favorável a políticas expansionistas”, conclui Hans-Jörg Naumer.

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