Banco de Portugal

Retoma mantém-se em 2,3% mas petróleo sobe o triplo

Carlos Costa. Fotografia: Filipa Bernardo/ Global Imagens
Carlos Costa. Fotografia: Filipa Bernardo/ Global Imagens

País resiste, para já, à subida do petróleo, mas Banco de Portugal tem receio do que pode acontecer aos juros e às exportações.

A economia portuguesa está a conseguir resistir a um aumento “significativo” do preço do petróleo em euros, mostra o Banco de Portugal (BdP).

De acordo com o boletim económico de verão (pdf), ontem divulgado pelo banco central governado por Carlos Costa, o crescimento real vai rondar os 2,3% em 2018, o mesmo valor projetado há três meses e que fica totalmente em linha com o que espera o governo e as principais instituições externas (Comissão Europeia e FMI).

No entanto, há fatores de risco que se estão a adensar.

O petróleo é um deles: em março, as expectativas implícitas no mercado de futuros apontavam para um aumento do preço da matéria-prima em euros na ordem dos 9% este ano (para 52,6 euros por barril). Esse cenário alterou-se radicalmente. Agora, a subida prevista com base nos mesmos indicadores de mercado analisados pelo BdP é três vezes maior: o agravamento chega a 29%, com o barril de Brent a custar, em média, 62,2 euros.

O Banco de Portugal refere que a coisa pode não ficar por aqui: a probabilidade de o petróleo subir mais é superior a 50% (um risco descendente para a economia, portanto).

E nas taxas de juro de longo prazo acontece algo parecido, o que no caso de Portugal, que está bastante endividado pode significar novos apertos, designadamente a nível orçamental.

Embora o défice público esteja a descer, o peso da dívida pública continua acima de 120% do produto interno bruto (PIB), um dos maiores do mundo desenvolvido e da Europa.

“No que diz respeito ao preço do petróleo e à taxa de juro de longo prazo foram identificados riscos em alta para 2018 e 2019, com probabilidade de ocorrência de 55% no caso de petróleo e de 60% e 55% no caso das taxas de juro de longo prazo”, diz o Banco.

Sobre o perigo concreto que paira sobre os juros, o BdP destaca “a incerteza política na área do euro e a possibilidade de um recrudescimento das tensões nos mercados financeiros”. “Os eventos recentes em Itália e os sinais de contágio observados mostram a relevância deste risco”, aponta o Banco.

Ameaça de guerra

O boletim de verão discorre ainda sobre uma ameaça que, nos últimos meses ganhou corpo e que está quase a materializar-se. A declaração de guerra comercial por parte da administração de Donald Trump a vários países, europeus incluídos.

Uma guerra generalizada a nível mundial entre os Estados Unidos e outros países teria efeitos adversos sobre Portugal, que é uma pequena economia aberta e dependente do comércio com algumas potências visadas pelos americanos, como é o caso da Alemanha, mostra o estudo do BdP.

Um ambiente de retaliação total entre países roubaria 2,5% ao PIB português em apenas três anos (até 2020 ou meados de 2021, se a guerra começasse entretanto).

Dito de outra forma, todo o crescimento obtido durante um ano (2018, por exemplo) seria anulado num mau cenário como este. Este risco negativo é analisado, mas ainda não foi incorporado nas novas projeções.

A probabilidade de ocorrer esta situação mais catastrófica (“guerra comercial generalizada”) é considerada reduzida, mas o Banco de Portugal não a pode excluir.

Bem mais provável é o cenário de “guerra comercial limitada”, em que se “considera uma escalada das tensões comerciais entre os EUA e todos os seus parceiros comerciais”, o que pode levar a “um aumento dos preços de exportação destes países para os EUA de cerca de 10%” e a uma retaliação dessas economias, “impondo tarifas do mesmo montante sobre as importações provenientes dos EUA”.

Neste quadro de guerra “limitada”, “o PIB mundial reduz-se 0,7% no final do horizonte de três anos, relativamente ao cenário de base” e “o comércio mundial apresenta uma redução acumulada no mesmo período de quase 3% face ao projetado no cenário base”.

No cenário mais catastrófico, de guerra generalizada, “os efeitos sobre o PIB e sobre o comércio mundial são bastante mais severos, traduzindo-se numa redução de, respetivamente, 2,5% e 9,6%”, calcula o banco central.

Porque Portugal é “relativamente aberto ao exterior”, “a redução da atividade e do comércio a nível global tem um efeito adverso sobre a economia portuguesa”.

No cenário menos agreste, “verifica-se uma redução da atividade económica em Portugal ao longo dos três anos que ascende a 0,7%, sendo o efeito nos preços de 0,4%.”

“No cenário mais severo, o impacto negativo acumulado sobre o PIB é de 2,5%”.

Segundo o BdP, “o efeito mais significativo provém da redução das exportações, via diminuição da procura externa dirigida à economia portuguesa”. “A redução das exportações [portuguesas] tem consequências ao nível da procura de fatores produtivos, traduzindo-se numa redução do investimento e do emprego, bem como dos salários reais”.

Isto leva diretamente a uma “redução do rendimento disponível das famílias” e esta conduz a “uma diminuição do consumo privado que é agravada pelo aumento das taxas de juro” e que, “tal como nos restantes países, o aumento das taxas de juro, a par da redução da procura global, traduz-se também numa redução do investimento”.

País abranda porque faltam reformas

O Banco de Portugal manteve as projeções de crescimento económico que avançou em março. A retoma da economia, embora seja considerada relativamente sólida, vai perdendo gás até 2020, reafirma o novo boletim. Cresce 2,3% este ano, 1,9% no próximo e 1,7% em 2020, em linha com o esperado para a zona euro.

O banco central de Carlos Costa alerta que “o atual enquadramento económico e financeiro favorável deve ser aproveitado para corrigir os constrangimentos estruturais ao crescimento de longo prazo, os quais, de resto, ajudam a explicar o abrandamento da atividade ao longo do horizonte de projeção”.

O crescimento do emprego foi ligeiramente revisto em alta e a taxa de desemprego em baixa (2,6% e 7,2% da população ativa, respetivamente, em 2018). O BdP diz que “a expansão da atividade entre 2018 e 2020 deverá assentar no dinamismo das exportações e do investimento – revistos em baixa face a março – e no crescimento moderado do consumo privado – que foi revisto ligeiramente em alta”.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página inicial

Página inicial

REUTERS/Stephen Lam/File Photo

Moedas como Libra do Facebook podem diminuir poder dos bancos centrais

Outros conteúdos GMG
Retoma mantém-se em 2,3% mas petróleo sobe o triplo