Rotas da seda. Novas oportunidades para empresas portuguesas na China

João Marques da Cruz, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC), em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Tem havido novas exportações para Macau. Em plena pandemia, seguiram 300 mil euros a bordo de contentores. Que outras oportunidades há?

No setor agroalimentar. Além do vinho, carne de porco. Houve um problema sanitário com a carne de porco de produção chinesa e a China é o maior consumidor do mundo. O problema foi resolvido com grande esforço quer dos empresários portugueses quer da administração pública portuguesa quer da embaixada em Pequim. Acho que se deve assinalar o esforço do embaixador José Augusto Duarte, que foi extremamente importante. Portanto, o agroalimentar e depois sapatos. O sapato português tem muito boa relação qualidade/preço e muito boa imagem na China.

Em plena covid, houve um aumento das trocas comerciais entre Portugal e Macau?

É verdade. Sendo justo, as trocas comerciais com Macau são pequenas, e por isso muitas não foram para consumo de Macau – é tudo para a China, no âmbito do acordo SEPA, que permite reexportação com vantagens de direitos aduaneiros em determinadas condições. Mas havemos de chegar rapidamente ao normal e eu não vejo Macau como entreposto de mercadorias, mas de negócios, para penetração nessa grande região.

Falemos de One Belt, One Road: como pode Portugal posicionar-se nas novas rotas da seda?

Quando se fala da rota da seda fala-se sempre da marítima por um lado e da terrestre por outro. Na marítima, o porto de Sines. Em termos terrestres, é evidente que precisamos de uma ligação ferroviária moderna – especialmente nas mercadorias – que nos una à Europa. É determinante uma ligação direta no corredor Sines-Badajoz e que liga à alta velocidade espanhola. Portugal é membro fundador do banco asiático de infraestruturas, que não é mais um banco. A China tem a maioria do capital e os membros fundadores têm estatuto especial. Esse é o banco “financiador” da estratégia One Belt, One Road e isso dá-nos vantagem. Mas temos de concretizar.

E o que falta para concretizar? Alguma atuação do governo para tornar mais céleres os projetos?

Quem investe são as empresas – e as portuguesas têm a tal descapitalização. Por exemplo, a CCCC tornar-se-á acionista de referência, minoritário, com o atual grupo familiar que controla a Mota-Engil. Se isso acontecer é evidente que a Mota passa a ter músculo, capacidade de investimento, de ganhar concursos, porque para ganhar é preciso qualidade técnica mas também músculo financeiro.

As empresas queixam-se que a China é um mercado longínquo e culturalmente muito diferente. Conselhos?

Há três recomendações que fazemos: ter uma parceria local; não olhar para a China como um mercado mas vários; dar tempo ao tempo. A exportação para a China não vai salvar o ano, é uma aposta estrutural.

As relações sino-portuguesas remontam a 1514 e à dinastia Ming. O que esperar para a próxima década?

A China é uma potência incontornável no século XXI. É a potência emergente. Espero que Portugal consiga ter boas relações económicas, abrindo a sua economia a investimento americano e chinês, sem ficar refém de nenhum. Dentro do quadro europeu, espero que haja muito mais investimento chinês em Portugal. Na Europa, o país com mais investimento chinês per capita é a Finlândia e em valor absoluto a Alemanha. Eu não acho que haja investimento chinês a mais. Acho que temos de ter frieza e racionalidade. Quando se diz que o investimento chinês é bem-vindo não estamos a dizer que o investimento americano é mal vindo. São os dois bem-vindos. E ambos, quer o chinês, quer o americano, têm de respeitar as nossas regras. As nossas regras são as nossas. Não são regras importadas de outros.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de