Schäuble: O revisor oficial de contas

Schäuble, ministro alemão
Schäuble, ministro alemão

Escrever um livro revela muito de quem somos ou queremos ser.
Wolfgang Schäuble (18 de Setembro, 1942), ministro das Finanças
alemão, quis fazer o curso de Direito, mais tarde doutorou-se em
Direito e, só depois, caiu de quatro pelos números. “O
estatuto legal do revisor oficial de contas (ROC) nas empresas de
contabilidade”, a magnum opus de Schäuble, não é só um livro
fácil de encontrar em casa deste político alemão. Foi o livro que
ele escreveu: um verdadeiro manual de instruções para os ROC.É
também esse o papel, o de revisor oficial de contas informal, que
ele tem exercido na UE.

Se os portugueses estão a sentir o peso de uma política
orçamental restritiva, esse incómodo – ou martelo, para alguns –
deve-se aos erros próprios e dos anteriores governos, mas também à
intransigência política de Wolfgang Schäuble. O arquitecto da
reunificação alemã puxa pela cadeira de rodas onde se senta com a
mesma determinação com que fala da política financeira da UE:
devem muito dinheiro? Não podem pagar? Então cortem despesa,
reduzam salários, sofram – a absolvição só virá depois. Luterano
convicto, não cede um milímetro nestas convicções.

No próximo dia 18, Schäuble faz 69 anos. É um dos políticos
alemães com maior experiência. “Ninguém consegue competir com
o seu passado”, diz Gerd Langguth, biógrafo de Angela Merkel e
professor de Ciência Política em Bona. “Chefe de gabinete do
chanceler Kohl, líder da bancada parlamentar da União
Democrata-Cristã (CDU), ministro do Interior e líder do partido –
ele já foi tudo.” Schäuble mantém uma relação tensa, “de
paz podre” dizem alguns, com a chanceler. O apreço pela sua
experiência e competência profissionais levou Angela Merkel a
convidá-lo, em 2009, para o lugar-chave do governo. Merkel tomara o
poder na CDU, em 1998, após um golpe palaciano. A mulher que
Schäuble tinha escolhido para secretária-geral aproveitou um
escândalo de donativos ilegais ao partido e roubou a liderança ao
seu actual ministro das Finanças, impedindo a sua ascensão a
chanceler. Em 2004, Merkel bloqueou-lhe novamente o caminho ao vetar
o seu nome numa candidatura à presidência alemã. “Schäuble
acredita que seria um chanceler melhor”, assegura um dos seus
apoiantes no partido.

A chanceler e o ministro das Finanças dependem politicamente um
do outro. Schäuble só acabará a sua carreira em alta se Merkel
respeitar o seu rigor (ortodoxia?) orçamental. Ela é vista como
sendo volúvel, sem substância política, hesitante. Ele, pelo
contrário, cultiva o perfil de político determinado: “Se
necessário, o ministro das Finanças deve aceitar quando a chanceler
não concorda com ele”, admitiu Schäuble. “Mas não pode
tornar as coisas demasiado fáceis para ela.”

Schäuble sabe o que é resistir à adversidade. Após ter ajudado
a conseguir a reunificação da Alemanha – tarefa que lhe foi
confiada por Helmut Kohl -, a 12 de Outubro de 1990 foi vítima de
uma tentativa de assassinato. Numa acção de campanha eleitoral, em
Oppenau, foi atacado por um louco, Dieter Kaufman, que disparou três
vezes sobre o então ministro do Interior, ferindo-o na cara e
provocando-lhe uma lesão na medula. Schäuble ficou paralisado da
cintura para baixo.

O acidente tornou-o um pouco mais tolerante. Aproximou-se mais da
família, nomeadamente da mulher, a economista Ingeborg. Schäuble
fala todas as semanas ao telefone com os quatro filhos – é sobretudo
ligado às raparigas. Esta ligeira evolução não impede que seja
considerado um solitário, característica que se acentuou com o
atentado. “Ele não tem muitos amigos”, diz o biografo de
Merkel. “Talvez a minha liberdade recém-descoberta é a de ser
capaz de sentir contentamento e de ser grato. A vida numa cadeira de
rodas não é nada fácil, mas não guardo ressentimentos”,
afirmou.

Nascido em Freiburg im Breisgau, um bastião protestante na
Floresta Negra, Schäuble é filho de um consultor financeiro da
indústria. É também ao pai que vai buscar o gosto pelo rigor e
pela austeridade que tenta impor aos ‘parceiros’ do euro. “Nós
precisamos de regras como as do Pacto de Estabilidade, precisamos de
incentivos e também de sanções”, afirma naquele tom gutural.
Obrigações europeias? Para já, nem pensar nisso, diz o ministro
das Finanças alemão.

Schäuble não é um nacionalista inveterado, nem um europeísta
sem limites. Considera que Portugal, Grécia e Irlanda devem ficar na
zona euro, mas sujeitando-se a uma rígida política de gestão
orçamental. Rejeita contudo novas adesões à moeda única por parte
de economias com finanças públicas indisciplinadas. Aprendeu a
lição. A sua receita económica (austeridade=crescimento) levanta
muitas dúvidas. “Ao insistir em políticas pró-cíclicas [mais
cortes quando a economia soluça], a Alemanha está a colocar a UE em
risco de entrar em recessão prolongada”, diz George Soros,
fundador do mais famoso hedge fund do mundo. Numa entrevista ao DN,
em 2009, Wolfgang Schäuble, acusado por muitos de não perceber nada
de mercados, disse: “Toda a gente quer fazer propostas, mas quem
decide é o ministro das Finanças.” Na Alemanha funciona. Fora
dela, ainda estamos para ver.

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