Energia

Schneider Electric atinge vendas de 26 mil milhões e lança tecnologia “verde”

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Em exclusivo ao Dinheiro Vivo, o CEO Jean-Pascal Tricoire revelou que em 2018 a empresa registou vendas na ordem dos 26 mil milhões de euros

A gigante tecnológica mundial Schneider Electric anunciou esta terça-feira em Barcelona, que vai deixar de usar um gás altamente poluente (SF6, um dos que provoca maiores efeitos de estufa na atmosfera) para arrefecer os servidores que vende aos seus clientes, e transitar para uma nova solução de climatização baseada apenas “em ar” arrefecido. Para o mercado sairá assim em breve toda uma linha de produtos tecnológicos mais amigos do ambiente, garantiu.

Em exclusivo ao Dinheiro Vivo, o CEO Jean-Pascal Tricoire revelou também que em 2018 a empresa registou vendas na ordem dos 26 mil milhões de euros (acima dos 24,7 mil milhões registados no ano anterior). No final do primeiro semestre de 2019, a empresa já estava a crescer a 5,4%. “Crescemos muito em 2018 e vamos continuar em 2019”, disse o responsável.

Presente em Portugal há mais de 50 anos, a Schneider Eletric tem como clientes grandes empresas nacionais do setor da energia como Grupo EDP e a Galp, e também da indústria, como a Navigator Company, entre muitas outras, sendo a sua maior área de negócio o fornecimento de equipamentos de baixa tensão para edifícios e indústria.

As mudanças tecnológicas entretanto anunciadas surgem em nome das alterações climáticas e da transição energética em curso, temas da atualidade que este ano dominaram por completo (em detrimento da tecnologia) o discurso de abertura do CEO Jean-Pascal Tricoire no Innovation Summit 2019, que este ano tem lugar em Barcelona.

O francês, que no evento do ano passado jogou em casa, em Paris, anunciou também que a empresa lançou recentemente a Schneider Electric Exchange, uma plataforma de crowdsourcing para ideias inovadoras, capazes de enfrentar desafios no ecossistema energético. “Estive na Semana do Clima, em Nova Iorque, e deixam-me partilhar a minha experiência. Muitas empresas estiveram lá para pensar como podemos combater as alterações climáticas e, ao mesmo tempo, desenvolver os nossos negócios com menos impacto no ambiente”, disse Tricoire.

Na semana passada, 87 grandes empresas mundiais (entre as quais a portuguesa EDP e a sueca IKEA, entre muitas outras) assumiram o compromisso Trajetória 1,5ºC, o que significa reduzir mais 50% a pegada carbónica ou ser neutro em 10 anos. “Esta coligação que nasceu na semana passada junta-se a outras iniciativas de empresas preocupadas em tomar uma nova posição e atitude na sustentabilidade. Mas é mais que isto. Todas estas empresas vão agora pedir aos seus fornecedores, aos seus parceiros para que também invistam na eficiência”, explicou o CEO em palco.

Foi também na semana passada, que a Schneider Electric anunciou a decisão de ser neutra em carbono até 2025 e estar perto das emissões zero até 2030, fazendo o mesmo em toda a sua cadeia de valor nas próximas três décadas. “Vamos falar com todos para reduzir as emissões e aumentar a eficiência. Nós e todas as empresas que assinaram a mesma iniciativa. E é assim que seremos mais competitivos. A eficiência energética é o segredo”, acrescentou ainda Tricoire.

Na opinião do CEO da Schneider Electric, “as más notícias são que estamos na trajetória errada. Se olharmos para as alterações climáticas, só se fala de emissões de carbono, mas na verdade é falta de eficiência energética. 80% das emissões devem-se ao consumo de energia, que se multiplicou por 10 no último século e que será 4 vezes superior neste século. Isto num mundo onde 60% da forma como gerimos a energia é ineficiente. As consequências estão à vista”.

No entanto, “as boas notícias passam por duas transições: da energia e da tecnologia. Não são evoluções, são enormes disrupções. A transição energética é possível, mas não pode estar dissociada do digital”. O CEO está certo dos números que ambiciona: cortar as emissões para metade até 2040, se houver uma aceleração da poupança energética, em conjunto com as iniciativas de eletrificação e descarbonização; 30 a 50% de eficiência alcançada em metade dos edifícios e industria existente (hoje 80% são ineficientes); o carvão vai ser marginalizado e o consumo de eletricidade vai duplicar, ou seja, a eletricidade que hoje só representa 20% da energia consumida no mundo vai crescer para 40%; e a mobilidade elétrica será a maior migração da história da mobilidade.

“Vamos investir tanto em eletricidade nos próximos anos como se investiu na década de 20 do século passado. Mas não será a mesma eletricidade. Virá de outras fontes. As renováveis vão passar de 6 para 40%, sobretudo de fontes eólicas e solares”, rematou Tricoire, sublinhando: “Todas as novas tecnologias que surgiram nos últimos anos são movidas a eletricidade. Por isso o futuro passa pela eletrificação com soluções de armazenamento associadas, já que o custo está a descer bastante. Não há muito mais opções disponíveis. Não se pode gerir a intermitência das renováveis se não tivermos o digital. E nós somos uma empresa de tecnologia, nos últimos anos crescemos 13% nas nossas receitas graças à digitalização”.

Questionado por jornalistas de todo o mundo presentes em Barcelona sobre como é que as empresas podem contribuir para travar as alterações climáticas, o CEO não hesitou na resposta: “Se poupam energia, as empresas já estão a investir. Porque os clientes e parceiros vão fugir de empresas que não são sustentáveis, que não se interessam com o ambiente, que não inovam. Os governos não têm de fazer tudo, mas não podem bloquear o caminho com subsídios para os combustíveis fósseis. Na Europa não há um preço para o carbono, mas na China sim. Todas as decisões da Schneider Electric, por exemplo, têm em conta o preço do carbono”.

Sobre o investimento em renováveis, em Portugal, por exemplo, diz que “vai continuar, passo a passo, sem subsídios”. Mas avisa: “Todos se concentram na geração de energia e nas fontes fósseis e renováveis, mas o verdadeiro caminho a seguir é o da eficiência energética. Custa pouco e tem um retorno rápido. Mas 80% dos edifícios ainda são ineficientes. O mesmo com a indústria (60% ineficiente). É por aí que de se deve começar. É uma solução que ainda não está a ser promovida o suficiente”.

Na visão de Jean-Pascal Tricoire, “tem de ser uma combinação de esforços entre governos e empresas. As empresas têm de trazer inovação e na Península Ibérica isso está a acontecer, com as empresas elétricas a apostar forte nas renováveis. Os governos não podem bloquear o caminho, por razões puramente políticas. Nós trabalhamos com clientes que trabalham com as autoridades. Eu nunca subestimo as PME e a sua capacidade de inovação. E a Europa é dos melhores sítios do mundo para inovar”.

Outro dado que o CEO partilhou com a audiência diz respeito às cidades, responsáveis por 80% das emissões no mundo. “Uma cidade não é atrativa se não tiver mobilidade partilhada, por exemplo”, como Barcelona e Lisboa. “Têm de ser competitivas em termos de tecnologia”.

Há um ano, em Paris, Jean-Pascal Tricoire anunciou que a empresa registou receitas de 24,7 mil milhões de euros em 2017, dos quais 45% eram provenientes da área de negócios de IoT (Internet of Things). Do portfólio global da empresa fazem parte 20 das maiores empresas mundiais de petróleo e gás e 10 das principais empresas de comercialização e distribuição de energia. A sua arquitetura e plataforma EcoStruxure já foi implementada em mais de 480.000 instalações com o apoio de mais de 20.000 integradores de sistemas, que conectam mais de 1,5 milhões de ativos.

Por seu lado, o country manager para Portugal, João Rodrigues, garantiu também nessa altura que a empresa “cresceu mais em Portugal do que na Europa”. E garantiu que a congénere nacional “cresceu acima dos 3,2% registados pelo Grupo” Schneider Electric (apesar de “não ter duplicado a cifra”), à boleia da renovação e reabilitação urbana, do turismo, da modernização industrial (tendo em conta os programas Portugal 2020, Indústria 4.0, entre outros), aumento das exportações nacionais e do investimento privado. “O mercado nacional tem vindo a ganhar relevância”, disse o responsável, apesar do constrangimento dos preços praticados serem abaixo da média europeia e mundial.

Para os anos seguintes, garantiu João Rodrigues, a gestão de redes de energia será uma das principais oportunidades de negócio, num momento em que o setor energético está muito dinâmico, com a construção de novas redes e necessidades de modernização das linhas elétricas já existentes.

A jornalista viajou para Barcelona a convite da Schneider Electric

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