Imobiliário

“Se eu não estiver aqui, o que é que eles vêm ver?”

O Centro Histórico do Porto está à venda. O turismo fez disparar os preços do metro quadrado e os proprietários querem o seu quinhão

“Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario” (canta Rui Veloso), hoje, na sua maioria, de cara lavada e iluminada. As ruas do centro histórico, outrora pouco convidativas a momentos de lazer, têm agora os passeios a transbordar de pessoas, que sobem e descem o casco com o tempo que as férias permite ou puxam malas com o rodado a desfiar sons já habituais aos ouvidos dos portuenses. São os turistas estrangeiros e são milhares. “Já quase não se ouve falar português”, diz, em tom lamentoso, Ermelinda Duarte, comerciante e moradora na Rua das Taipas, a quem o senhorio fez saber que tem um ano para deixar a casa. A culpa é da subida dos preços das casas. Esta é atualmente a zona da cidade onde o metro quadrado é mais elevado.

O prédio de Ermelinda Duarte tem seis inquilinos, a três o senhorio não pode denunciar o contrato de arrendamento por terem mais de 65 anos, mas com o espaço que irá “ganhar” quer expandir o hostel, que para já ocupa apenas o rés-do-chão. O proprietário recusou qualquer acordo. Teresa do Carmo vive, desde os 3 anos, na típica Rua Tomás Gonzaga e agora, aos 72 anos, tem uma ordem para sair em outubro de 2019. Sabe que o problema que hoje tem em mãos deve-se à assinatura, em 2007, de um novo contrato de arrendamento. Estava abalada com a recente morte do marido e o senhorio ter-lhe-á dito que era pelo melhor. Hoje, acusa-o de bullying, por palavras e pressões.

O edifício onde vive Teresa do Carmo tem já quatro casas em regime de alojamento local e o objetivo do proprietário, que já fez obras de reabilitação do prédio, é colocar todos os apartamentos à disposição dos turistas. “A minha casa é muito bonita, tem vista para o rio”, lembra. Os moradores que restam (mais dois agregados) já foram notificados que não há renovação de contrato. A Teresa do Carmo o senhorio ofereceu 2500 euros de indemnização. Recusou e espera que a advogada consiga resolver o problema.

Nas contas de António Fonseca, presidente da União de Freguesias do Centro Histórico (agrega as antigas freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória), há pelo menos 32 prédios à venda nas zonas mais históricas, muitos ainda habitados. À junta têm chegado várias denúncias e pedidos de ajuda de inquilinos que estão a ser pressionados para deixar a casa, muitas vezes com métodos de terrorismo psicológico. António Fonseca tem um território de gente envelhecida (perto de 60% da população residente) e que a cada ano emagrece. Neste momento, conta 36 625 eleitores, menos 1569 do que há dois anos.

O autarca está consciente da necessidade de repovoar e fixar população na freguesia e defende, inclusive, que deveriam ser salvaguardados dois ou três apartamentos para locais sempre que se reabilitasse um edifício. “Impõe-se a criação de quotas nos prédios para os jovens da freguesia, que não podem pagar 1150 euros por um T1 como andam a pedir”, além de um maior apoio do Estado nas rendas. “Temos de criar regras, sob pena de não termos ninguém a viver no centro do Porto.” António Fonseca lembra ainda que o turista que vem ao Porto “quer conhecer as tradições, os edifícios históricos, a cultura da cidade e, para isso, temos de ter habitantes”.

Vítor Oliveira, comerciante do Bazar das Taipas, reconhece que “os moradores andam revoltados com o desalojamento” e lembra que “é uma população envelhecida, sem poder económico para fazer face ao mercado de habitação”. O seu negócio vive dos turistas, pois “a população residente é muito pouca”, a maior parte destes “edifícios estão para alojamento local”. Ermelinda Duarte lembra que os turistas gostam “de ver a roupa a secar, tiram fotografias, querem ouvir-nos falar, dizer palavrões e calão”. E dispara: “Se eu não estiver aqui, o que é que eles vêm ver? Quando lhes contámos o que se está a passar ficam com pena.”

O turismo é o motor desta engrenagem. E se António Fonseca aponta 2004 como o ano de arranque, quando se realizou o campeonato europeu de futebol em Portugal, na reabilitação do casco histórico do Porto, com foco na Ribeira, o atual boom turístico fez disparar todo este fenómeno. O presidente da junta mais afetada por esta dinâmica lembra que muitas das intervenções ocorreram em edifícios devolutos, muitos dos quais albergaram serviços transitários, despachantes, companhias de navegação e outros escritórios de serviços. Outras foram em prédios que não tinham as mínimas condições de habitabilidade, onde muitas vezes num quarto sem casa de banho vivia uma família. Nestes casos, a maioria das pessoas foram realojadas nos bairros municipais.

O problema coloca-se é nos edifícios habitados. “O maior crime é quando edifícios de habitação são transformados em hotéis. Está-se a roubar parque habitacional”, diz o autarca. António Fonseca aponta o dedo aos fundos imobiliários e à vontade que os proprietários têm de vender os prédios, agora que há oportunidade de valorização. O autarca sabe que estes novos apartamentos, a maioria de pequenas dimensões, acabam alugados ou comprados por estrangeiros, muitos brasileiros e franceses.

No final do ano passado, contabilizavam-se no Porto 2926 habitações em fase de licenciamento, sendo que 1777 (bem mais de metade) desses fogos têm tipologias T1 ou inferior, e quase metade são na união de freguesias do centro histórico. Um número que ilustra bem a realidade: pouca oferta para a procura e tipologias para turismo. Tudo isto levou a um aumento exponencial dos preços. No primeiro trimestre deste ano, os preços nesta união de freguesias dispararam 45,2% para 1636 euros por metro quadrado, bem acima do valor mediano na cidade (1379 euros).

A linha entre a oferta e a procura não vai equilibrar nos próximos anos e a chegada de turistas, apesar de se registar no país algum abrandamento, mantém-se elevada. O norte foi a terceira região do país com mais dormidas nos primeiros seis meses do ano, um crescimento de 6,2% para quase 3,5 milhões.

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