Mulheres

Secretária de Estado da Igualdade: “O mérito não nasceu masculino”

Teresa Morais, secretária de Estado da Igualdade
Teresa Morais, secretária de Estado da Igualdade

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Teresa Morais, secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, diz que dificilmente se atingirá a igualdade de géneros no mundo empresarial sem a existência de quotas obrigatórias.

O que justifica uma presença tão pouco significativa de mulheres nos conselhos de administração?

Há quem tenha a explicação de que são as próprias mulheres que, muitas vezes, não estão interessadas em assumir carreiras de grande responsabilidade. Eu acredito que a razão dominante é o facto o recrutamento para as administrações se fazer num universo muito fechado, de que muito poucas mulheres fazem parte e em que aquilo que é valorizado é o facto de já se ter tido experiência em outras empresas e grupos económicos. Se as mulheres nunca fizeram parte desses grupos, evidentemente que não podem ter essa experiência.

Têm razão os que defendem que um sistema de quotas de género coloca em causa o mérito? Ou, em Portugal, não há outra solução?

Ninguém põe em causa o critério do mérito. Este é absolutamente imperativo. O que está em causa é que, quando tenha de ser feita uma escolha entre pessoas com o mesmo nível de qualificação, haja a preocupação de cruzar o critério do mérito com o do equilíbrio na representação de homens e de mulheres. Quando oiço dizer que são contra as quotas porque são a favor do mérito, respondo imediatamente que eu também. Estou convencida de que o mérito não nasceu exclusivamente masculino e que existe mérito nas mulheres e nos homens. As mulheres são a maioria da população, são a maioria da população licenciada e doutorada e são a maioria das pessoas responsáveis pelas decisões de compras de bens e serviços. Isto já seria uma boa razão para haver equilíbrio. Mas quem não tiver sensibilidade para este ponto de vista, sempre poderia lembrar-se de que existem estudos, alguns deles com quase uma década, que provam que as empresas que têm Conselhos de Administração mistos têm melhores resultados financeiros. Em Portugal, e na Europa, começa a perceber-se que não se chega lá de outra maneira [que não as quotas]. Ninguém neste processo chegou às quotas como a primeira opção, todos preferíamos que houvesse equilíbrio não precisando de impor nada a ninguém.

As entidades reguladoras estão sujeitas a uma quota mínima de 33% de cada género. O Governo propõe às empresas do PSI 20 um compromisso para que se atinja esta representação até 2018. Por que não impor quotas também às empresas?

O Governo entendeu que devia esgotar primeiro a possibilidade de que as empresas o quisessem fazer através de um compromisso para que haja, até 2018, uma alteração na composição dos órgãos de administração. No fim deste processo, serão tiradas conclusões. Portanto, não está excluída a possibilidade de vir a tomar-se, no futuro, um outro caminho. Acho preferível que as empresas compreendam que é incontornável tomarem medidas neste sentido. Fica à consideração de cada uma a decisão de assumir, ou não, esse compromisso. Pessoalmente, acredito que não só em Portugal, mas na Europa, dificilmente lá chegaremos por meio de autorregulação.

Assumindo que as empresas acedem a este compromisso, como é que o país beneficiaria, de um ponto de vista económico?

Teríamos um país mais equilibrado, com uma economia mais produtiva e em que a decisão económica refletiria, com mais rigor e impacto, aquilo que é a sociedade portuguesa.

Porque é que, mesmo nas startups, a maioria dos CEO continua a ser composta por homens?

Pode ter a ver com as áreas. Muitas das startups são tecnológicas, e esse é um sector onde é muito difícil encontrar mulheres. Mas há que sublinhar que o empreendedorismo feminino é crescente. Elas estão a tomar nas suas mãos a criação de novos negócios e, nos últimos anos, os negócios criados por mulheres cresceram em função dos apoios comunitários criados para o incentivo ao empreendedorismo feminino. Tanto no QREN como no Portugal 2020, houve e continuará a haver verbas destinadas a promover projetos liderados por mulheres. E o Portugal 2020 tem a norma de que a presença de mulheres nos Conselhos de Administração e a prática de níveis salariais equilibrados é um critério de desempate no acesso aos fundos comunitários.

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