Artigo IV da zona euro

Segundo aviso. Depois do BdP, FMI alerta para risco de bolhas imobiliárias

Christine Lagarde. Fotografia: REUTERS/Ng Han Guan
Christine Lagarde. Fotografia: REUTERS/Ng Han Guan

Primeiro o Banco de Portugal, agora o FMI. Há sítios que preocupam. “Por exemplo, Luxemburgo, algumas cidades alemãs e algumas áreas em Portugal”.

Em menos de um mês, dois avisos sérios. Há sinais de que se estão a acumular “desequilíbrios” relevantes em “algumas áreas” do mercado imobiliário em Portugal, alertou ontem o Fundo Monetário Internacional (FMI). Há pouco mais de um mês tinha sido o Banco de Portugal (BdP) a dizer que “na segunda metade de 2017 começaram a existir sinais de alguma sobrevalorização dos preços” das casas.

Na avaliação anual à zona euro (Artigo IV), ontem divulgada, o FMI repara que “existem vulnerabilidades financeiras que podem estar a emergir em determinadas bolsas”, em certas regiões. “Há sítios – por exemplo, Luxemburgo, algumas cidades alemãs, algumas áreas em Portugal e Holanda – onde os desequilíbrios entre a procura e a oferta estão a levar a uma forte valorização do imobiliário residencial [habitação] ou comercial”, alerta o Fundo dirigido por Christine Lagarde.

Sem se alongar muito sobre o tema, o FMI chama a atenção para o problema latente. Ele é tanto mais ameaçador quanto maior for o endividamento privado das economias.

Num contexto de subida das taxas de juro, como se perfila no horizonte (no final do ano isso já poderá estar a ser sentido), estes desequilíbrios podem conduzir a ruturas sérias no rendimento das famílias e das empresas. O valor do imobiliário pode cair e os juros sobem, deixando em apuros os devedores de empréstimos de maneira repentina.

A missão do FMI que esteve em Portugal na segunda quinzena de maio deixou recados concretos relativamente ao problema. Disse que o país precisa de crescer e muito para conseguir reduzir “as vulnerabilidades decorrentes do elevado endividamento público e privado”.

Sublinhou que “o aumento do preço das casas deve continuar a ser monitorizado, tendo em conta a importância [o peso] das hipotecas nos balanços dos bancos”.

Em dezembro, o banco central dizia que não via sinais preocupantes de que isto estivesse a acontecer, mas com os novos dados que lhe foram chegando, mudou de opinião.

Mas no início de junho, o BdP já constata que “na segunda metade de 2017 começaram a existir sinais de alguma sobrevalorização dos preços do mercado imobiliário residencial em Portugal”.

Essa sobrevalorização era ainda “ligeira” em termos agregados, mas olhando para partes do mercado o fenómeno já suscita cautela.

“Ainda que as indicações de sobrevalorização dos preços no mercado imobiliário residencial em termos agregados sejam muito limitadas, a duração e o ritmo de crescimento dos preços neste mercado (aumentos de 32% e de 27% em termos nominais e reais, respetivamente, desde o segundo trimestre de 2013) podem implicar riscos para a estabilidade financeira, em caso de persistência destas dinâmicas”, escreveu o BdP.

Referiu ainda que o fenómeno de ebulição em alguns segmentos do mercado de habitação estará a refletir “o forte aumento do turismo e da procura por parte de não residentes” que procuram esses ativos de maior rendibilidade em alternativa a depósitos ou outras aplicações menos interessantes em termos de remuneração.

No entanto, tudo isto acontece quando a zona euro está, supostamente, prestes a infletir o rumo das suas taxas de juro, hoje coladas a zero.

FMI pede prudência ao BCE na subida de juros

Mas ontem, o FMI mostrou preocupação relativamente a esse futuro próximo e recomendou a Frankfurt que não se precipite.

O BCE deseja acabar com o programa de compra de dívida e outros ativos no final deste ano e gostaria de começar a subir juros depois do verão de 2019, sinalizou já o presidente da autoridade monetária, Mario Draghi.

Para o Fundo, isso não é assim tão óbvio. O BCE pode ser obrigado a adiar o momento desta subida porque a economia da zona euro está a perder força e a inflação geral continua demasiado baixa.

No artigo IV, diz mesmo que pode “demorar alguns anos” até que a inflação chegue ao objetivo do BCE (perto, mas abaixo de 2%): isto é, Frankfurt pode ter de esperar mais tempo do que julga para subir taxas de forma determinada.

Se vingar este cenário defendido pelo FMI, os mais endividados, como os que investem em habitação em Portugal, conseguem proteção durante mais “algum” tempo.

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