Entrevista a Luís Cabral

“Sindicatos são os principais culpados por haver tantos jovens desempregados”

Luís Cabral, professor de Economia da Universidade de Nova Iorque. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens
Luís Cabral, professor de Economia da Universidade de Nova Iorque. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens

"Os jovens desempregados ou precários deviam era fazer manifestações em frente da sede da CGTP e da UGT", defende o economista.

Luís Cabral é português, tem 55 anos e é especialista em microeconomia, organização industrial e tecnologia, com um vasto trabalho desenvolvido nestas matérias. Formado em Gestão pela Universidade Católica (1983), tirou o mestrado na Universidade Nova (1985) e fez o doutoramento em Economia na Universidade de Stanford (1989).

Desde 2000, leciona e investiga na Stern School of Business, Universidade de Nova Iorque, cidade onde vive. Esta entrevista foi concedida à margem de um debate promovido pela Associação Cristã de Empresários e Gestores, paredes meias com a Igreja de São Nicolau, em Lisboa. Foi o orador convidado e falou sobre “Tecnologia, trabalho e família no século XXI”.

A economia tem um dos potenciais de crescimento mais magros da Europa. Como faria? Concorda com a estratégia deste governo?

Há a questão de normalizar os mercados bancários e de capitais, a questão do malparado. É preciso investir mais em educação e competências. É verdade que nós hoje temos níveis muito superiores ao que tínhamos no passado, há uma geração, mas nem sempre apostámos no tipo de qualificações que seria melhor, tendo em conta as necessidades do mercado produtivo. O desinvestimento no ensino vocacional, por exemplo, foi uma perda grande para a economia.

As instituições laborais são um impedimento à economia? Já muito foi liberalizado, mas o mercado de trabalho ainda teria de ser mais flexível na sua opinião?

Eu tenho um mantra, como sabe. Portugal protege certo tipo de empregados, não protege o emprego. Isto não é uma consideração meramente teórica. Há contas feitas sobre esse custo implícito para a economia. Por cada emprego que artificialmente protejo em determinado sector, estou a destruir entre um e dois empregos novos que podiam ter sido criados. Se crio grandes dificuldades à flexibilidade do mercado de trabalho, isso tem um efeito positivo, é evidente, que é garantir estabilidade no emprego a determinadas pessoas. Mas ao mesmo tempo faz com que as empresas tenham muito mais dificuldade e menor incentivo a contratar novas pessoas a título permanente. As vítimas disto têm sido, claramente, os jovens. Costumo dizer que os jovens desempregados ou precários não deviam fazer manifestações à frente dos ministérios ou do Parlamento, deviam era fazer em frente da sede da CGTP e da UGT. Os sindicatos são os principais culpados de haver tantos jovens desempregados ou com empregos precários. Os sindicatos não protegem o emprego, protegem os empregados que são seus associados.

Mas por exemplo, antes da troika, dizia-se que os desempregados estavam demasiado protegidos, coisa que foi alterada. Hoje o apoio chega a menos de metade dos desempregados, o subsídio dura muito menos, é menos generoso.

Penso que sim, que a proteção contra o desemprego já é um problema menor. Tenho ideia de que muitos dos jovens desempregados nem são especialmente beneficiados pelo fundo de desemprego. O que acontece com estas pessoas é que se mantêm muito na precariedade, de 6 em 6 meses mudam de trabalho, vão de emprego temporário em emprego temporário. Não é por acaso que os países europeus com maior proteção laboral são os países com maior percentagem de emprego precário. Engraçado, não? Isto não é uma coincidência.

De que países está a falar?

Portugal, Itália e Grécia. Porque são estes e não outros? Por que nestes o emprego é mais protegido. Acho que é muito importante olhar para esta questão do sindicalismo e da legislação laboral não tanto na perspetiva da proteção do trabalho, mas do problema que é a proteção de um sector muito específico dentro do trabalho.

Não devia haver sindicatos?

Acho que os sindicatos têm todo o direito de existir, mas penso que a legislação laboral ainda não está bem. Penso que devia ser mais como em Espanha, como a proposta do partido Ciudadanos, de criar um sistema que seja um bom balanço entre as duas partes. Por exemplo, uma indemnização em função da duração do trabalho e acabar com a dicotomia entre o temporário e o permanente. Para quê isto? Por que não ter um sistema em que se eu despedir ao fim de seis meses, não teria de pagar nada. Ao fim do ano já teria de pagar uma indemnização relativamente pequena, se despedir ao fim de cinco anos, teria de ser maior. Uma legislação deste tipo já mudaria muito os incentivos das empresas. Penso que há ainda alguma margem de manobra para melhorar as regras.

A concertação social é uma instituição obsoleta?

Sou a favor de uma legislação laboral que dê uma maior descentralização e que permita um acordo mais flexível entre o trabalhador e a empresa e isto também é já a pensar sobre o que vai ser a economia do século XXI, que vai ser uma economia em que a empresa vai ter uma função muito diferente da do século XX. Essa flexibilidade vai ter necessariamente de existir no mercado de trabalho. Não é um jogo de soma nula, é possível que ambas as partes saiam melhor do que estão atualmente. É difícil os jovens ficarem pior do que estão atualmente em termos de desproteção e de precariedade. Eles hoje não têm nada a perder.

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