Climate Change Leadership

Sogrape investe um milhão ao ano em I&D. Saiba para quê

António Graça, responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape Vinhos
António Graça, responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape Vinhos

António Graça é o responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape Vinhos e esteve na conferência sobre as soluções para a indústria no vinho no âmbito da Climate Change Leadership para dar a conhecer o trabalho do maior grupo nacional de vinhos em matéria de sustentabilidade.

Uma área para a qual a Sogrape despertou já “há 40 anos”, mas em que investe de forma consistente nas últimas duas décadas, sobretudo em conhecimento, porque, garante, a sustentabilidade se baseia em conhecimento. Em média, na última década, o grupo, que tem operações nas principais regiões vitivinícolas nacionais, mas, também, em Espanha, na Argentina, no Chile e na Nova Zelândia, tem investido um milhão de euros ao ano em I&D. À plateia da Alfândega do Porto, onde decorre o evento, que hoje termina com a presença de Al Gore, António Graça deixou um alerta: as alterações climáticas põem em risco o terroir, como hoje o conhecemos.

Veio aqui dizer que o ‘terroir’ está em risco, porquê?
Há um risco sim, entendendo-se o terroir como a expressão constante, continuada do sabor do vinho das condições que dão origem às uvas que são produzidas numa determinada região. Se há um factor – neste caso o clima – que está a alterar a qualidade das uvas claramente que essa expressão vai ser alterada também e isso significa que nós vamos ter regiões onde os sabores aos quais nos habituamos vão começar a alterar-se. Não é para amanhã mas também não é para daqui a 100 anos. Há-de haver um momento, neste período, em que isso vai começar a acontecer. Não vai acontecer de uma só vez, vai haver anos em que, por diferentes razões, essa expressão vai ser alterada. Já os tem havido, o granizo em 2016, a onda de calor em 2018, e quando isso começar a ser mais frequente nós vamos ter, fatalmente, uma mudança da expressão dos vinhos dessas regiões.

E qual é a solução? Adaptamo-nos às mudanças no vinho ou mudamos os locais onde o produzimos?
Temos que começar primeiro por estimar quando é que é provável que essa mudança ocorra. Uma vez que saibamos isso e tenhamos uma estimativa também da magnitude da mudança, poderemos avaliar, também, aí se é economicamente viável adaptarmo-nos ou se fará mais sentido transferir a produção ou começar a criar um novo terroir baseado nas novas condições do mesmo local. Essa é uma decisão que cada produtor terá de tomar, mas terá que ter ferramentas para isso. E neste momento ainda há poucas e é, basicamente, aí que todo o nosso esforço se está a concentrar, na criação de ferramentas que permitam aos produtores perceber o que vai acontecer e poderem tomar as suas decisões de forma consciente e eficiente.

Os produtores, em geral, estão conscientes para o problema?
A maioria dos agricultores em geral, e não apenas os produtores de uva, sentem-no na pele. Hoje em dia é parte do senso comum que o clima já não é o que era. Basicamente, nestes últimos 20 anos do século XXI tivemos 18 anos extremos. É um sinal claríssimo de que estamos perante uma alteração e quem trabalha na agricultura tem claramente essa consciência. Pode-se fazer alguma coisa? Há muitos que pensam que não, que temos que nos conformar. Não é totalmente verdade. E outros que entendem que não é verdade, mas o que lhes falta muitas vezes são ferramentas para gerir uma situação para a qual não há histórico.

É uma situação completamente nova…
Sim. Basicamente temos que começar a preparar-nos para aquilo que nunca aconteceu mas é provável que venha a acontecer. Situações por exemplo como o ano passado em que tivemos um período de primavera e verão extremamente chuvoso, um dos mais chuvosos dos últimos anos, para, no momento em que para, vir uma das piores ondas de calor de que há registo em todo o território nacional, isto é algo sem precedentes. E que tudo indica que vai começar a ser mais frequente. É para este tipo de situações que as mentalidades têm de evoluir. Temos de começar a dar margem de manobra para compensar os efeitos desses eventos extremos como nunca tivemos. Uma delas é utilizar esta extraordinária capacidade que a videira tem de se adaptar a condições muito distintas, muito extremas.

Daí a preocupação pelo estudo exaustivo das castas autóctones. Há quantos anos é que a Sogrape se dedica à investigação deste tema?
A Sogrape já tem nas suas propriedades campos de ensaio de clones de castas portuguesas, precisamente para avaliar a diversidade intra-varietal, desde o início da década de 90. Mas já houve ensaios feitos ainda antes. As vinhas do grupo Sogrape têm estado envolvidas neste processo há quase 40 anos, sobretudo percebendo que nós temos uma riqueza extraordinária no nosso país e que não é igualada pela maior parte dos países da Europa Ocidental. Como nós só basicamente a Itália tem esta diversidade de castas. E isso tem uma razão. É que, ao contrário de países como França, Alemanha, Áustria, em Portugal a maior parte das castas que usamos para produzir vinho não foram transportadas do Médio Oriente para cá. São originárias de cá mesmo e foram domesticadas localmente. E isso hoje em dia está firmemente estabelecido do ponto de vista científico. Isso significa que estamos sentados em cima de um centro da diversidade da videira. Portanto, se temos essa diversidade aqui, temos essa capacidade de adaptação também.

E o que falta?
Conhecê-la bem, saber quais são as castas que têm mais e menos diversidade. E nisso, hoje em dia, estamos a progredir a passos largos. Nestes 40 anos nós obtivemos essa informação para pouco mais de 60 castas e o trabalho está a continuar. Nós neste momento temos uma organização chamada Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, da qual a Sogrape foi fundadora, que tem um centro de conservação em Pegões onde estão neste momento já conservados 30 mil clones de 200 castas. E o objetivo é chegar a 2050 com 50 mil clones de todas as 250 castas nativas portuguesas. É um trabalho feito de forma cooperativa entre o Ministério da Agricultura e um conjunto das empresas privadas mais preocupadas com estas questões das alterações climáticas – já tem 10 anos – e que neste momento tem uma consequência prática muito significativa, nomeadamente a nível de dotação dos agricultores portugueses de capacidade de resiliência com as plantas que vão colocar nas suas videiras, mas, mesmo em termos internacionais, uma vez que este trabalho está a ser objeto de criação de uma resolução na Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) que pretenderá disseminar esta metodologia para todos os países que ainda não começaram a fazer este trabalho de conservação. Porque o que estamos a fazer em Portugal é uma fração do património mundial que a humanidade tem na videira, portanto, se nós temos aqui algo que pode ajudar os outros países porque não partilhar com eles?

Consegue quantificar quanto já investiu a Sogrape na área da sustentabilidade?
Como lhe disse, começamos a investir em sustentabilidade há mais de 20 anos. É muito difícil de quantificar. O que lhe posso dizer é que nós investimos muito em conhecimento. Porque a sustentabilidade baseia-se no conhecimento e nós temos tido um investimento nas nossas atividades de investigação e desenvolvimento que varia entre os 800 mil e um milhão de euros por ano. E isto já desde, pelo menos, há 10 anos. Verbas que encaramos como um investimento estratégico em gerar condições de continuarmos a fazer crescer a nossa faturação e o nosso lucro por muitos anos. É um bocadinho o paradigma das empresas familiares, há sempre uma preocupação com as próximas gerações e aqui basicamente é manter essa capacidade de geração de riqueza para os acionistas, mas também para a comunidade à volta da empresa, de uma forma permanente.

O diretor-geral da OIV veio aqui deixar uma mensagem de algum otimismo, lembrando que, apesar das ameaças, também há oportunidades. Concorda?
Sem dúvida nenhuma. Todos os desafios podem ser convertidos em oportunidades. E o fator que faz essa conversão é o conhecimento. Nós temos de facto é que o gerar, de o usar e de o partilhar. O setor do vinho tem também uma tradição, sobretudo em Portugal, bastante longa de cooperação. Todos nós nos conhecemos e partilhamos os problemas, as soluções, desenvolvemos soluções coletivas, é algo que está muito imbuído na indústria e penso que isso vai ser um fator de grande competitividade para o futuro, como já o está ser hoje.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O presidente do Conselho Geral e de Supervisão da ADSE, João Proença, durante a sua audição na Comissão de Saúde, na Assembleia da República, em Lisboa, 27 de fevereiro de 2019. MÁRIO CRUZ/LUSA

ADSE já enviou novas tabelas de preços aos privados para negociação

Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu. REUTERS/Kai Pfaffenbach

BCE discutiu pacote de medidas para estimular economia na reunião de julho

Hotéis de Lisboa esgotaram

“Grandes” eventos impulsionaram aumento dos preços na hotelaria em junho

Outros conteúdos GMG
Sogrape investe um milhão ao ano em I&D. Saiba para quê