Coronavírus

“Soluções criadas por cidadãos comuns estão a ajudar na resposta à pandemia”

Pedro Oliveira, Nova SBE
(Foto: Nova SBE)
Pedro Oliveira, Nova SBE (Foto: Nova SBE)

Apoiada pela Nova SBE e pela Gulbenkian, a Patient Innovation já tem 80 soluções para combate Covid-19. Pedro Oliveira explica como funcionam.

Pedro Oliveira, professor que detém a cátedra da Gulbenkian de Impacto Económico na Nova SBE, diz que esta pandemia será mãe de muitas inovações. Ao Dinheiro Vivo, fala sobre essa capacidade de criar e como pode ser potenciada. E explica como a Patient Innovation, iniciativa inovadora com soluções para a covid-19 que tem o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e Nova SBE através da Gulbenkian Nova Chair / Cátedra, bem como da NOVA Medical School – Faculdade de Ciências Médicas, Copenhagen Business School e Fundação para a Ciência e Tecnologia, está a ajudar.

Esta pandemia ajudou-nos a perceber o impacto da inovação no dia-a-dia. Acredita que este impulso pode continuar? De que forma podemos incentivá-lo?

Costumamos dizer que a necessidade é mãe de muitas invenções. Se de facto isso é verdade, uma situação como a pandemia que atualmente vivemos — em que há mais de 3 milhões de infetados, mais de 210 mil mortos e mais de 1/3 da população mundial fechada em casa — é um período propício ao aparecimento de muitas inovações. E de facto isso é verdade e tem-se observado em todos os domínios, em que da saúde às atividades sociais, da higiene ao isolamento, têm aparecido soluções interessantíssimas para ajudar a pessoas a lidar com esta nova situação. Na nova página da Patient Innovation, dedicada à partilha de soluções no âmbito da saúde, criadas para combater a Covid-19, contamos neste momento com cerca de 80 soluções desenvolvidas para este efeito. Soluções que foram criadas em tempo recorde e impulsionadas pela urgência imposta pelo momento que se vive.

Mas esta nossa experiência com o Covid-19 mostra como a partilha de soluções desenvolvidas por cidadãos comuns podem (em complemento a outros esforços desenvolvidos por cientistas e empresas para encontrar uma vacina ou desenvolver melhores testes e fármacos) contribuir significativamente para aumentar a capacidade e a velocidade de resposta à pandemia. Penso que é particularmente importante criar e desenvolver esta capacidade para responder a futuras eventuais vagas pandémicas ou outros desastres naturais.

Qual é o maior valor de iniciativas como a Patient Innovation e de que forma podemos potenciá-las mesmo além do contexto de Covid-19?

O Prémio Nobel da Medicina Richard Roberts disse a propósito da nossa abordagem: “Eu acho que essa é uma ideia muito criativa e útil, porque quando as pessoas se deparam com uma situação difícil, elas geralmente apresentam soluções bastante inovadoras para si próprias, mas nem todos criam o mesmo. Se houver um fórum no qual eles possam compartilhar suas soluções, isso poderá ser muito útil para outras pessoas, pois algumas pessoas olharão e perceberão que poderiam combinar algumas dessas ideias e apresentar uma solução ainda mais inovadora e útil.”

Logo no início da pandemia, começámos a observar alguma atividade de criação de soluções para ajudar a sociedade a enfrentar as dificuldades decorrentes da pandemia. E no fundo esta crise pandémica que todos estamos a viver ilustra bem o que acontece na nossa plataforma desde a sua criação, mesmo que de uma forma menos intensa e mais distribuída por outras doenças.

O objetivo da nossa plataforma obviamente não se restringe à Covid-19 e é mais abrangente, pretendendo divulgar soluções desenvolvidas por pacientes e cuidadores, em todo o mundo, para colmatar as dificuldades impostas por doenças ou outras condições de saúde. A verdade é que, muitas vezes, pessoas que vivem diariamente com os obstáculos inerentes às suas condições de saúde, não encontram no mercado soluções adequadas que os possam ajudar a ultrapassar esses obstáculos. Por isso, desenvolvem eles próprios produtos e estratégias que cumpram essas necessidades. Mas o alcance destas soluções acaba por ser muito limitado, cingindo-se ao círculo pessoal mais próximo do inovador, ou sendo talvez partilhado através das redes sociais pessoais.

Acreditamos que partilhar estas soluções através de uma plataforma online, gratuita e internacional, leva estas inovações a um público mais abrangente e permite que cumpram o seu potencial de ser adotadas e adaptadas por outas pessoas que, por todo o mundo, possam sofrer de problemas semelhantes e, assim, melhorar a sua qualidade de vida. Ajudar a divulgar e promover este tipo de iniciativas, como a Patient Innovation, é essencial para que possam cumprir em pleno o seu objetivo e ter um impacto positivo na sociedade.

Como nasceu este projeto e de que forma se financia? E como se faz a passagem da inovação para a introdução das soluções na sociedade?

No meu percurso académico e como investigador em inovação do utilizador, há muito que estudo o papel dos utilizadores no desenvolvimento de bens ou serviços, nomeadamente na saúde. Foi aí que começámos a descobrir casos fabulosos e inspiradores como o de Tal Golesworthy, um engenheiro inglês que sofria de uma doença cardíaca fatal e teria de ser submetido a uma cirurgia complexa e de alto risco. Não contente com este prognóstico, decidiu procurar alternativas e acabou por desenvolver um suporte que, mais tarde, foi implantado na sua própria aorta, salvando-lhe a vida. Tal criou uma empresa para comercializar o suporte aórtico e hoje em dia já salvou mais de 300 doentes na mesma situação.

Este caso impulsionou tudo o que aconteceu a seguir. Investigámos junto de associações de doentes a pertinência de criar uma plataforma digital que servisse de veículo para a partilha de soluções de saúde inovadores e os resultados foram muito positivos. Neste processo, juntou-se à equipa a professora Helena Canhão, que é co-líder, diretora da equipa médica do projeto e principal responsável pela validação médica de todas as soluções. Ao longo do tempo, a o projeto tem crescido, tendo o apoio de dois prémios Nobel e de vários especialistas de renome e tem recebido vários reconhecimentos e prémios internacionais.

Em termos de financiamento, a nossa associação sem fins lucrativos tem beneficiado do apoio de várias instituições como Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a Carnegie Melon Portugal e o EIT Health. Recebemos também apoios financeiros para o desenvolvimento de alguns projetos pontuais, como é o caso desta página que lançámos especialmente dedicada à partilha de soluções para a Covid-19, que foi apoiada pela iniciativa Gulbenkian Soluções Digitais Covid-19 e pela EDP.

No que diz respeito à introdução das soluções na sociedade, estamos neste momento a desenvolver uma iniciativa nesse sentido, o Patient Innovation Bootcamp, com o apoio da EIT Health e várias outras instituições internacionais como a IESE em Barcelona, ou a CBS e a Universidade de Copenhagan na Dinamarca. Trata-se de um programa de aceleração para pacientes e cuidadores inovadores, que lhes dará as ferramentas necessárias para desenvolver os seus projetos e lançá-los no mercado.

O facto de ser apoiada por uma escola como a Nova SBE e por uma fundação de peso como a Gulbenkian foi fundamental para os resultados obtidos, nomeadamente ao nível da participação e qualidade dos projetos?

Felizmente o projeto tem estado sempre ligado a instituição de grande prestígio desde a sua criação. Desde logo o projeto tem recebido o apoio das instituições empregadores de alguns de nós na equipa, no meu caso a Nova School of Business and Economics, através da Cátedra Gulbenkian para a Economics e Impacto, mas também a Faculdade de Ciências Medicas da UNL. Para nós, essas parcerias e apoios prestigiam o projeto e ajudam a promovê-lo.

Já com 1200 produtos inovadores e 120 mil utilizadores, como pode esta plataforma continuar a crescer e ir mais profundamente ao encontro das diferentes necessidades da população, neste como noutros desafios que se apresentem?

A página dedicada à Covid-19 e o PI Bootcamp são exemplos de dois projetos criados para responder a necessidades específicas que considerámos de grande importância. Acreditamos que partilha rápida destas soluções, ou dos planos de fabrico, pode ser de enorme utilidade para toda a sociedade. Por exemplo, em Itália, Christian Fracassi e Alessandro Romano, engenheiros de profissão, aperceberam-se que as máscaras de snorkelling da Decathlon poderiam ser adaptadas de modo a serem usadas nas UCI para ventilação de doentes em estado grave e logo puseram mãos à obra. Estas máscaras têm estado a ser usadas por vários hospitais italianos com grande sucesso e levaram outros a criarem máscaras ainda melhores, como a Pneumask, desenvolvida por uma engenheira biomédica de Stanford durante a sua quarentena.

De que forma podem daqui sair soluções que permaneçam e ajudem no momento de relançar a economia?

Temos assistido a um fortalecimento do sentido de comunidade e de união de esforços para fazer face à situação. Veja-se também como a partilha de designs de viseiras protetoras e dos respetivos códigos para impressão 3D permitiu que, em todo o mundo, dezenas de milhares de voluntários e empresas imediatamente começassem a contribuir para um esforço coletivo de produção destes equipamentos, colmatando as inesperadas necessidades mercado. Ou como a partilha de planos de produção de máscaras protetoras (de tecido, plástico e outros materiais) está a permitir que a produção massiva de máscaras de diferentes designs se tornasse viral, envolvendo interessantes inovações, como a produção de máscaras transparentes que permitem a surdos fazer leitura de lábios.

Também muitas das iniciativas de caráter social e comunitário tem um impacto positivo imediato. Em Portugal, têm surgido várias iniciativas que poderão ter um impacto positivo na economia. Por exemplo, o movimento “Portugal Entra em Cena” vai procurar ser um espaço de apoio a artistas, sendo um fonte de rendimento alternativa, agora que as medidas de isolamento social os impedem de exercer a sua arte. O movimento Preserve é uma plataforma nas quais os estabelecimentos como restaurantes, cabeleiros ou museus, podem vender vouchers monetários que os compradores poderão redimir mais tarde, garantido que esses estabelecimentos mantém também fontes de rendimentos durante o período em que se encontram encerrados. Soluções deste tipo, que têm sido replicadas um pouco por todo o mundo, podem desempenhar um papel essencial na economia.

No Patient Innovation estamos construir um sistema de matching que nos identificar empresas de medtech que possam ter interesse em produzir as inovações produzidas pelo produtor.

Que conselho daria a alguém que queira juntar-se à comunidade inovadora?

Hoje em dia, o cidadão comum tem acesso a um enorme conjunto de materiais e ferramentas que podem ser úteis a quem se quer tornar num inovador. Plataformas e softwares open-source são cada vez mais comuns e podem ser utilizados por qualquer pessoa para desenvolver os seus projetos. Também as tecnologias e equipamentos se vão tornando cada vez mais acessíveis, com opções de baixo custo e simples utilização. Da mesma forma, é cada vez mais fácil ter contacto com outros inovadores, dispostos a partilhar as suas experiências, o que pode ser uma ferramenta essencial a quem esteja a desenvolver um projeto novo mas sinta que não tem ainda todas as competências necessárias. E a participação em iniciativas como o nosso Patient Innovation Bootcamp, para o qual se podem candidatar quaisquer pessoas interessadas e que é um programa de formação especializado que não implica grandes investimentos por parte da candidato (pelo contrário, os participantes receberam ajuda financeira).

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