Standard & Poor's

S&P. Portugal super exposto a nova crise devido a dívida privada e pública

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Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Centeno. Fotografia: Sara Matos/Global Imagens

Nova crise “pode ser inevitável, mas não deve ser tão má quanto a crise financeira global de 2008-2009”, diz economista da Standard & Poor’s.

O universo das empresas privadas não financeiras sedeadas em Portugal regista o quinto maior nível de esforço no pagamento de juros e amortização de empréstimos num grupo de 32 economias de referência. E o rácio da dívida pública é o quarto maior no grupo dos chamados países desenvolvidos (e décimo maior do globo), indicam dados do Banco de Pagamentos Internacional (BIS, na sigla em inglês) e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para a agência de rating Standard & Poor’s (S&P), estes elevados níveis de alavancagem das economias (setor privado e público) são uma vulnerabilidade grave, tendo em conta que “o palco está montado para que ocorra uma nova contração a nível do crédito”. Ainda assim, a empresa de ratings ressalva que “a próxima crise, se ocorrer, provavelmente não será tão dramática quanto a de 2008-2009”.

Num novo estudo divulgado ontem, intitulado “A próxima crise da dívida: será que a liquidez aguenta?” (documento em pdf), a S&P diz primeiro que, “embora os níveis de endividamento global sejam superiores face há uma década, o risco de contágio é menor”.

A Standard & Poor’s tem agendada uma avaliação do rating de Portugal para a próxima sexta-feira, 15 de março.

Dívida empresarial

Mas o perigo está à espreita, ameaçando sobretudo os países mais alavancados. E Portugal está no topo desta lista. Embora o rácio do serviço da dívida das famílias portugueses até seja dos mais reduzidos (os juros pesam cerca de 6,6% do rendimento disponível, quando na Holanda apresenta um máximo de quase 16%), o que ajuda a mitigar esse risco de impacto direto de uma nova crise, o mesmo não se pode dizer em relação à exposição das empresas não financeiras e do setor público.

O estudo da agência de rating, que se debruçou sobre os principais soberanos (Estados) de referência e um universo de 12 mil empresas dessas mesmas economias, mostra que em Portugal o peso do serviço da dívida (juros) empresarial no total do rendimento disponível dessas mesmas corporações equivalia, em média, a 49,7% no final do terceiro trimestre de 2018.

Estes dados usados pela S&P são do BIS e deixam claro que as empresas portuguesas têm o quinto maior esforço num grupo de 32 países em termos de pagamento de juros e outros encargos com a dívida, como amortizações de capital. O ranking é liderado por França. O índice é muito mais leve na Alemanha, onde o esforço com o serviço da dívida vale apenas 19,9% do rendimento das empresas.

No caso de Portugal, a tendência dos últimos anos tem sido no sentido da desalavancagem (em 2017, este rácio do serviço da dívida estava em quase 64%), mas durante 2018 os dados BIS recolhidos pelo Dinheiro Vivo mostram que o esforço está novamente a crescer, já que no início do ano passado era de 48,8%. Agora é 49,7%.

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Dívida pública

A outra vulnerabilidade portuguesa à próxima crise está, como se sabe, no setor público. Também aqui tem havido uma redução importante do peso da dívida, mas ainda assim Portugal continua a ser o décimo Estado mais endividado do mundo tendo em conta a dimensão da economia (PIB ou produto interno bruto).

Em 2014, o rácio da dívida pública atingiu um máximo histórico de 130,6% do PIB, mas foi descendo e, em 2018, ficou nos 121,5%. Mesmo assim, Portugal aparece no estudo da agência de rating com o quarto maior fardo de dívida num grupo de 43 países. Mais elevado só no Japão, na Grécia e em Itália.

Para Terry Chan, uma das economistas da S&P responsáveis pelo estudo, “a dívida global é certamente maior e mais arriscada hoje do que era há uma década, com famílias, corporações e governos a aumentarem o seu endividamento”.

No entanto, “embora outra redução no crédito possa ser inevitável, não acreditamos que seja tão má quanto a crise financeira global de 2008-2009. O aumento da dívida é em grande parte impulsionado pela dívida soberana nas economias avançadas e pelas empresas chinesas, que recorrem a crédito interno, o que mitiga o risco de contágio”, refere a analista.

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Quatro vulnerabilidades

Mesmo assim, a S&P vê quatro zonas de vulnerabilidade, que podem desencadear ou amplificar uma nova crise de dívida.

Primeira. A agência acredita que “o risco de contágio seja menor agora do que em 2008-2009”, mas “os riscos são elevados devido às taxas de juros extremamente baixas”, por exemplo. “Na última década assistimos a uma migração dos fluxos dos investidores para produtos de rendimento fixo de grau especulativo [lixo] e não tradicionais. Esses mercados tendem a ser menos líquidos e mais voláteis e podem ser os primeiros a sofrer com um choque financeiro ou uma onda de pânico”.

Segunda. “Mesmo nos ativos com grau de investimento [não especulativos] também há uma concentração muito maior de emitentes na categoria de rating ‘BBB’, sendo que os ratings têm vindo a apresentar uma tendência de redução ao longo da última década”.

Terceira. Há mais áreas arriscadas. “Mercados de derivados, fundos negociados em bolsa, dívida privada, financiamento alavancado e certos tipos de infraestruturas. Cerca de 80% dos empréstimos alavancados atualmente existentes são do tipo covenant-lite”. Para a S&P, isto indica que “a proteção para os investidores diminuiu”. O volume desse tipo de dívida alavancada “aumentou 15% face há uma década”.

Quarta. “Embora os riscos de incumprimento e malparado tenham sido baixos nos últimos anos, isto pode mudar à medida que as taxas de juro aumentam e o crescimento económico global diminui”.

Por exemplo, os economistas da agência de rating previam que o risco de recessão nos EUA nos próximo 12 meses fosse de 15% a 20% há um ano; agora essa probabilidade subiu para 20% a 25%.

Caso aconteça “uma tempestade perfeita” deste tipo de riscos “em várias geografias e classes de ativos”, tal pode desencadear “um ciclo negativo sistémico”, avisa Alexandra Dimitrijevic, outra das autoras do estudo.

Estes avisos surgem numa altura em que, embora com uma dívida pública das mais altas do mundo, Portugal continua a beneficiar de taxas de juro cada vez mais baixas (mínimo histórico de 1,3% esta segunda-feira.

A S&P tem agendada nova avaliação ao rating de Portugal na próxima sexta-feira, 15 de março, ao final do dia. Atualmente, a dívida da República já não é considerada um ativo especulativo (lixo) nem pela S&P, nem por nenhuma das outras agências de rating.

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