Energia

Subida do petróleo rouba 1,2 mil milhões à economia portuguesa este ano

Mário Centeno. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens
Mário Centeno. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

Governo já assume preço do petróleo 20% acima do que está no OE. Novo ponto de partida é agora 65,9 dólares em 2018, mas barril já supera 78 dólares.

Uma subida de 20% no preço do barril de petróleo Brent, a principal referência para o mercado português, rouba diretamente 1,1 mil milhões de euros ao produto interno bruto (PIB) anual, de acordo com os pressupostos do modelo de “análise de riscos e sensibilidade” do próprio governo.

O Orçamento do Estado deste ano (OE2018) foi alicerçado na hipótese de o preço médio do barril de crude ficar perto dos 55 dólares (54,8 dólares) este ano.

No entanto, o crescendo de tensões envolvendo Estados Unidos, Irão, Israel e Rússia está a levar a uma forte subida do custo da matéria-prima. A pressão é tal que, em abril, no Programa de Estabilidade, o governo atualizou a sua previsão para o petróleo para os 65,9 dólares. Justamente, 20% acima do que está no OE.

Fonte: Programa de Estabilidade 2018-2022

Fonte: Programa de Estabilidade 2018-2022

No início deste mês, a Comissão Europeia elevou ainda mais a fasquia, assumindo agora um preço médio de 67,7 dólares por barril em 2018.

Mas a cotação parece imparável. O preço médio medido entre 1 de janeiro e o dia de ontem já ia em 69,1 dólares. O Brent cotava ontem acima dos 78,3 dólares por barril.

Cálculos do Dinheiro Vivo com base no modelo do Ministério das Finanças, que aparentemente já é conservador tendo em conta os desenvolvimentos mais recentes nos mercados da energia, indicam que um choque de 20% no preço do petróleo faria com que a taxa de crescimento nominal do PIB fosse de 3,2% e não de 3,8% como espera o governo.

Ou seja, em vez de o PIB subir de 193 mil milhões de euros (2017) para os 200,4 mil milhões atualmente esperados, a riqueza anual da economia só avançaria até 199,2 mil milhões de euros. A erosão de valor que resulta do encarecimento do crude ascenderia aos referidos 1,2 mil milhões de euros.

O encarecimento do crude em mais 20% traduz-se ainda numa taxa de crescimento real da economia mais fraca. Roubaria uma décima de ponto. Se tal acontecer, o país cresce 2,2% e não 2,3% como projeta o governo.

Portugal importa o dobro do que exporta

O aumento do petróleo tem um efeito negativo em Portugal porque a economia ainda é altamente dependente do ponto de vista energético, nomeadamente face aos combustíveis fósseis.

No ano passado, Portugal precisou de comprar mais de oito mil milhões de euros em produtos energéticos (petróleo e combustíveis incluídos), mas só exportou metade desse valor. Tem, portanto, uma balança comercial muito deficitária nestes produtos.

Além de fazer abrandar a economia, crude mais caro traz inflação para a economia e agrava o défice comercial. No entanto, o governo não estima que impactos relevantes no défice público ou na dívida.

Relativamente ao preço do petróleo, as Finanças dizem que “o pressuposto é de que aumente em 2018, tendo sido revisto em alta face às projeções de outono de 2017 pelas instituições internacionais, e que recue a partir de 2019 para se situar abaixo de 60 dólares por barril”.

No entanto, as Finanças contam com a proteção do euro. “É considerada ainda uma apreciação da taxa de câmbio do euro face ao dólar em 2018 e sua estabilização nos anos seguintes”. Não é, contudo, o que tem vindo a acontecer nas últimas quatro semanas: o euro perdeu valor face ao dólar, o que também torna o petróleo importado mais caro.

Combustíveis sobem, mas mais devagar

Ainda que a gasolina e o gasóleo sejam relativamente mais caros em Portugal do que noutros países da Europa, o aumento ou a descida nos preços do crude tende a refletir-se de forma menos dramática na evolução dos preços finais cobrados ao consumidor, em Portugal.

Uma das ajudas está também no valor do euro, que tem servido de proteção, tornando as importações mais baratas. Por exemplo, o preço médio do barril de petróleo (em dólares) subiu mais de 21% em 2017, mas o preço médio da gasolina 95 só avançou 6% e o gasóleo ficou 9% mais caro.

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