Entrevista a Olivier Blanchard

“Subir o salário mínimo é perigoso, renegociar a dívida também”

Olivier Blanchard. Fotografia: Álvaro Isidoro/Global Imagens
Olivier Blanchard. Fotografia: Álvaro Isidoro/Global Imagens

“Não pode ser prioridade ir tão rápido na consolidação orçamental, isso é matar a retoma”, avisa Blanchard. Uma expansão "justifica-se” se aumentar potencial do país.

Olivier Blanchard, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), defende em entrevista conjunta ao Dinheiro Vivo e outros meios de comunicação social, as linhas de força do seu novo trabalho sobre a economia nacional. Tenta antecipar o rumo do país nos próximos cinco a dez anos. Recomenda medidas e políticas, como é hábito. O estudo intitula-se Portugal, daqui para onde? e foi apresentado ontem, em Lisboa. Foi feito a meias com Pedro Portugal, um colega que trabalha no Banco de Portugal.

Algumas das conclusões. “Gastar dinheiro público em recapitalizações de bancos [para compensar o reconhecimento de mais crédito malparado] ou em compensações aos que mais perdem com as reformas estruturais é uma ideia que deve estar em cima da mesa”, defendeu aos jornalistas.

Ao contrário do que propôs há dez anos, hoje rejeita um corte nos salários nominais dos portugueses para que se ganhe competitividade. “Hoje seria contraproducente cortar salários”, empolaria ainda mais a dívida.

O grande alerta de 2007

Blanchard, professor de Economia do MIT e diretor do departamento de estudos do FMI nos anos da crise (e do programa de ajustamento de Portugal), conhece relativamente bem a economia portuguesa.

Foi ele que, em 2007, num artigo (paper) muito polémico, vaticinou que Portugal estava em maus lençóis, á beira do colapso, e que para se salvar teria de haver um corte nominal de 10% nos salários, entre outras terapias de choque. Em 2011, o país entrou em bancarrota e a troika aterraria cá com estrondo. Hoje, o francês está mais otimista, embora veja um futuro algo anémico. Produtividade baixa, alguns exageros e políticas curtas.

Quais? “Acredito que as compensações por despedimento devem aumentar com o tempo, mas não deve haver dois regimes”, “gostaria de ver uma simplificação da proteção do emprego na direção do contrato único”.

Além disso, “subir o salário mínimo de 557 para 600 euros seria perigoso porque este já representa hoje 60% da mediana salarial e seria ainda maior. Sabemos que muitos trabalhadores de baixas qualificações começariam a perder o emprego” e “no artigo sugerimos que se reduzam as contribuições sociais (TSU) do empregador nos empregos de baixas qualificações” para compensar essa subida do SMN, se tiver mesmo de ser.

Relativamente ao debate sobre a renegociação da dívida, Blanchard considera um erro. “Se não houver choques maus, Portugal consegue pagar o que deve, apesar do fardo de dívida de que estamos a falar ser substancial, mas é pagável. Não iniciaria uma renegociação ou levantaria sequer a noção de que é preciso renegociar; a partir do momento em que fizerem isso, antes mesmo de a renegociação começar, as taxas de juro sobem”, avisa.

“Portugal vai conseguir pagar por si próprio, isso sabemos, e os credores não vão dar essa borla. É uma ingenuidade pensar que é possível. O custo de tentar é enorme e perderiam toda a credibilidade, seriam vistos como a Grécia.”

Expandir o orçamento para quê?

Blanchard e Pedro Portugal também propõem agora uma expansão orçamental especial, um abrandamento na rota de redução do défice, por exemplo. Para quê?

“Se para alguns bancos não houver capital privado disponível, penso que faz sentido por capital público. A questão é: queremos fazer isto dentro das regras para o défice orçamental ou queremos fazer uma exceção. Uma vez que vamos fazer coisas boas para a oferta de crédito e para o crescimento, podíamos encontrar uma via para que os bancos pudessem ser financiados mas fora das regras do PEC (Pacto de Estabilidade e Crescimento). Seria uma ajuda, um empréstimo de último recurso para os bancos. O que quero aqui é que os créditos em incumprimento (NPL ou non performing loans) sejam removidos dos bancos de forma eficaz e substituídos por crédito às empresas que podem crescer, em vez de zombies”.

Esta é a primeira ideia forte. Os bancos ainda não estão bem e o Estado não se deve coibir de ajudá-los com dinheiro público para garantir o crescimento e o investimento a prazo. “Provavelmente, não há necessidade de uma consolidação orçamental dramática”, diz primeiro. Mas depois reforça: “Sinto de forma muito forte que a consolidação orçamental deve continuar, mas a um ritmo inferior porque vocês têm 130% do PIB em dívida e isto não é algo que desapareça rapidamente. Tentar reduzi-la demasiado rápido para 60% é de doidos. Têm de aceitar o facto de que vão viver com uma dívida elevada.”

Mas então, quer dizer que é partidário de uma expansão orçamental? Portugal deve subir o défice? Deve reduzir, mas indo mais devagar. Além de limpar bancos, o macro economista acredita que “podem haver projetos e reformas estruturais que justifiquem uma expansão orçamental e o seu financiamento através da dívida”. “Mas não escrevam que o Blanchard quer uma grande expansão orçamental, porque não é isso. Caso contrário nunca mais posso voltar a Portugal (risos)”.

“No fundo”, insiste, “devemos ter a noção que pode ser possível gastar mais dinheiro sem ter de aumentar impostos”. “Vocês reduziram o investimento público de 5% do PIB para 1,5%. Tem de haver alguns projetos de investimento público com um elevado produto marginal, que podem fazer coisas boas ao crescimento”. “Uma empresa privada emitira dívida e fazia. Não vejo razão para o governo não fazer o mesmo.”

Até onde pode ir a dívida

A conversa ia a meio quando surgiu a pergunta sacramental. E os mercados? E a Comissão Europeia? Não reagiriam mal? Um país tão endividado a endividar-se mais… “Precisamos de uma mentalidade diferente”, respondeu imediatamente. “Nesta fase, temos um sistema simplista, em que temos estas regras europeias, temos as agências de rating e os seus métodos. É preciso educar Bruxelas, educar as agências de rating.” “Penso que há ideias que o governo português pode levar a Bruxelas, e se o fizer forma articulada, ter o ok. Por exemplo, Itália já obteve alguma margem para poder fazer reformas estruturais.”.

Ok, mas uma coisa é Portugal sozinho fazer isso, outra é ter vários países, alguns grandes, a recorrerem a dívida para financiar reformas. Os mercados aguentariam?

“Depende muito da credibilidade dos projetos específicos. Não estou a dizer que devamos dar aos governos sinal verde para pedirem dinheiro para construírem autoestradas. O que precisamos aqui é de ter financiamento para projetos que, de facto, aumentem o PIB. Penso que fomos demasiado longe na direção oposta.”

“Penso que os investidores não são estúpidos e que dirão ok aos projetos viáveis. Atualmente, Portugal tem uma dívida de 130%, tem um spread de taxa de juro que não é enorme, mas suponhamos que há um grande investimento público que faz sentido e que pode fazer a dívida subir para 135% em cinco anos, o que pode nem acontecer porque o PIB também vai subir, portanto vai até 133%. Acha que os mercados vão ficar doidos? Penso que não.”

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