Também já há robôs nas PME

As vendas da Trumpf, líder mundial de máquinas-ferramentas e tecnologia a laser, duplicaram em Portugal, à boleia da metalurgia e dos fundos comunitários.

À primeira vista é uma pequena e tradicional oficina de serralharia civil e de tornearia, mas na Silfesan, em Torres Vedras, fazem-se desde máquinas para a agricultura até estruturas metálicas para a manutenção de aeronaves. A adesão às novas tecnologias, designadamente à automação e robotização, fez disparar as vendas para 5,5 milhões de euros no ano passado, mais 2,2 milhões do que em 2017. Este ano espera ultrapassar os seis milhões.

A Silfesan é um dos melhores clientes da Trumpf, a multinacional alemã líder mundial no mercado de máquinas-ferramentas e na tecnologia a laser, presente em Portugal desde 2015, constituindo um exemplo do caminho das pequenas e médias empresas para a transformação digital. Silvino Santos, o criador da Silfesan, comprou o seu primeiro robô já lá vão cinco anos. Hoje tem equipamentos da Trumpf, nos quais investiu três milhões, e não esconde a vontade de comprar um quarto, para o corte de tubos a laser. A dimensão do investimento preocupa-o, sobretudo atendendo à sua experiência recente com o Portugal 2020 (ver texto secundário), mas admite que está a perder clientes pela falta dessa máquina.

“Chegamos a ter um encargo mensal com leasings de 50 mil euros. Já consegui reduzir para 34 mil e devia reduzir mais”, assume. Tem já um terreno com sete hectares ao lado da fábrica onde planeia instalar uma empresa independente na área do laser e serviços relacionados. O que obrigará a novo investimento estimado em 200 ou 300 mil euros.

A tecnologia Trumpf assegura hoje cerca de 45% das vendas da Silfesan e Silvino Santos admite que os seus filhos foram determinantes nesta transição. “Se fosse eu a tratar se calhar não seria tão fácil”, admite.

Já na Apametal, especialistas na implementação de projetos de imagem corporativa, a tecnologia Trumpf assegura cerca de 80% dos seus processos produtivos. O grupo, com 40 anos de existência, é hoje constituído por nove empresas distintas e dá emprego a duas centenas de pessoas na região de Sintra.

Santander Totta, Montepio ou Sonae são apenas alguns dos clientes, seja ao nível da sinalética interior e exterior, dos letreiros luminosos, ou dos próprios expositores nos supermercados. Uma área onde os clientes querem um “produto costumizado, mas a preço de escala”, o que não seria possível sem a automação, garante Alexandre Lourenço, CEO da empresa.

Os painéis digitais são a última aposta do grupo, que tem o maior showroom da Europa na área. Em 2017, o grupo faturou quase 7,5 milhões de euros, bem abaixo dos 12 milhões de 2012. Efeitos da crise e da “queda abrupta das margens”. Em 2018 teve oito milhões e este ano espera chegar aos 9,2 milhões. “Aos preços de 2012 estaríamos a faturar 15 milhões”, garante o empresário. As exportações valem 20%, com destaque especial para os mercados espanhol, francês e romeno.

São casos como estes que permitiram que a Trumpf tenha mais do que duplicado as suas vendas em Portugal em três anos, passando de nove milhões em 2015/2016 para os 19 milhões de euros previstos para este ano. Mais de metade são compras financiadas com fundos comunitários.

A manufatura aditiva (impressão 3D) é uma das suas áreas de aposta, o que lhe permite responder a necessidades diversificadas, porque tanto pode assegurar a impressão de um dente numa prótese óssea, como produzir uma peça para uma máquina ou um simples troféu. “Temos sentido imenso interesse, no último ano, por parte das universidades na aquisição destes equipamentos de manufatura aditiva para darem formação aos seus alunos dos mestrados. Diria que, nos próximos 10 anos, Portugal tem condições para dar cartas neste domínio”, defende Pedro Henriques, o office manager da Trumpf em Portugal. A indústria metalúrgica e metalomecânica é o principal cliente da Trumpf, desde as cutelarias ao sector dos moldes para a indústria automóvel, mas a área médica tem vindo a ganhar crescente importância.

Silfesan “Portugal 2020 é pura especulação”

Silvino Santos recorreu ao Portugal 2020 para os investimentos que já fez na robotização, mas garante que é uma experiência a não repetir. “É pura especulação. Apesar do projeto estar aprovado, temos de apresentar prova de pagamento das máquinas antes de recebermos o dinheiro. O IAPMEI pagou com um ano e meio de atraso e eu tive de recorrer à banca para liquidar as máquinas, suportando os respetivos juros”, explica o empresário. Nas próximas aquisições nem quer saber de fundos comunitários. “Foi um ano e meio de grande sufoco, para isso prefiro recorrer diretamente à banca”, garante. Com 61 trabalhadores a tempo inteiro e 12 temporários, a Silfesan presta serviços nas áreas de maquinação e metalomecânica, tendo entre os seus clientes marcas como o Thyssen Group. Crescer e modernizar-se é a aposta de Silvino Santos. A falta de mão de obra é um dos maiores entraves com que se defronta.

Apametal “Os robôs nunca vão substituir as pessoas”

Criada em 1978, foi em 2011 que a Apametal se começou a preparar para a transformação digital. Desde então não parou de investir. Só em 2013 foram oito milhões na construção do parque industrial de 66 mil metros quadrados em Sintra, onde está instalada, e 1,5 milhões em máquinas. E em 2016 submeteu uma candidatura de 5,2 milhões de euros ao Portugal 2020 referente a novos equipamentos industriais, entre máquinas a laser e quinadeiras automáticas, sem falar no parque informático. Só os três robôs de soldadura que tem fazem o trabalho de 40 pessoas, no mínimo. O que não significa, de todo, que haja uma substituição de pessoas por máquinas. “A Indústria 4.0 nunca vai substituir as pessoas”, acredita André Lourenço, administrador da empresa, que garante que o aumento da intensidade tecnológica na Apametal foi acompanhada de novas contratações. Três dezenas, pelo menos, num universo que é já de duas centenas de pessoas.

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