Tebartz-van Elst: O bispo alemão que gasta aos milhões

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Se existe hoje em dia um lugar na Alemanha associado à rebelião,
é sem dúvida a cidade de Limburg, onde até os católicos mais pios
protestam contra o líder regional da Igreja, o bispo Franz-Peter
Tebartz-van Elst. Há anos que o bispo é alvo de críticas por viver
rodeado de luxo ao mesmo tempo que exalta as virtudes da pobreza e da
humildade. Acima de tudo, porém, ele tornou-se um símbolo de uma
Igreja Católica que viu os seus membros reduzirem-se rapidamente na
Alemanha, no seguimento de uma série de escândalos que abalaram a
fé pública na instituição religiosa.

Tebartz-van Elst já foi acusado de mentir, ser narcisista e
esbanjar o dinheiro da Igreja nas suas extravagâncias. Neste
momento, quase todas as semanas surgem novas acusações contra o
bispo e até pastores veteranos do conselho de sacerdotes de Limburg
estão fartos. “Embora eu ame a Igreja Católica, com todas as
pessoas maravilhosas que nela trabalham”, disse um deles
segunda-feira, “não posso deixar de ficar zangado, desapontado e
indignado por aquilo que estamos a viver neste momento. Não se trata
apenas de um indivíduo, mas também das estruturas existentes no
seio da Igreja Católica. Estas precisam de ser mudadas de uma vez
por todas, e talvez os incidentes trágicos dentro da nossa diocese
forneçam o ímpeto para o fazermos”.

Os dias de Tebartz-van Elst parecem estar contados. Poucos
acreditam que o responsável pela diocese ainda se mantenha no cargo
depois dos próximos dias. Porém, Tebartz-van Elst só pode
abandonar o cargo se ele próprio resignar. Até agora, tem ignorado
os conselhos para sair que lhe têm sido dados por outros bispos.
Entretanto, os esforços para lhe arranjar uma tarefa diferente em
Roma também não têm dado frutos. Quanto mais tempo o bispo –
outrora considerado um potencial grande líder pelos católicos
conservadores, se mantiver no cargo – mais danificará a imagem da
Igreja.

A maré está a virar-se rapidamente contra ele. Durante os
serviços religiosos deste fim de semana em Frankfurt e em muitas
outras igrejas de cidades mais pequenas pertencentes à diocese,
críticas diretas ou indiretas a Tebartz-van Elst provocaram
aplausos. “A vida castiga os que esperam demasiado para partir”,
disse o pastor Hubertus Janssen, um padre de 75 anos muito conhecido
em toda a diocese, ao terminar o seu sermão no domingo, sugerindo
que o bispo devia deixar o cargo. Foi ruidosamente ovacionado.
Responsáveis da Igreja dizem que os padres, como os membros da
comunidade, precisam de falar abertamente sobre a situação. “A
lealdade é para com o Evangelho, não para com bispos ou detentores
de quaisquer cargos”, afirmou um deles.

O único caminho que resta para resolver esta situação
complicada “seria uma mudança de liderança”, afirma outro. Um
católico, visivelmente aborrecido com a situação, questionou por
que razão a liderança dentro da diocese “permanece silenciosa, e
porque é que nos deixam à espera como soldados rasos enquanto
pessoas como o bispo destroem a diocese?”

Apelos à transparência

O conselho sacerdotal, uma espécie de organismo regulador da
diocese que inclui cerca de 200 padres, convocou o bispo com urgência
para que lhes fornecesse “informação e transparência exaustiva”,
em vésperas da sua próxima reunião. O organismo afirmou que era
preciso assumir responsabilidades pelos erros cometidos. Os padres
também estão a exigir respostas acerca dos custos exatos de
construção, dos voos e de aquisições relacionadas com o criticado
estilo de vida do bispo.

As críticas a Tebartz-van Elst são muitas e ele tornou-se
conhecido em todo o país como o “milagre do upgrade alemão”
depois de o Der Spiegel ter anunciado que voara em primeira classe
para a Índia, onde alegadamente estava a ajudar crianças pobres,
após ter feito o upgrade do bilhete usando milhas da Lufthansa
acumuladas pelo seu vigário-geral, Franz Kaspar – também sujeito a
críticas. Quando interrogado acerca disto, o bispo de Limburg
respondeu: “Viajámos em Executiva.”

Mais tarde, contrariou essa informação e desde então está a
ser investigado pelos procuradores públicos de Hamburgo por
prestação de falsas declarações. Se for presente a tribunal e
condenado, o crime poderá ser punido com pena de prisão até três
anos. Mas não é este o único assunto que está a criar problemas
ao bispo. Os católicos de Limburg questionam também a sua
credibilidade por causa da construção, sob a sua orientação, de
novas instalações pomposas na cidade. Foi também criticado devido
ao exagerado brocado de ouro que usa e às suas missas excêntricas,
repletas de incensos.

O seu comportamento tem levantado muitas questões. Por que razão,
por exemplo, o Cathedral Capital, organismo normalmente responsável
pela supervisão, foi destituído da responsabilidade de fiscalizar
as finanças do bispo? Alguém, alguma vez, controla os seus gastos?
Não há um único padre na diocese que pareça saber o que o bispo
está a fazer com o dinheiro da Igreja.

Novas instalações

Tebartz-van Elst foi duramente criticado devido aos milhões
gastos no financiamento das suas instalações. Mudou-se recentemente
para o complexo de edifícios, localizado perto da catedral de
Limburg, mas ainda não forneceu qualquer indicação clara acerca
dos custos reais do projeto de construção. Em resposta a uma
pergunta colocada pela comunicação social, estimou recentemente o
valor do seu apartamento no complexo em 200 mil euros. Entretanto, já
foi forçado a admitir que os custos de construção da totalidade
das instalações eram bastante superiores a dez milhões de euros.

Então, qual será o número real? 15 milhões? Ou, como suspeitam
alguns responsáveis da Igreja em Limburg, cerca de 20 milhões? Os
membros da Igreja têm aguardado em vão as respostas, além de se
perguntarem quem é que pagará a conta. Pode haver outra razão por
trás do falseamento dos números. Aparentemente, as regras da Igreja
relativamente estipulam que os projetos e investimentos que se espere
que excedam cinco milhões em custos sejam aprovados pelo Vaticano.
Há quem pergunte se a construção em Limburg foi alguma vez
autorizada.

Outras transações no valor de milhões de euros, incluindo a
venda de propriedades residenciais, parecem também de natureza
dúbia. Foram feitas para sustentar a imagem pomposa e a vida de luxo
do bispo? Até agora, a diocese não respondeu.

Segunda-feira, um padre de Frankfurt falou ao Spiegel online
acerca de uma mulher geralmente pia e calma do conselho da sua
paróquia. “Ela já não suporta a troça e malícia de que é alvo
por ser católica e da diocese de Limburg”, contou.

Domingo à noite, um grupo informal de sacerdotes respeitados e
influentes na diocese – o Círculo Hofheim – reuniu-se nessa cidade e
concordou na elaboração de uma declaração em que pede que todas
as cartas sejam postas na mesa e todas as despesas justificadas. Os
pastores de Hofheim pedem também a criação de um painel de crise
especial, a Comissão para o Diálogo e a Participação.

Werner Otto, pastor de juventude de Frankfurt (maior cidade da
diocese) e membro do grupo de Hofheim, explica: “As coisas que
afetam toda a gente devem ser discutidas e decididas por toda a
gente.” Este fim de semana, espera-se um encontro de padres
importantes da diocese. Uma coisa é clara: Tebartz-van Elst não tem
muito mais tempo no cargo. Nas próximas semanas, provavelmente antes
do encontro da Conferência de Bispos Alemães, o procurador público
de Hamburgo deverá divulgar os resultados da investigação sobre o
bispo. As coisas não parecem sorrir a Tebartz-van Elst, apesar de os
seus advogados produzirem documento atrás de documento, na esperança
de evitar o pior.

Como os membros do círculo de Hofheim, outros padres partilham a
opinião maioritária de que se Tebartz-van Elst cruzou a linha
vermelha, os clérigos da sua diocese terão de pedir a sua
resignação.

“Ele perdeu a noção”

Patrick Dehm, antigo responsável de um centro de aprendizagem
católico em Frankfurt conhecido como “Haus der Begegnung”, que
foi despedido sem aviso pelo bispo em 2012, diz não acreditar que os
católicos de Limburg tenham futuro com o seu bispo. “Tebartz-van
Elst perdeu a noção da realidade”, declara. “Ele não é um
pastor do povo. Está apenas interessado em preservar o poder e os
seus privilégios.” O facto de no último ano ter despedido vários
dos seus críticos, diz Dehm, “conduziu a uma enorme crise de
confiança e levou algumas pessoas a deixarem a Igreja”.

Recentemente, Johannes zu Eltz, um diácono católico de
Frankfurt, recomendou a Tebartz-van Elst num encontro privado que ele
devia tirar um intervalo de sete anos para dirigir a paróquia mais
pobre da diocese antes de voltar ao cargo de bispo. Dehm disse que
esta lhe pareceu uma “sugestão muito justa”.

Dehm acredita agora que há apenas uma maneira de sair da crise.
“A diocese de Limburg costumava ser um lugar de criatividade,
cooperação e com amplo espaço de visão, mas agora parece ter sido
invadida por uma corte real. Precisamos que os protestos ponham fim a
isto.”

Exclusivo Dinheiro Vivo/Der Spiegel

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