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Teixeira dos Santos. “Há que resistir às reivindicações que ameaçam as contas”

Fernando Teixeira dos Santos. Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Fernando Teixeira dos Santos. Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Agora que lidera o Eurogrupo, Portugal "tem de procurar ser, tanto quanto possível, um caso exemplar", aconselha Fernando Teixeira dos Santos.

Fernando Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças de dois governos do PS e quem negociou o resgate da troika, fala sobre as implicações para o país e a Europa da subida de Mário Centeno a presidente do Eurogrupo. Atualmente é presidente do Eurobic, o banco de capitais luso-angolanos que comprou, antes da sua gestão, partes do negócio do desaparecido BPN.

O que significa para si Portugal a liderar o Eurogrupo?

A liderança do Eurogrupo significa o reconhecimento do trabalho que o País desenvolveu nestes anos, no sentido de ultrapassar uma situação de dificuldade no acesso aos mercados, de problemas orçamentais, que no fundo estiveram na origem da penalização a que o país esteve sujeito em termos de financiamento. Estas condicionantes obrigaram a um programa de ajustamento que impôs uma austeridade forte e sacrifícios muito significativos a todos. Vejo esta nomeação como um sinal de que esse trabalho foi completado com sucesso e que, por isso, merece o reconhecimento a nível europeu. Em particular, creio que é o reconhecimento pela parte dos pares do ministro Mário Centeno do trabalho que foi concluído, e com sucesso, nestes últimos dois anos, com a saída do país do Procedimento dos Défices Excessivos.

O reconhecimento é só político?

Claro que a par também de uma recuperação significativa do crescimento da economia, da redução do desemprego e de outro reconhecimento importante, o das agências de rating internacionais que reviram em alta a nota da dívida soberana. Creio que este é mais um sinal desse reconhecimento que no geral, não só a nível institucional, europeu e do Eurogrupo, mas também ao nível dos outros agentes de mercado.

Portugal tem mais obrigações nas finanças públicas com esta eleição?

Mas, sem dúvida, que esta nomeação também traz responsabilidades adicionais para o País daqui para a frente. Devo confessar que por um lado, pressentindo algumas pressões de grupos sociais no sentido de haver renegociação e reposição da evolução que foi travada pelas medidas adotadas durante o período de ajustamento. Havendo grupos sociais que pretendem dar um salto fazendo de conta que nada se passou e com isso atingir níveis salariais e regalias que de outro modo teriam, não fosse esse período de austeridade. Temos consciência de que existem essas pressões e reivindicações, mas pessoalmente devo dizer que não pode ser de um dia para o outro que o país pode recuperar de tudo isso por que passou nos últimos anos.

Essas pressões são assim um risco tão grande?

É importante, sob o ponto de vista político, ser capaz de gerir e de resistir a essas pressões e de manter os resultados alcançados e consolidar este quadro de crescimento com um quadro de maior estabilidade orçamental, de défices mais reduzidos e uma trajetória de redução da dívida que é fundamental para o país. Há que resistir a reivindicações que possam por isto em risco, a prazo. No entanto, é preciso ter força política para o fazer. O cargo de presidente do Eurogrupo vem dar essa força que falta. Dá uma força política acrescida ao ministro das Finanças e, obviamente, que coloca o ministro e até o governo e o país numa posição em que tem de dar o exemplo.

Portugal está num radar em que dantes não estava, é isso?

Sendo o Eurogrupo a entidade que acompanha e faz a monitorização do desempenho económico e orçamental dos países, é evidente que Portugal, no lugar de destaque em que agora fica, tem de procurar não ser objeto de observações desfavoráveis, de críticas negativas. Tem de procurar ser, tanto quanto possível, um caso exemplar.

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