Crise na Turquia

Tensão entre EUA e Turquia penaliza divisas de economias emergentes

Lira turca. Agosto de 2018. REUTERS/Murad Sezer
Lira turca. Agosto de 2018. REUTERS/Murad Sezer

O rand sul-africano, peso argentino, o real brasileiro ou rublo russo também estão a sofrer o impacto da tensão entre a Turquia e os EUA.

Grande parte das divisas dos países emergentes, como o rand sul-africano, peso argentino, real brasileiro ou rublo russo, estão em queda há uma semana, seguindo a lira turca e evidenciando a fragilidade de economias muito dependentes dos capitais estrangeiros.

Segundo escreve esta segunda-feira a Agence France-Presse (AFP), apesar de inicialmente política — surgiu na sequência da exigência por parte dos EUA para que a Turquia libertasse um pastor americano acusado de “terrorismo” e “espionagem” pela justiça turca — a crise entre Washington e Ankara rapidamente evoluiu, assumindo contornos económicos e, às declarações diplomáticas ameaçadoras, rapidamente se sucederam sanções como a duplicação pelos EUA das taxas alfandegárias sobre as importações de aço e alumínio turcos.

E se a lira turca, que só durante o dia de sexta-feira se desvalorizou 19% face ao dólar, surge na primeira linha, outras divisas de países emergentes estão igualmente a ser penalizadas.

Numa semana, o rand sul-africano e o rublo russo perderam 8% face ao dólar, recuando ambos, na manhã desta segunda-feira, para o valor mais baixo dos últimos dois anos.

Com tendência semelhante estiveram o real brasileiro (-4%) e o peso argentino, que se desvalorizou perto de 6% desde a segunda-feira passada.

O índice MSCI, que reúne um painel de duas dezenas de divisas emergentes, tocou por sua vez no nível mais baixo do último ano.

Segundo a AFP, o “efeito dominó” da crise americano-turca evidencia, sobretudo, o nível de vulnerabilidade das economias emergentes face ao dólar e, de forma mais abrangente, face aos investidores estrangeiros.

A rupia indonésia, por exemplo, recuou para o valor mais baixo face ao dólar desde outubro de 2015, após o país ter anunciado no final da semana passada o mais alto défice da balança corrente dos últimos quatro anos, um indicador que ilustra a dependência da Indonésia relativamente ao financiamento estrangeiro.

“O ambiente atual é cada vez mais inquietante para os mercados emergentes. Particularmente para a África do Sul, porque nos tornámos dependentes do afluxo de capitais estrangeiros”, sublinha o economista sul-africano Gavin Keeton no diário Business Day.

Com a aceleração da subida das taxas de juro registada nos EUA desde o início do ano, as divisas dos países emergentes têm vindo também a ser penalizadas.

De acordo com a AFP, o fim da política monetária neutra dos EUA penaliza, em primeira linha, os países que se financiam nos mercados internacionais para sustentar o seu crescimento e desenvolvimento, revelando as suas fragilidades internas.

É que os investidores estrangeiros preferem agora apostar no mercado norte-americano, que remunera melhor o investimento, em detrimento dos mercados emergentes, gerando-se um verdadeiro ciclo vicioso: a divisa local perde terreno face ao dólar, o que leva a um aumento automático do custo das importações e, com ele, da inflação, o que tem como efeito encorajar os investidores estrangeiros a manterem-se afastados.

“As ameaças protecionistas de Donald Trump, que são forçosamente contrárias ao crescimento das trocas comerciais mundiais, são ainda mais nefastas para o mundo emergente”, considera a economista Véronique Riches-Flores em declarações à AFP.

Segundo esta responsável, “se a isto se somar a subida das taxas de juro nos EUA, cria-se um ambiente geral iminentemente negativo e auto destruidor”.

A crise na Argentina, que contraiu recentemente junto do Fundo Monetário Internacional (FMI) um empréstimo de 50 mil milhões de dólares para fazer face à depreciação do peso, que caiu 35% entre abril e junho, é disso exemplo.

Na mesma linha, na Turquia, a escalada da tensão com os EUA foi apenas mais um fator de agravamento da situação da lira, que desde janeiro já tinha perdido bastante terreno (40%) face ao dólar, com a inflação a atingir os 16% em julho, em termos homólogos.

Na segunda-feira, o banco central turco tentou tranquilizar os mercados, assegurando que tomaria “todas as medidas necessárias” para garantir a estabilidade financeira, nomeadamente “a necessária liquidez dos bancos”.

Contudo, até ao momento o banco central turco não tomou a decisão de aumentar as taxas diretoras para sustentar a libra, numa atitude atribuída ao “controlo” do presidente Recep Tayyip Erdogan, hostil a qualquer medida de agravamento monetário, segundo nota Nora Neuteboom, do banco holandês ABN AMRO, citada pela AFP.

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