Indústria

Têxtil e calçado. 122 na falência em três meses

Calçado. Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens
Calçado. Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens

Empresas que enfrentaram dificuldades desde o início do ano são “casos pontuais”, garantem patrões e sindicato

Foram criadas em Portugal, nos primeiros três meses do ano, 194 novas empresas de têxteis, vestuário e calçado, a uma média de mais de duas novas unidades a cada dia. Os dados são da Iberinform e mostram que, no mesmo período, houve 122 insolvências nesses setores, com o encerramento de grandes nomes como a ex-Triumph, a Ricon ou a Sozé a gerar dúvidas sobre a boa saúde destas indústrias.

Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e do Vestuário de Portugal, garante que são “casos pontuais” e que mostram que, mesmo em momentos de expansão, há empresas a falir. “É o mercado a funcionar”, diz. Já Paulo Gonçalves, diretor de Comunicação da associação do calçado, sublinha que a APICCAPS está “atenta aos sinais do mercado”, mas que nada indica que os encerramentos no setor sejam mais do que infelizes coincidências. “Nos últimos anos, o calçado cresceu mais de 60% nos mercados externos, criou mais de 300 novas empresas e mais de 10 mil novos empregos”, salienta.

O Sindicato dos Operários da Indústria do Calçado confirma. “Tem havido alguns encerramentos, mas são maioritariamente pequenas empresas que já vinham demonstrando dificuldades há algum tempo”, diz Fernanda Moreira, que acredita que os trabalhadores já tenham sido praticamente todos integrados noutras unidades. O grupo Sozé, proprietário da marca Dkode, e a Abreu & Abreu foram as unidades de maior dimensão a fechar. Tinham ambas cerca de 130 trabalhadores. O facto de se situarem em Felgueiras, “o concelho do país com menor taxa de desemprego” e com um grande peso do calçado, fez com que fossem rapidamente contratados.

“Quem quiser trabalhar, arranja trabalho com facilidade”, garante o diretor-geral da Moveon, empresa de Esmoriz mais conhecida pela marca que produzia: Aerosoles. A falência do americano Aerogroup, entretanto adquirido pela Alden, levou à perda da licença do uso da marca na Europa e Índia, obrigando ao fecho da fábrica e das lojas Aerosoles em Portugal e Espanha. Foram 90 para o desemprego. A produção da nova marca da Moveon, a Saydo, será subcontratada. “Estamos a começar a receber as primeiras encomendas. É uma marca desconhecida, estamos a tentar convencer alguns dos nossos parceiros [do retalho] a fazer uma primeira experiência”, refere o empresário.

Fecho da Ricon mostra pujança

O fecho da Ricon, de Vila Nova de Famalicão, fazia temer pelas muitas centenas de trabalhadores que ficaram sem trabalho. “Em menos de dois meses foram vendidos os ativos das empresas e absorvido o pessoal. Se houvesse um problema setorial, não seria assim”, diz Paulo Vaz. E nem as exportações em queda, nos primeiros dois meses do ano, no caso do vestuário e do calçado permitem antever problemas.

“É difícil marcar tendências com dois meses de registo”, garante Paulo Vaz, que admite preocupação com o mercado espanhol, que vale um terço do total exportado na indústria têxtil e de vestuário. “As exportações para Espanha começaram a afrouxar nos últimos meses de 2017, tendência reforçada no arranque do ano”, diz. A APICCAPS fala no aprofundar da sazonalidade do setor. “Tivemos um verão e um inverno completamente atípicos e o arranque da primavera também não está a ser o melhor. Temos vindo a receber informações de que o consumo nos países do Centro da Europa têm ficado aquém do esperado e isso reflete-se nas exportações”, acrescenta Paulo Gonçalves.

Numa análise mais fina aos números da Iberinform, saiba que a indústria transformadora é responsável por 18% das 1884 insolvências ocorridas em Portugal nos primeiros três meses do ano, mas que a tendência, face ao período homólogo, até é de redução (-0,9%). Segue-se a construção e obras públicas, com 16% das insolvências e a crescer 7,3%, o comércio a retalho, que vale 15% e viu o número de empresas insolventes agravar-se em 6% e o comércio por grosso: 13% de peso, 9,3% de acréscimo face ao ano anterior.

Dentro da indústria transformadora, o vestuário é o sector que apresenta mais casos de empresas em dificuldades (59), seguido da fabricação de produtos metálicos (47), das indústrias alimentares (40), da indústria do couro e dos produtos de couro (39) e do fabrico de têxteis (24). Na decomposição da indústria do couro, o calçado é responsável por 31 das 39 ações de insolvência.

Mas há que não esquecer o reverso da medalha, as novas constituições. E das 13.213 novas empresas criadas já este ano, 826 são da indústria transformadora. Só na fabricação de produtos metálicos surgiram 126, no sector alimentar 101, o vestuário criou 99, o calçado 45 e os têxteis 39.

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