Indústria

Têxtil e vestuário poderá perder 28 mil trabalhadores até 2025

Fotografia: Ivo Pereira/Global Imagens
Fotografia: Ivo Pereira/Global Imagens

Novo plano estratégico da fileira admite que, em 2025, o setor conte com quatro mil empresas e 110 mil trabalhadores. Em 2018, eram seis mil as unidades ativas e 138 mil os empregos

A indústria têxtil e de vestuário portuguesa pretende ser líder mundial em produtos de nicho e de alta gama, passando de seguidora a criadora de tendências. É essa a meta estabelecida no novo plano estratégico do setor, que esta quarta-feira será apresentado no XXI Fórum da Indústria Têxtil, em Vila Nova de Famalicão, na presença do ministro da Economia Pedro Siza Vieira. Um documento que estabelece, também, objetivos quantificados para 2025: faturar oito mil milhões de euros, dos quais seis mil milhões obtidos nos mercados internacionais, contando com mais de quatro mil empresas ativas e de 110 mil trabalhadores diretos. E contribuindo com mais de mil milhões de euros de saldo líquido na balança de pagamentos.

Números que representam o “cenário de ouro” a que a fileira aspira ascender, através da aposta na digitalização, na diversificação de mercados e clientes, na proximidade ao cliente final e na servitização da indústria, ou seja, da oferta crescente de serviços ao cliente que aportem valor ao produto. Recorde-se que, em 2014, quando apresentou o plano estratégico do setor para 2020, a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) tinha por meta atingir, para o ano, um volume de negócios de 6,5 mil milhões de euros e cinco mil milhões de exportações, igualando o valor mais elevado de sempre até então e que havia sido obtido em 2001. E conseguiu-o não em seis, mas em dois anos. E embora o cenário então admitisse a perda, possível, de cerca de 20 mil trabalhadores, a realidade não o confirmou e a indústria tem vindo a reforçar os seus quadros. Passou de 128 mil em 2014 para 135 mil em 2016 e para 138 mil em 2018.

O ano de 2019 foi marcado pelo regresso dos encerramentos e falências ao setor, em resultado da perda de encomendas por parte da Inditex, que tem procurado destinos mais baratos, como a Turquia ou Marrocos. E as exportações estavam com uma quebra acumulada de 0,9% até setembro. “Foi um ano difícil, mas foi um ano de prova de fogo. Não só provamos ser mais resilientes do que outros, como tudo indica que chegaremos ao fim do ano muito estabilizados. Quer fechemos com crescimento ou com quebra, serão sempre valores muito pequenos, mas são a prova de que a indústria resistiu e aguentou, conseguindo prescindir de um conjunto de empresas que viviam na lógica do preço e que foram as primeiras a sucumbir quando a Inditex deixou de colocar em Portugal as encomendas de preço”, diz o diretor-geral da ATP. Paulo Vaz destaca o “grande esforço de reforço da presença internacional” das empresas do têxtil e vestuário, através da diversificação de destinos e da aposta em design e em produtos de valor acrescentado. O fator preço, argumenta, “é sempre uma armadilha”.

Sobre o futuro, e em especial a meta para 2025, a aposta passa por ter menos empresas, mas de maior dimensão. E, daí, as quatro mil referidas. “É fundamental que as empresas criem escala para que possa atuar melhor nos mercados internacionais. Uma empresa pequena pode ser uma vantagem do ponto de vista da reação, mas é vital que se juntem para partilharem riscos e vantagens”, afirma, defendendo que “mais vale ser dono de metade de alguma coisa do que ser dono de 100% de coisa nenhuma”.

E, por isso, a ATP pretende que o Governo crie medidas especiais, a nível fiscal ou de incentivos financeiros, para promover a concentração empresarial, um problema “transversal” à economia portuguesa. “Os desafios do futuro são cada vez mais exigentes, e precisamos de empresas com maior dimensão, com mais músculo, para que a sua atuação nos mercados internacionais se torne mais visível”.

Quanto às empresas, Paulo Vaz acredita que precisam de apostar, crescentemente, na servitização, ou seja, na oferta de um conjunto de serviços, seja ao nível do design, do desenvolvimento de produtos ou dos novos materiais, que lhes permitirá “gerar valor e ascenderem na cadeia de valor”. Tal como a jusante, com sistemas logísticos “altamente sofisticados”. E para os que acham que a aposta no private label é um risco, deixando as empresas à mercê dos compradores internacionais, Paulo Vaz lembra que a Petratex, a empresa de Paços de Ferreira que desenvolveu e produziu o LZR Speedo, o famoso fato de natação que Michael Phelps vestiu quando ganhou uma mão cheia de medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, “nunca quis fazer outra coisa senão private label e, no entanto, não há nenhuma outra no mundo”.

E porque as empresas portuguesas detêm o saber fazer dos produtos, mas, também, o know how da própria gestão da produção, devem, sempre que deixem de ser competitivas no preço, estar disponíveis para ajudar o cliente a encontrar confecionadores noutros países, se necessário. “É indiferente que a produção seja feita em Portugal, o importante é perceber que o valor acrescentado permaneça e não se perca o cliente”, defende.

Uma deslocalização para destinos de proximidade, como o que já vem acontecendo para Marrocos, onde várias empresas portuguesas instalaram fábricas de confeção, e que, a par da automação crescente – o setor investiu mil milhões de euros nos últimos cinco anos, grande parte na área da digitalização -, levará a uma redução do número de trabalhadores na fileira, trabalhadores esses que já vão escasseando. “O perfil do país mudou radicalmente. Além da crescente escassez de mão-de-obra, as qualificações de base dos jovens são hoje muito mais elevadas e não se querem confinar a empregos na indústria”, argumenta. E contrapõe. “É vital que se comecem a encontrar alternativas e soluções”. No fim, o objetivo é sempre o mesmo: “Ser competitivo”.

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