Tomate nos telhados, quintas na cozinha e cerveja com cheirinho

Produzir de forma mais sustentável para consumidores preocupados com saúde física e mental. É o foco do agroalimentar.

Ir ao supermercado no futuro poderá ser um hábito tão simples quanto subir ao telhado do prédio onde vive ou abrir a porta da cozinha e recolher as ervas aromáticas que tem vindo a cultivar. E nem é preciso ter grande talento para conseguir produtos frescos à mão. Um simples smartphone dá uma grande ajuda. Com o mundo confinado, as marcas alimentares pensam em novos produtos que prometem dar conforto físico e mental. Vai uma cerveja com sabor a canábis ou um atum enriquecido com ómega3?

Da quinta da cozinha para a mesa da sala de jantar. "Assistimos a este boom de kits de produção hidropónica nas cozinhas, que se irão tornar mais populares quando as pessoas perceberem que podem produzir em casa a sua própria comida, sem ocupar muito espaço", acredita Deborah Dull. "É a cadeia de abastecimento mais curta que podemos ter: a um metro de mesa da sala de jantar temos produtos a crescer. Passa por capacitar as pessoas a produzir a sua própria comida, torna-se mais atrativo se tivermos em conta a escassez de produtos a que assistimos", diz a especialista em economia circular e cadeias de abastecimento da GE Digital, anteriormente ligada à Fundação Bill & Belinda Gates.

A complexidade e fragilidade das cadeias de abastecimento na economia da aldeia global tornou-se evidente com a pandemia e acelerou o movimento para uma economia mais circular. "A forma como produzimos os bens e onde os produzimos vai mudar. Comida produzida a menos de 50 km de onde é consumida torna-se mais barata, do que a produzida longe e depois transportada. Quando pensamos na forma como as cidades funcionam - até 2050 estima-se que 80% da população mundial viva em cidades - isso tem de mudar", diz a especialista, uma das oradoras do evento Accelerating retail: grocery edition, do Instituto Kaizen, a decorrer no dia 24.

"Paris estabeleceu recentemente o objetivo de se transformar numa "cidade 15 minutos", em que tudo o que precisa está a 15 minutos a pé ou de bicicleta de casa. Descentralizar as cidades, e a forma como tratamos as operações comerciais no mundo, parece contraintuitivo porque passamos os últimos 150 anos, desde a industrialização, a centralizar a produção em massa, e não mudámos de todo esse modelo. Estamos agora a ver o início dessa mudança".

Comer mais saudável...

Os sinais já são visíveis nos telhados de Nova Iorque, Paris ou Barcelona, nos prédios verdes, com paredes "comestíveis" ou o boom da agricultura dentro de casa. Seja com kits que ajudam os consumidores a testar o seu talento para a agricultura, seja no super. Há um ano, a dinamarquesa Coop anunciou planos de introduzir quintas verticais em 35 lojas Irma, em colaboração com a alemã Infarm. E em outubro foi a vez da Whole Foods Market anunciar que os clientes de duas lojas em Londres iriam ter "quintas" de ervas aromáticas, também em colaboração com a Infarm, que já tinha fechado acordos com a Selfridges, Farmdrop e Marks & Spencer. Um mês antes, a startup alemã tinha fechado uma linha de investimento de 170 milhões de dólares para financiar expansão.

"As empresas portuguesas têm um caminho a fazer, mas têm mostrado uma capacidade enorme de inovar e responder a estes novos desafios e à velocidade a que as aspirações dos consumidores evoluem. Da inovação no desenvolvimento do produto às novas soluções de distribuição e à identificação e desenvolvimento de novas oportunidades de momentos de consumo, são vários os bons exemplos do setor e da indústria que evidenciam esta capacidade", considera Deolinda Silva, diretora executiva da Portugal Foods, lembrando que o setor agroalimentar foi dos poucos que contrariaram em 2020 a quebra das exportações nacionais: 1,683 mil milhões (+4,4%). "A prova de que está a responder às exigências e às tendências, indo ao encontro daquilo que os mercados e os consumidores querem", diz.

E o que querem os consumidores? "Cada vez mais, nutrir melhor o corpo ao mesmo tempo que procuram mais opções que proporcionem um melhor bem-estar emocional. Querem soluções mais adequadas, seguras, responsáveis e mais inspiradoras. Soluções que, do ponto de vista do alimento, tragam o melhor valor nutricional, mas também, que operem no mercado de forma responsável e sustentável e, ainda, que tenham a capacidade de criar relações, de promover a partilha e a experiência."

Snacks energéticos para consumir durante um videojogo ou bebidas perfumadas para bebericar enquanto se acompanha um tutorial de meditação irão chegar cada vez mais ao mercado, aponta o estudo Global food and drink, da Mintel. E a mais produtos funcionais. Veja-se o atum enriquecido da Ramirez ou os cereais de pequeno-almoço da Equanto.

"Vamos ver etiquetas muito mais limpas e produtos mais naturais no futuro próximo. A saúde é agora um conceito mais aberto, cada vez mais holístico, mais perto do wellness. O cuidado da alimentação não é a única vertente. Os consumidores entendem que a saúde mental é um elemento muito mais relevante agora, e nesta área, a indulgência e o prazer vão a continuar a crescer, não é tudo comida saudável", diz David Lacasa, da consultora Lantern.

... e quase sempre em casa

A pandemia obrigou ao teletrabalho, gerou desemprego e mais refeições domésticas: 38% dos portugueses começaram a trabalhar em casa, o valor mais alto dos países do Sul da Europa, só suplantado pelos 41% de Itália, segundo o EIT food foresight: impact of covid-19 on the food sector in Southern Europe, da Lantern - divulgado para a semana. E encomendar comida em serviços de entrega passou a ser habitual: 7% usou pelo menos 1 vez, 23% usou mais, 11% menos ou o mesmo, e 59% nunca. "O modelo de negócio do delivery precisa de uma mudança séria. Neste momento, não é rentável nem para as plataformas nem restaurantes. O problema é o custo da entrega que o consumidor não paga. Se o modelo não resultar, veremos uma maior concentração de plataformas e uma mudança na relação de forças", diz Lacasa.

"Os restaurantes têm que modificar o seu modelo de negócio para que o delivery seja parte relevante da oferta. Vai ser preciso elaborar uma oferta definida para este canal, com custos adaptados, pacote, etc.." Ou novas marcas e dark kitchens, isto é, cozinhas dedicadas à preparação de refeições para entrega em casa. O grupo português de restauração SeaMe, dono do Prego da Peixaria, abriu em janeiro em Almada a sua terceira dark kitchen e planeia abrir mais duas "nos próximos dois meses". Até 2030, a Euromonitor estima que o segmento atinja 1 bilião de dólares.

"Um serviço que vai mudar muito é o da restauração nos centros de trabalho. Estimamos um crescimento de entrega de menus a casa como alternativa. As marcas mais fortes de restauração vão fazer o percurso contrário e desenvolver produtos para vender no super. Da mesma maneira que agora compramos cápsulas de café Starbucks, podemos chegar a ver pratos da Portugália ou de outra marca, prontos para comer, nas prateleiras", antecipa Lacasa.

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