Venda da Partex

Trabalhadores da Partex.”Demos riqueza à Gulbenkian, agora somos postos de lado”

A presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota, conversa com o presidente e CEO da PTT Exploration and Production (PTTEP), Phongsthorn Thavisin durante a conferência de imprensa de anúncio da venda da Partex à empresa tailandesa, na sede da fundação em Lisboa
TIAGO PETINGA/LUSA
A presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota, conversa com o presidente e CEO da PTT Exploration and Production (PTTEP), Phongsthorn Thavisin durante a conferência de imprensa de anúncio da venda da Partex à empresa tailandesa, na sede da fundação em Lisboa TIAGO PETINGA/LUSA

Postos de trabalho da Partex em risco com a venda aos tailandeses. Trabalhadores acusam Gulbenkian de abandono e de recusa em dialogar

Na mesma semana em que os trabalhadores da petrolífera Partex impugnaram em tribunal decisão do governo português de não se pronunciar sobre a venda da empresa aos novos acionistas tailandeses, por temerem despedimentos daqui a dois anos, o CEO António Costa Silva garantiu em entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF que a PTT Exploration and Production (PTTEP) “não tem a cultura de despedir pessoas” e que “foi a melhor escolha para a Partex”, depois de a Fundação Gulbenkian ter decidido que não vai investir mais no petróleo e no gás.

Mas se para Costa Silva “a Gulbenkian é passado” e já está focado no novo acionista tailandês, esperando que o processo de venda fique concluído até ao final de 2019, para os trabalhadores da Partex, o cenário é bem diferente. Perante as palavras do CEO, o Grupo de Representantes da Partex (GRP), em nome do Coletivo de Trabalhadores da Partex Services Portugal, também quis fazer ouvir a sua voz e acredita que a ação que já deu entrada em tribunal pode vir a anular o negócio.

“De acordo o que nos disse o nosso advogado, a impugnação face à decisão do governo de não se pronunciar não pára o negócio. Mas traz riscos. Porque se nos for dada razão, o negócio é anulado. Imagine que a decisão do tribunal chega em abril de 2020 e que nos é favorável. Se o negócio tiver sido efetivado em dezembro de 2019, torna-se nulo e volta tudo para trás, à estaca zero”, garante fonte oficial do GPR em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Além da ameaça de despedimento coletivo que paira sobre os cerca de 50 trabalhadores da Partex Services Portugal, o que mais os incomoda neste momento é mesmo “a recusa da fundação em entrar em diálogo para criar uma rede de proteção que entre em vigor a seguir aos dois primeiros anos. Não há maneira de falarem connosco. Somos pessoas que durante décadas contribuíram para a riqueza da fundação e que de repente são postas de lado. A fundação não pode fugir da responsabilidade, até porque a Dra. Isabel Mota nos garantiu que fazíamos parte da família Gulbenkian e queremos ser tidos como tal. Não somos contra a venda, não queremos é perder com ela”, sublinhou o mesmo representante dos trabalhadores.

Na sua visão, a venda da Partex lesa também a própria Fundação Gulbenkian (já que 40% do seu orçamento vem dos lucros da petrolífera) e o Estado português, que optou por não ter opinião na venda de um ativo de uma fundação privada de interesse público. “Fizemos isto porque já não é a primeira vez que a fundação tenta vender a Partex. Em 2017 isso aconteceu com um grupo chinês, que seria um ótimo acionista, mas depois descobriu-se que a empresa tinha sérios problemas de corrupção, o presidente foi detido, e o negócio anulado. Se o tivesse avançado, como é que nós ficávamos?”, questiona o porta-voz dos trabalhadores.

A grande preocupação, claro está, prende-se com a manutenção dos 50 postos de trabalho. “Foi-nos dada uma garantia verbal, nas não há nenhum documento escrito, formal, que garanta a continuidade dos nossos postos de trabalho. O que se antevê é que daqui a dois anos, como é o normal neste tipo de transações de aquisições e fusões no mundo do petróleo, haja uma reestruturação e que as pessoas sejam relocalizadas para onde o novo acionista deseje. Os ativos da Partex não estão em Portugal, estão no Médio Oriente, no Cazaquistão, no Brasil. Não há nenhum interesse em manter aqui uma estrutura quando o centro de decisão está em Banguecoque. Assim, aos técnicos poderá ser proposto que sejam deslocalizados para outros países; os não técnicos serão redundantes. E estamos a falar de pessoas que têm décadas de trabalho na casa e que vão ter uma dificuldade imensa em voltar a integrar-se no mercado de trabalho. Mesmo para os técnicos, a deslocalização para outros países poderá não ser pacífica”, refere ainda.

Face à garantia de que o novo acionista não tem cultura de despedimentos, pedem então a criação de “uma rede de proteção que será ativada caso as coisas corram mal e haja uma reestruturação que atire as pessoas para o desemprego”. “A fundação quer pôr o ónus desta discussão no novo acionista. Quer libertar-se de toda a responsabilidade, sacudir a água do capote, mas não pode fingir que não tem responsabilidades sobre nós, quando a Partex dá lucro e é responsável por 40% do orçamento da fundação todos os anos”, remata.

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