Guerra comercial

Trump tem nas mãos ameaça ao motor europeu. Bruxelas espera manter acordo

REUTERS/Kevin Lamarque
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Termina este domingo prazo do relatório do Comércio dos EUA sobre tarifas aos automóveis. Bruxelas duplicou compras de soja e ainda espera um acordo.

O preço de um carro europeu nos EUA poderá a partir de 17 de maio encarecer em mais de 1200 euros, ou 1400 dólares. As contas são do think tank americano Center for Automotive Research, num estudo publicado em vésperas de o Departamento de Comércio do governo norte-americano fechar o relatório de investigação à segurança das importações de automóveis e componentes pelo país. O prazo termina este domingo.

Ao fim de 260 dias de investigações, o documento aterra este domingo na secretária da sala oval da Casa Branca. Donald Trump, o presidente dos EUA, terá 90 dias para decidir se, e a quem, poderá impor sobretaxas de 25%. Alemanha poderá ser o país europeu mais afetado caso as tarifas à UE avancem. Mas Portugal, com vendas residuais aos EUA, também pode ser apanhado em cheio e por tabela. Vendeu no ano passado 5,07 mil milhões em componentes automóveis aos parceiros europeus que exportam, além das vendas diretas de componentes de 260 milhões aos Estados Unidos.

“A Comissão Europeia continua empenhada em cumprir com a letra e o espírito da Declaração Conjunta acordada pelos presidentes [Jean-Claude] Juncker e Trump a 25 de julho”, diz o economista Lars Nilsson, da Direção Geral de Comércio da CE.

Num ano recorde de vendas, 2017, a UE vendeu ao lado oposto do Atlântico carros num valor superior a 38 mil milhões de dólares. Na Alemanha, maior exportador europeu, antecipa-se já uma quebra de 18,4 mil milhões de euros com a imposição de tarifas, segundo cálculos do think tank Ifo. As tarifas são uma das nuvens a toldar o céu sobre Berlim, depois de a economia alemã ter registado crescimento zero no quarto trimestre do último ano.

Em Bruxelas, a ameaça ao motor europeu, e aos motores que este expede para o país de Donald Trump, é minimizada. Cecilia Malmström, comissária europeia do Comércio tem-se manifestado confiante de que não haverá tarifas, enquanto continuar a sentar-se à mesa com o representante do Comércio norte-americano Robert Lighthiser – a última reunião aconteceu a 10 de janeiro.

Ao Dinheiro Vivo, Lars Nilsson, economista da Direção Geral de Comércio da Comissão Europeia, lembra que “a Comissão Europeia continua empenhada em cumprir com a letra e o espírito da Declaração Conjunta acordada pelos presidentes [Jean-Claude] Juncker e Trump a 25 de julho”. Tanto o lado europeu como o norte-americano têm um mandato para negociar um acordo de comércio, recorda.

Agenda positiva

Deste lado do Atlântico, o esforço de desanuviamento de uma guerra fria comercial consubstanciou-se num aumento para o dobro das compras de soja aos EUA na segunda metade do ano. A Comissão fez nota pública do facto em janeiro, no mesmo mês em que adotou uma autorização para aumentar ainda mais estas exportações ao reconhecer a soja americana na produção de biocombustíveis. No final deste ano, os EUA tornaram-se também os maiores exportadores de gás natural para a Europa, destronando Coreia do Sul e México.

“Como fica demonstrado pelos recentes desenvolvimentos e números de importações de soja e gás natural liquefeito, estamos já a fazer progressos significativos. Os presidentes Juncker e Trump também acordaram não tomar qualquer ação que vá contra o espírito do acordo “, diz Lars Nilsson, que na última semana esteve em Portugal para uma palestra acerca das guerras de tarifas.

A UE também está disponível para reduzir barreiras não-tarifárias, com “um acordo de avaliação de conformidade que tornará mais fácil às empresas provarem que os seus produtos reúnem os requisitos técnicos de ambos os lados do Atlântico”.

De momento, o foco está numa “agenda comercial UE-EUA positiva”. Mas, sublinha o economista, a retaliação está na manga, para disparar no momento em que a Administração norte-americana anuncie tarifas. “Tal como o presidente Juncker e a comissária Malmström referiram em diferentes ocasiões, se forem propostas tarifas de importação ou outras restrições comerciais, a UE está pronta para reagir rapidamente”.

Partilhas do brexit

Mas a agenda comercial europeia está minada de emergências. O prazo para o brexit, a 29 de março, criou uma situação de indefinição perante a qual o economista da Comissão Europeia não arrisca avaliar um impacto para as trocas internas de bens e serviços do grupo após a desafetação do Reino Unido. Como devem preparar-se países como Portugal? “A Comissão analisou as consequências da retirada e preparou avisos para apoiar a prontidão das autoridades públicas e entidades privadas em vários sectores. Estes avisos foram publicados num site de prontidão para o brexit”, encaminha Nilsson.

Na iminência de uma saída em andamento do Reino Unido, no próximo mês, a pauta europeia vai manter-se firme nas alfândegas que enfrentam o Canal da Mancha. Do lado de lá, “é decisão do Reino Unido que tarifas aplicar após a sua retirada da UE”. E com o resto dos parceiros do mundo falta ainda acertar uma divisão de quotas no âmbito da Organização Mundial de Comércio, na partilha que couber após o divórcio. “A Comissão está no processo de analisar reivindicações apresentadas por membros da OMC e desenvolverá negociações e consultas subsequentes com os membros da OMC adequados com os procedimentos relevantes da OMC”, explica o economista sobre a definição do futuro contingente pautal de acesso a mercado para uma UE a 27.

Amigos a Oriente

Nem tudo serão contas de subtrair. A agenda de negociações europeias tem posto a tónica em somar amigos num ambiente de cada vez maior hostilidade comercial global. Numa nova parceria com o Japão, já em vigor, a UE conta aumentar exportações para Oriente em 13 mil milhões de euros (mais 13%), no sector agroalimentar, químico e dos têxteis. “São exemplos de produtos que serão particularmente interessantes para as quase 900 empresas portuguesas que já fazem negócio com o Japão”, destaca Lars Nilsson.

Até ao final deste ano, a Comissão Europeia espera também fechar novos acordos na Ásia, com Singapura e Vietname. O acordo com Singapura, o mais avançado, poderá fazer crescer as vendas europeias em 3,6%, ou 1,1 mil milhões de euros, basicamente na área dos serviços, destaca o economista.

Também a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento vê oportunidades nos desafios para os exportadores europeus, prevendo que a guerra comercial entre China e Estados Unidos possa garantir 70 mil milhões de dólares adicionais de vendas à União Europeia. Mas, para Lars Nilsson, este não é um cálculo simples. “Estamos no processo de conduzir a nossa própria análise da situação. O comércio é complexo. As guerras comerciais não têm vencedores e podem ter consequências imprevistas para além de meros aumentos e quebras das exportações”.

O envolvimento dos EUA nas negociações com a China, com o prazo de 1 de março para um acordo que contenha nova escalada de tarifas prometida por Trump, poderá entretanto protelar uma decisão que afete os carros europeus. Para já.

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