entrevista

Turismo. “Orçamentos irrealistas” prejudicam Porto e Norte

Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal. Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens
Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal. Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens

O recém eleito presidente da TPNP ambiciona aumentar a estadia média para duas noites em cinco anos

Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), afirma-se “ferozmente regionalista”. Aos comandos da TPNP desde janeiro quer que entidade e colaboradores se foquem numa estratégia de transparência e de união entre todos os parceiros da região. O responsável admite a necessidade premente de formar recursos humanos para o turismo e que o recrutamento poderá ter de passar pelo exterior. Antes, deve apostar nos jovens e na sua fixação ao território.

Foi eleito presidente da Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte de Portugal há quase dois meses e assumiu a liderança da entidade após o antigo presidente ter sido detido por suspeitas de corrupção. Como encontrou a estrutura?
Está a ser um desafio interessante. A Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP) tem 70 colaboradores, que estavam algo desmotivados por força das circunstâncias. Mas o passado é passado. O processo e o que está a acontecer diz respeito à Justiça. A nós cabe a colaboração total. O primeiro desafio foi voltar a motivar os colaboradores, percorrer as várias delegações – ainda não tive tempo de conhecer todas. Fazer reset em relação ao que aconteceu. Há uma nova comissão executiva, novos órgãos sociais, uma nova forma de estar, de valorizar os colaboradores. Dar tranquilidade para trabalhar.

O segundo desafio foi atuar rapidamente, para responder a um grande conjunto de solicitações, eventos, aberturas e/ou encerramentos. Não deixar sem resposta os compromissos assumidos, como presença nas feiras nacionais e internacionais, Estivemos na Fitur, em Madrid, em Orense, na missão que o Turismo de Portugal desenvolveu na África do Sul dedicada ao enoturismo – um segmento muito importante para a região – e não deixamos de estar presentes na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) e contactar com 70 mil participantes. Desenvolvemos o maior stand de sempre na BTL, foram 600 eventos, uma agenda alucinante.

Encetámos um conjunto de reuniões mais institucionais, com o Turismo de Portugal, a Secretaria de Estado do Turismo, a Secretaria de Estado do Orçamento e com parceiros da região, como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e a Associação do Turismo do Porto (ATP) e agora tentar com alguma tranquilidade reunir com todas as Comunidades Intermunicipais (CIM).

Qual é o seu plano para a região? E com que orçamento vai trabalhar? No ano passado o orçamento foi de 13,7 milhões de euros…
E
m maio vamos apresentar o plano de atividades – assente na promoção nacional e em Espanha. Temos sete produtos estratégicos: turismo de negócios, gastronomia e vinhos, natureza, cidade e short breaks, religioso, cultural e saúde e bem-estar. É um desafio muito grande pertencer a uma região como esta, que tem tudo e para todos os gostos, uma riqueza impressionante.

Vamos trabalhar com um orçamento realista e não com um orçamento para encher páginas dos jornais. É o meu compromisso com os associados e com a Secretaria de Estado do Turismo e a Secretaria de Estado do Orçamento. Estou neste momento a ser prejudicado devido a orçamentos irrealistas do passado. Herdei uma situação algo complicada, que levou a cativações elevadas. Tive uma reunião no âmbito da BTL para descativar verbas. A situação de exceção desta entidade merece ser olhada com particular atenção dadas as circunstâncias recentes. O orçamento da TPNP conta três milhões do Turismo de Portugal e mais 800 mil euros de receitas próprias. Vamos analisar com a CCDR-N a possibilidade de aceder a fundos europeus. É um bom valor para fazer um bom trabalho. Aprovámos um orçamento em assembleia-geral que tínhamos herdado – tínhamos urgência em deixar de estar em gestão corrente – e até maio voltaremos a reunir para retificar o orçamento.

Onde se nota já a sua ação?
Lancei dois slogans. Para os municípios: “Mais Norte”. E a nível interno: “Juntos somos mais fortes”. Estou a promover uma entidade em que os colaboradores percebam que queremos uma relação aberta. Sou anti capelinhas. Privilegio uma gestão de proximidade, de muita transparência e muito trabalho em equipa. Estou aqui para unir, para agregar. Este será um mandato que privilegia projetos transversais ao território, quero unir os municípios.

A CCDR-N, a Secretaria de Estado do Turismo e o Turismo de Portugal têm aqui um parceiro alinhado com as políticas nacionais e estamos aqui para colaborar. Não estamos a trabalhar sozinhos. Queremos uma entidade aberta, de proximidade e com disponibilidade. É a marca que estou a deixar.

Como analisa o papel da Associação de Turismo do Porto (ATP)? Não há sobreposições com a TPNP?
Há uma boa relação com a ATP, percebendo os limites de cada uma [a TPNP tem a seu cargo a promoção nacional e Espanha e a ATP o resto do mundo] e a querer que a TPNP tenha uma voz presente na ATP. Nós estamos disponíveis para falar a uma só voz, mas compete aos associados das duas entidades assim o quererem. Estamos a reunir. Há um bom entendimento entre as duas entidades. Não fazia sentido que fosse de outro modo.

Quais são os maiores desafios que a região enfrenta e que procurará colmatar?
Conseguir esbater a sazonalidade, privilegiando muito mercados emissores de longa distância. O Brasil é o terceiro mercado emissor para a região e vem no que chamamos a época baixa e com dinheiro. Dar muita atenção ao mercado espanhol e ao muito importante mercado nacional.

Gostaria de chegar ao final do mandato, daqui a cinco anos, e ter conseguido, ou ultrapassado, as duas noites de estadia média. Atualmente é de 1,8 noites. E aumentar os proveitos turísticos na região.

Dos 4,3 milhões de turistas que recebemos no ano passado, 75% ficaram na Área Metropolitana do Porto e 50% ficaram no Porto. Outro desafio é conseguir espalhar estes turistas por toda a região. Já conseguimos que o Porto e o Norte fossem descobertos e agora temos que conseguir levar esta dinâmica ao resto da região. A região não se esgota numa viagem, é possível fidelizar os turistas e que em várias viagens nunca repitam o mesmo destino e a mesma experiência.

Quais são as apostas em termos de promoção?
Vamos dar muita atenção à realização de press trips e fam trips, com jornalistas e operadores de Espanha, com o cuidado de as realizar em territórios menos desenvolvidos em termos turísticos. Para abril está já agendada uma press trip com jornalistas espanhóis a Trás-os-Montes. Vamos privilegiar a relação com a Galiza e com Castela e Leão. Também com o Turismo do Centro. Vamos aumentar a presença em feiras em Espanha. Atualmente fazemos onze e há mais duas ou três a que queremos ir. Queremos também, com todos os parceiros, repensar os nossos stands, de forma a que a nossa presença consiga atingir três objetivos: criar impacto, possibilitar a memorização por parte daqueles que nos visitam e transformar visitantes em clientes.

Os grandes eventos são relevantes na promoção do destino. Quais as apostas deste ano?
Os grandes eventos são muito importantes para a região. Esperemos que o Turismo de Portugal apoie, este ano, sem medos, o Rally de Portugal. O rally traz um retorno à economia avaliado em 150 milhões de euros, 30 milhões dos quais em impostos e um número difícil de contabilizar de comunicação em todo o mundo. O rally é transmitido em 160 países. E é um evento transversal ao território, passa por Fafe, Lousada, Paredes, Matosinhos, Gaia. Queremos também fidelizar aqueles que assistem e os que fazem parte da máquina do rally, que querem repetir a visita ao destino para férias. A recomendação tem funcionado muito bem e é a mais eficaz e mais barata promoção. Estamos muito sensíveis à realização de grandes eventos, e estamos em diálogo com outros parceiros.

As lojas da TPNP são uma montra da região. Há mudanças previstas?
No Porto, temos duas lojas estratégicas: uma no aeroporto e outra em frente à estação de S. Bento. Mas não estamos totalmente satisfeitos com a forma como estão a trabalhar. Em ambas vamos privilegiar a realização de ações de animação. Na loja do aeroporto vamos empreender uma dinâmica diferente de comunicação, com mudanças do layout que possam ser utilizadas por todas as CIM [Comunidades Intermunicipais]. Em S. Bento queremos resolver o problema da visibilidade exterior da loja. Vamos apostar muito no marketing digital. Para a geração milénio é uma fonte de informação. A geração Z nem sequer imagina outra forma de se informar. A TPNP vai passar a internalizar profissionais de marketing e de marketing digital, não só para apoio à própria entidade, mas também para os seus associados. Ainda no primeiro semestre vamos contratar dois a três profissionais da área.

Outra questão prende-se com as delegações. Não faz sentido o Porto e Norte ter delegações, por exemplo, na Régua e não ter na AMP. No primeiro semestre, vamos ter aqui uma delegação. Estamos em diálogo com instituições e autarquias, a estudar.

Será em Matosinhos, no terminal de cruzeiros?
É uma possibilidade.

Fala-se que a região, com especial foco no Porto, tem atualmente muita oferta ao nível do alojamento. Concorda?
Quem define isso é o mercado. Eu não quero imaginar que uma empresa realize um investimento sem conhecimento do território e sem um estudo de viabilidade económica. Sabemos que as perspetivas são boas para o turismo, continuamos a crescer e o Norte muito em particular. A Organização Mundial do Turismo prevê que esses indicadores de crescimento se mantenham até 2030, o que é bom para quem investe. Não partilho da opinião que o Porto e Norte de Portugal está na moda. A região foi descoberta pelo turismo nacional e mundial. Admitindo que um dia, numa situação de crise, esses números possam estabilizar ou ter ligeiros recuos, não acredito que regressem aos números do passado. É uma região demasiado bela e rica em experiências e em diversidade para voltar ao que era no passado.

Há também um novo turista a chegar à região. A Emirates, com quatro voos semanais, vai fazer chegar um turista que procura qualidade de serviço e produtos e experiências muito exclusivas. Temos de nos preparar para este target, que felizmente existe e tem muito dinheiro para gastar e quer gastar. Será preciso ter muito cuidado no serviço que prestamos e na formação dos recursos humanos.

O enoturismo é uma das apostas do setor. O que está a equacionar a este nível?
Temos tudo para ser bem-sucedidos. Uma paisagem fantástica, grande qualidade do vinho e gastronomia. É preciso saber associar os produtos vinho, restauração, animação turística, alojamento… de forma a construir um produto premium. Na África do Sul há um trabalho de rede, de parceria, e não uma lógica de concorrência. A promoção do destino é articulada com o poder público e a comunidade. E há turistas dispostos a pagar entre 3000 e 20 mil euros por noite.

Será necessário formar recursos humanos, ter mais pessoas disponíveis para trabalhar no setor…
Estamos a trabalhar com os municípios e entidades associadas para sensibilizar para esta preocupação que é a formação de recursos humanos. O recrutamento tem de ser em primeira instância local, para dar emprego aos residentes e evitar que muitos tenham de sair da região. O turismo tem que conseguir fixar os jovens. E temos de fazer recrutamento a nível nacional e internacional. Os empresários têm de encontrar um salário justo, que permita que o serviço que prestam ao cliente seja de elevada qualidade.

É a favor ou contra a taxa turística?
A taxa turística é uma competência das autarquias. Nunca direi se sou contra ou a favor, mas defendo que o dinheiro seja aplicado na promoção do destino, no benefício direto dos turistas e dos residentes, em matérias como a limpeza, a segurança e a reabilitação urbana.

O Brexit é uma ameaça ao turismo na região?
Para o Porto e Norte não é uma grande preocupação. Não que não nos importe o mercado britânico. É o quinto mercado da região e tem muito por onde crescer. No presente, a situação é complicada para regiões como o Algarve. Temos nove milhões de britânicos a entrar em Portugal, dos quais seis milhões são no Algarve. Dos outros, uma grande parte entra pela Madeira e o resto divide-se pelo país. É preciso criar uma porta de entrada para os britânicos, que não seja a dos europeus e de preferência que não seja a do resto do mundo. É necessário ter um canal privilegiado para os britânicos entrarem e é isso que está a ser feito por Portugal. No entanto, posso estar enganado, mas acho que não vai haver Brexit nenhum.

Descentralização ou regionalização? Que modelo considera mais ajustado ao país?
Sou ferozmente regionalista e não tenho a menor dúvida que é a forma de organização do Estado que melhor pode ajudar a desenvolver o território tornando-o mais coeso. O turismo também ganha com isso. Tudo o que seja aproximar a decisão do território é bem-vindo. Espero que a nova discussão que agora se abriu permita que desta vez a regionalização seja uma realidade. Em 1995, quando era um jovem deputado, tinha a certeza do que acabei de dizer. Hoje não só tenho a certeza como considero que é urgente.

 

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