Turismo

Turismo religioso traz cada vez mais visitantes

Santuário de Fátima, Portugal (DR)
Santuário de Fátima, Portugal (DR)

Portugal tem templos, locais de culto e festas religiosas que fazem novos caminhos turísticos de norte a sul. Portugueses ou estrangeiros, são muitos os que levam a fé às férias.

Põem-se a caminho quando o tempo se torna ameno e os dias prolongam-se, embarcando na aventura de percorrer a pé o caminho da fé. Muitos, como neste ano fez Ana Torres Pereira, tomam por destino a cidade espanhola de Santiago de Compostela. Há muito que tinha curiosidade em percorrer o Caminho de Santiago, “andava sempre à procura de alguém que o fizesse”, conta.

Certo dia, em conversa com um grupo de amigas, percebeu que preparavam-se para repetir a experiência e decidiu juntar-se ao grupo. Foram de Lisboa ao Porto de comboio e de lá para Valença antes de seguirem a pé pelos cerca de 120 quilómetros que separam a cidade raiana portuguesa de Santiago de Compostela. Levaram cinco dias, de mochila às costas, a cumprir “o grande desafio”, pernoitando em albergues. Pelo caminho, cruzaram-se com muitos outros, portugueses e estrangeiros. “Estamos a ter um grande crescimento de turistas que fazem o Caminho, arrancando de Portugal”, reconhece o presidente do Turismo do Porto e Norte.

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O Caminho Português de Santiago passa por Lisboa, Coimbra e Porto, mas nem todos começam no mesmo ponto geográfico. “Estamos a falar de cerca de cem mil pessoas [que passaram pelo norte] em 2018. Já começa a ter uma importância grande na região”, confirma Luís Pedro Martins. Reconhece que “é difícil encontrar números precisos relativos ao impacto económico”, mas admite que “tem sido curioso perceber que estão a crescer microempresas ligadas à área, criadas nos últimos dois anos. São constituídas por jovens que estão a encontrar formas de ir ao encontro das preocupações dos peregrinos”. Exemplo disso são as aplicações móveis com informações para estes turistas e outros serviços que procuram facilitar a viagem – levando as mochilas, por exemplo – ou tornar a experiência diferente, fazendo o percurso a cavalo, entre outras soluções.

Não há dados concretos sobre quanto vale este tipo de turismo, mas o retrato económico ganha nitidez quando se avança que “o Caminho português regista um crescimento de praticamente 90% nos últimos três anos, período em que o total de peregrinos que chegaram a Santiago cresceu 25%”, nota a Secretaria de Estado do Turismo. “Para promovê-lo, especialmente tendo em conta que 2021 será o Ano Jubilar Compostelano ou Ano Santo Jacobeu (celebrado desde a Idade Média, por disposição papal, quando o dia 25 de julho, em que se celebra o apóstolo Santiago Maior, calha ao domingo), foi aprovado pelo governo um modelo para certificação e reconhecimento internacional do Caminho Português de Santiago, que está neste momento a ser implementado e que passa a permitir ter gestão e sinalização globais do caminho.”

Luís Pedro Martins acredita que, graças também a uma maior proximidade com as autoridades da Galiza, vai ser possível “num ano ou dois duplicar este número” e alcançar cerca de 200 mil pessoas.
A atividade turística tem crescido nos últimos anos na região norte – foram mais de 5,2 milhões de hóspedes no ano passado e nos primeiros cinco meses de 2019 a região registou 2,02 milhões de pessoas nas unidades hoteleiras, o que representa mais 161 mil do que no período homólogo de 2018. “Os Caminhos de Santiago são uma das bandeiras fortes, em que vamos apostar ainda mais, mas há outras. Braga tem aumentado bastante os seus números à conta do turismo religioso. E achamos que a nomeação do Santuário do Bom Jesus a Património Mundial da UNESCO vai ajudar a potenciar tudo isto. Só no ano passado, a cidade de Braga registou cerca de 500 mil dormidas”, aponta ainda o líder do Turismo do Porto e Norte.

Milhões em Fátima
A partir de meados de abril, quem percorre as estradas nacionais depara-se muitas vezes com grupos de pessoas com coletes amarelos. São peregrinos que vão a Fátima e que, no último ano, somaram sete milhões de pessoas, uma afluência que o reitor do Santuário, Carlos Cabecinhas, considerou reveladora de “um crescimento significativo de grupos de proveniências até há pouco incomuns”.

Ana Duarte (nome fictício) há alguns anos que, em conjunto com outras pessoas, parte dos arredores da capital com esse destino em vista, já com itinerário traçado e as camas onde ficará a descansar escolhidas e marcadas. As refeições são feitas pelo caminho. De norte a sul, os peregrinos que atravessam localidades a pé a caminho do Santuário ajudam a dinamizar as economias locais, fazendo-se clientes do comércio e da restauração.

O desenvolvimento das áreas em redor do santuário – que contam com unidades hoteleiras e vários espaços comerciais – deve-se também ao crescimento do número de pessoas que todos os anos visitam o local. No último ano em que apresentou contas (a que não está obrigado) – 2006, ano da construção da Basílica da Santíssima Trindade -, o santuário anunciava 17 milhões em receitas. Mais de uma década depois, terá crescido e engordado as contas de hotéis, lojas e restaurantes de toda a região.

No ano passado, visitaram Fátima 2785 grupos de estrangeiros, vindos de 26 países, e 1602 portugueses. “Temos feito uma grande aposta no turismo religioso para promover Portugal internacionalmente como país de espiritualidade, quer através de Fátima quer dos Caminhos de Santiago, da Herança Judaica e dos Altares Marianos”, diz ao Dinheiro Vivo fonte da Secretaria de Estado do Turismo. “Vamos introduzir duas novas dimensões neste programa: as festividades religiosas e os Sacro Montes (integram locais de arte sacra como o Santuário do Bom Jesus do Monte e o do Sameiro, a Capela de Santa Maria Madalena, o Caminho Real que liga esta capela a Guimarães, a Citânia de Briteiros e o Castro de Sabroso). Não há números globais sobre turistas com motivação de turismo religioso e de espiritualidade, mas temos bons indicadores quanto à procura crescente de turistas para cada uma das áreas que temos promovido.”

Segundo o gabinete de Ana Mendes Godinho, têm chegado a Fátima muitos grupos de vários pontos da Ásia, “o que demonstra a grande capacidade de o turismo religioso ser um instrumento para a diversificação de mercados”.

Herança judaica
A vertente religiosa na zona centro não se esgota, porém, aqui. Conta também com uma herança judaica mito forte. Entre os séculos V e XV, a comunidade sefardita estabeleceu-se no território nacional, tendo-se envolvido fortemente na cultura nacional. Em 1496, o Édito de Expulsão dos Judeus em Portugal obrigou muitos a converter-se ao catolicismo e os que não quiseram seguir esta via saíram do país, contudo, as marcas e as inscrições dos que ficaram – e, em segredo, mantiveram a sua fé – são ainda visíveis em casas das antigas judiarias, cujos vestígios podem ser encontrados em cidades como Trancoso, Belmonte, Guarda e Castelo de Vide.

Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, lembra que “tem havido um crescimento muito sólido, fruto do trabalho de proximidade desenvolvido com diversos agentes económicos – nacionais e regionais -, com particular destaque para os mercados externos. No caso da herança judaica, temos trabalhado com muita consistência a promoção deste produto em diversos países, em particular Brasil, EUA e Israel”.

Rona Schliesser tem uma agência de viagens, a Portugal, com visitas feitas à medida e trabalha com vários grupos de israelitas que visitam Portugal. Conta que a maioria dos turistas vem para conhecer. “Sei que há muita história de judeus cá e claro que quando chegam querem saber mais. Nas nossas tours, falamos sempre da ligação aos judeus”, mas não é “o tema principal da visita”. Tem testemunhado um crescimento do número de turistas a chegar, beneficiando do aumento de voos semanais a ligar os dois países, mas não esconde que “a maioria dos que vêm não vão às aldeias judaicas”, antes fazem a “visita clássica: Lisboa, Porto e talvez umas paragens em Coimbra e Óbidos”.

De acordo com os dados citados pelo governo, o mercado israelita cresceu 44% em dormidas desde 2015, para 238 mil. Só de janeiro a abril, o número de hóspedes de origem israelita aumentou 15,5%, “o que reflete o investimento promocional que estamos a fazer”. O gabinete de Ana Mendes Godinho remata sublinhando que “o turismo religioso – e espiritual – tem tido um crescimento exponencial em Portugal, sendo um instrumento poderoso para levar as pessoas a descobrir todo o território”.

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