Um ano de máscaras com a "noção da missão cumprida"

Milhares de empresas produziram equipamentos de proteção. Com o mercado inundado e o regresso dos clientes tradicionais da moda, poucas continuam a dedicar-se a este negócio.

Andar de máscara na rua banalizou-se e já quase ninguém se recorda que foi há um ano que o Citeve certificou os primeiros modelos. Um acessório de que todos nos queremos ver livres, mas que continua a alimentar algum negócio junto da indústria têxtil nacional, mesmo que numa dimensão infinitamente inferior. Doze meses passados, Braz Costa, responsável do Citeve, fala num ano "extraordinário", de "muito trabalho e esforço", mas também da noção de "missão cumprida". Já o secretário de Estado da Economia elogia a indústria: "O país só pode agradecer às empresas deste setor o esforço imenso que tiveram para responder à pandemia."

Com a publicação das especificações técnicas para o fabrico de máscaras comunitárias, a 14 de abril, as empresas dedicaram-se em pleno ao desenvolvimento e todos os dias acorriam às centenas ao Citeve com os pedidos de análise laboratorial. Foi a 18 de abril que o Centro Tecnológico do Têxtil e Vestuário certificou a primeira máscara comunitária de uso único e, quatro dias depois, os primeiros cinco modelos reutilizáveis, inicialmente para cinco lavagens apenas.

A partir daí foi em catadupa: no fim de abril havia 93 modelos aprovados, um mês depois mais de 740 e, no fim de julho, eram já mais de três mil. "Durante meses, o Citeve trabalhou ininterruptamente para dar resposta às solicitações de empresas ávidas por ter produto qualificado para colocar no mercado interno e, sobretudo, nos mercados externos", diz o centro que, até dezembro, testou 11 758 amostras, emitiu 9583 relatórios e realizou 32 144 ensaios.

"A capacidade da indústria têxtil portuguesa deu frutos e permitiu desenvolver um negócio de máscaras e de equipamentos de proteção individual que ajudou a mitigar muito do que poderia ter sido um ano muito mau", diz Braz Costa, diretor-geral do Citeve. Hoje, a área covid continua a ter procura, mas a um ritmo diferente. "Nunca se pensou que fosse um negócio de futuro. Alguma coisa vai ficar, mas seguramente não nas máscaras de baixo valor, para essas, já não há mercado", defende.

Braz Costa lamenta apenas a "hecatombe" provocada pelas notícias vindas da Alemanha, quando decidiu impor o uso das máscaras cirúrgicas e FFP2 em espaços públicos, na medida em que vieram trazer uma "má imagem" às máscaras têxteis, que "não a merecem". Mesmo imerecido, fez mossa. "E muita. Estávamos a exportar mesmo muito e houve uma quebra completa. Enfim, não é justo, não havia razão para aquilo, mas é a vida, o mercado é assim", frisa.

Mas este responsável é perentório em achar que "há muito mais mundo para além das máscaras", sublinhando que os grandes desafios da indústria têxtil portuguesa "estão cá e ainda mais vivos", seja o de sermos um país "mais sustentável" ao nível da produção de moda, uma questão "ainda mais premente do que já era antes da pandemia", e o "eterno desafio" do aumento da produtividade que, com o boom do digital, "está incrementado, revisto e aumentado". Tudo isto envolto no contexto de incerteza "a que já estamos habituados", frisa.

A Estamparia Têxtil Adalberto, que desenvolveu a primeira máscara que inativa o vírus SARS-CoV-2, vendeu mais de seis milhões de máscaras, mas, desde novembro, que deixou de produzir. O produto continua à venda, designadamente na MO, a cadeia da Sonae que foi parceira neste projeto, e a têxtil de Rebordões admite repor stocks, sempre que houver necessidade. Mas já se dedicou, em pleno, ao segmento da moda e ao dos têxteis-lar, que tem tido "um boom enorme de vendas", diz Susana Serrano.

"Infelizmente, tivemos que produzir máscaras devido à situação pandémica, e sem dúvida que ajudou as empresas têxteis, numa altura em que elas precisavam, mostrando a capacidade da indústria de se reajustar às necessidades do país, mas eu acredito que isto não é uma área de negócio para ficar. Aliás, espero que daqui por meio ano já não precisemos de usar máscaras", defende a CEO da Adalberto.

A empresa aproveitou a pandemia para se dotar dos investimentos necessários ao nível da automatização, digitalização e rastreabilidade de modo a colmatar a falta de viagens e de feiras para mostrar in loco os seus produtos. Tem toda a sua área de produção de malhas digitalizada, o que permite apresentar coleções e modelos aos clientes com recurso à tecnologia 3D, com a inerente poupança ao nível dos custos, a redução do desperdício e do tempo, já que passa a ser capaz de fazer em três dias uma produção que lhe levaria, antes, duas ou três semanas. A Adalberto fechou 2020 com vendas de 30 milhões de euros, 20% acima do ano anterior, valor que espera, no mínimo, manter em 2021. Exporta cerca de 85% do que produz.

Também na Digitall o negócio das máscaras "desapareceu por completo". Luís Passos lamenta que se tenha "aberto as portas à China e que o mercado esteja infestado de coisas ilegais". A "machadada final", diz, foi dada com a polémica alemã e a preferência pelas máscaras cirúrgicas e FFP2. "No espaço de um mês os clientes desapareceram todos, a confiança dos consumidores caiu por terra e o negócio morreu", garante. Mas a atividade normal da Digitall, na área da sublimação e dos equipamentos desportivos, já regressou aos níveis pré-pandemia.

"Enquanto houver clientes"

Já a Location Available, que produz a La Mask, continua a vender e a ter procura, quer de particulares, na sua loja online, como de clientes empresariais. Alfredo Gomes admite que a polémica alemã tornou o consumidor "mais seletivo". O novo modelo que a empresa certificou em fevereiro, para 100 lavagens e um nível de proteção de partículas acima dos 90%, está a ter grande procura. "Enquanto houver clientes, cá estaremos", diz o empresário, que entretanto avançou com uma plataforma online, a Texland, que vende todo o tipo de tecidos e malhas. Orientada para profissionais, está preparada para fazer vendas mínimas a partir dos cinco metros.

O secretário de Estado da Economia admite que a "enorme capacidade" demonstrada pela indústria para responder à pandemia foi "absolutamente decisivo" para termos "condições de segurança" para a vida em sociedade. Ou seja, para o desconfinamento, em maio de 2020. Sem esquecer, claro, que as máscaras foram também "um balão de oxigénio" para as empresas, quando as condições de mercado eram "particularmente difíceis".

Hoje, João Neves acredita Portugal só pode aspirar a produzir artigos de maior valor acrescentado. "Os produtos massificados não têm espaço naquilo que é a visão de uma indústria moderna e competitiva. Podem ter um espaço conjuntural, mas não estrutural", argumenta.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de