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“Um dos problemas do Serviço Nacional de Saúde é de gestão”

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“Um dos problemas do Serviço Nacional de Saúde é de gestão”

Luís Filipe Pereira foi secretário de Estado da Segurança Social e da Energia, ministro da Saúde, liderou a Efacec e o Conselho Económico e Social.

Tem 73 anos e uma carreira feita no setor público e privado. Liderou grandes empresas, como a CUF e a Efacec. Mas foi como ministro da Saúde, no governo de Durão Barroso, que saltou para as páginas dos jornais. Foi secretário de Estado da Segurança Social e da Energia, nos governos de Cavaco Silva. Mais recentemente, liderou o Conselho Económico e Social e hoje é presidente do Forum de Administradores e Gestores de Empresas (FAE), entidade que pretende ser porta- voz dos gestores e que vai realizar o primeiro congresso, em Novembro.

No século XXI, era de grande sofisticação na gestão, porquê um primeiro congresso de gestores?
Os gestores são, nas empresas, quem tem a responsabilidade de criar a riqueza de um país. As empresas têm pessoas à frente que fazem a gestão, que muitas vezes não são os detentores, outras vezes acumulam as duas qualidades. Em Portugal 97% são PME e se juntarmos as micro são 90%. Os gestores tomam as decisões. Não estou a menosprezar a importância das políticas públicas. O Estado define o grande quadro, mas a obtenção de resultados é dos gestores. O que se passa em Portugal é que tem havido um défice de representação dos gestores na sociedade portuguesa. Faz falta uma entidade que possa representar os gestores, independentemente do seu background ou percurso académico. É evidente que os gestores não têm de ser licenciados, e não são, na grande maioria dos gestores das PME. Há grandes exemplos de sucesso de não licenciados. Lembro-me de uma pessoa com quem lidei e por quem tenho enorme admiração, Américo Amorim, que não deixou de ser um dos maiores empreendedores no país.

Não há uma Ordem para gestores. O FAE quer ter esse papel?
Exato. Mas não queremos fundar nenhuma Ordem! Queremos é que, quando um problema se coloca às pessoas que tomam decisões, que haja uma entidade que possa ser a voz dos gestores. Quando houver questões que devam ser discutidas a nível nacional, como decretos que vão atingir as empresas ou o gestor, que haja uma instituição que possa ser essa voz.

A qualidade dos gestores, em Portugal, é satisfatória?
Não tem que ver com a qualidade dos gestores…O que temos visto é que gestores sem formação formal são responsáveis por grandes êxitos e por grande parte das exportações. Podíamos ter melhor formação e julgo que os empresários, se tivessem tempo, também teriam disponibilidade para isso. A gestão é uma área que é condicionante e faz a diferença num país. Um dos problemas que o nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem é um problema de gestão. Vamos apresentar ideias, escrever documentos que possam ser apresentados, discutidos e, de alguma maneira, pretendemos que o congresso seja o momento instituidor desta ideia de representação dos gestores pelo FAE. E é também uma tentativa de dar luz e trazer para a ribalta pessoas que não estão no PSI 20.

Que temas quentes irão a debate?
O congresso vai ter quatro temas: o estado da gestão em Portugal; a ética; os deveres e direitos dos gestores e o papel dos gestores no mundo e na economia de hoje. Em relação à ética, não só porque se tem tornado evidente pelos casos que infelizmente ocorreram, mas porque achamos que a ética tem de estar presente em qualquer ato de gestão. As empresas têm preocupações de ética com os clientes, trabalhadores, fornecedores e o próprio Estado. A ética pode ter um papel estruturante. Temas que têm sido muito discutidos pelo lado negativo, já que alguns dos nossos gestores mais conhecidos estão a braços com a justiça.

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“Um dos problemas do Serviço Nacional de Saúde é de gestão”

Muitas vezes é dito que a falta de competitividade e produtividade do país é culpa dos maus gestores que temos. Concorda?
Como em todos os setores, existem bons e maus profissionais. Podíamos fazer melhor se tivéssemos gestores um pouco mais preparados, mas não usaria tanto a dicotomia bons e maus gestores, é redutor. Precisamos de melhorar a gestão em Portugal e o congresso é o primeiro passo.

Zeinal Bava, Henrique Granadeiro ou Ricardo Salgado desiludiram-no?
Foi uma surpresa para mim. Eu conhecia-os de contactos ao longo da vida profissional, alguns até conhecia pessoalmente. E surpreendeu-me, de facto. Poder-me-á chamar de ingénuo mas foi uma surpresa porque eram pessoas que estavam em postos muito importantes da economia portuguesa, responsáveis por uma parte importante do PIB.

Na sua opinião os gestores portugueses passaram a ser olhados, cá fora, como pouco éticos ou até criminosos?
Criminosos ainda não, porque ainda não se sabe. Mas do ponto de vista da imagem, sim, prejudicaram a imagem da gestão em Portugal. Obviamente que todas estas notícias, fundadas ou não, contribuíram para uma certa ideia no país de que os aspetos éticos não foram respeitados, de que houve decisões que não foram do interesse da empresa mas sim de interesse próprio ou de um núcleo de pessoas com vista a proveito próprio, e isso não deve acontecer.

Acredita que as empresas éticas têm melhores resultados?
Sou defensor das empresas que têm códigos de conduta, embora não haja estudos quantificados em relação a isso. Mas as empresas que têm preocupação com a ética são, na minha opinião, as mais sustentáveis porque se baseiam em códigos de conduta que têm de ser disseminados por todos os que trabalham na empresa, e isso é um fator forte de coesão. As empresas com forte cultura de ética levam a maior coesão e melhores resultados em termos de performance.

Depois dos casos do BES e PT, aprendemos a lição?
Espero bem que sim. Foram postos no terreno diversos mecanismos que resultaram já destes casos. Espero que casos destes não se possam repetir, porque são maus para a imagem do país e dos gestores. Sabermos se houve ou não culpa só o poder judicial pode dizer, mas na opinião pública isto ficou como uma evidência.

Mas os mecanismos que existiam falharam…
Há mecanismos legais e de regulação no terreno e isso compete ao governo.

Mas que falharam…
Sim, podemos dizer isso pela evidência das coisas. Os reguladores têm um papel muito importante. Sou um grande defensor da regulação e dou dois exemplos: a primeira vez que houve um regulador em Portugal na área económica, tirando a área financeira, foi na energia, quando eu era secretário de Estado, por proposta minha e de Mira Amaral [então ministro da Energia]. Mais tarde, também com muitas críticas, fui quem criou a entidade reguladora da saúde. Há mecanismos que têm de ser postos no terreno pelo governo. Há a outra parte, a ética, e não consegue ter pessoas virtuosas apenas pondo na lei coisas que têm de ser cumpridas. Tem de ser um movimento de dentro para fora das empresas. Nas grandes empresas há espaço para códigos de conduta, mas não vai pedir códigos de ética a empresas com 30 pessoas…

Como é que isso se faz de dentro para fora?
Passando a mensagem às pessoas que trabalham nas PME, de que a ética é um valor em si próprio e podemos ter aí um papel. Hoje as PME são confrontadas com concorrentes ferozes e isso leva, por vezes, a comportamentos de sobrevivência. Todos temos consciência disso, mas é preciso chamar a atenção que uma empresa, por definição, tem responsabilidades perante os trabalhadores, fornecedores, o governo, a sociedade civil. A ética tem de ter um papel essencial. No congresso, um dos temas é a ética e convidámos para speaker a pessoa que, quando esteve à frente da Galp, introduziu o código de ética na empresa. Ferreira de Oliveira será o orador principal desse tema.

A economia digital vai mudar o paradigma da gestão?
A digitalização, a robotização, as tecnologias de informação são três drivers decisivos nas alterações que podemos esperar para o futuro, quer na gestão como noutras áreas. Na área da saúde, a robotização já é uma realidade. A digitalização e também um fator fundamental. Hoje, por exemplo, já existe a desmaterialização das receitas. A primeira vez que isto foi tentado foi comigo em Portalegre numa farmácia e, por acaso, não correu bem há 12 anos! As novas tecnologias vão introduzir ruturas muito grandes e de uma maneira transversal.

No passado, os jovens empresários não se identificavam com a FAE e nem se sentiam representados na organização. Como pretende o FAE atrair a nova geração de gestores?
De facto, o FAE tem sido percecionado como uma associação onde estão as pessoas com experiência e em postos elevados e estamos a tentar mudar isso. Infelizmente não temos conseguido. No caso do empreendedorismo, tentamos estar ligados a esses movimentos, tivemos ligação com a Startup Lisboa e poderemos fornecer mentores que possam ajudar jovens. Não é criar coisas estanques, em que de um lado estão as pessoas mais jovens e do outro os baby boomers… o FAE já há quatro anos que tem uma ligação às universidades e temos tentado estimular os alunos e professores a escreverem estudos de casos da realidade portuguesa e até agora já conseguimos 50 estudos de casos que estão no nosso site. Temos também um protocolo com uma iniciativa Women’s on Board que é importante. O FAE tem de ser dinâmico. Esta direção vai dar voz à gestão e envolver-se com as pessoas e os jovens.

O país tem várias empresas-escola, como a Sonae. Daí têm saído empreendedores e altos quadros. Como se pode incentivar ao desenvolvimento dessas empresas-escola?
Eu tive a sorte de iniciar a minha carreira na grande escola de gestão que existia em Portugal na altura, a CUF. Nos governos todos a seguir ao 25 de abril vai encontrar pessoas da escola CUF. Achamos que o papel dessas empresas-escola é extremamente importante. Deixe-me dar uma informação pessoal: claro que aprendi muito na Faculdade, mas aquilo que fui e sou em termos de gestão devo-o às empresas onde passei. Gostaríamos que estas empresas estivessem sensíveis a isso. Aquilo que se aprende na universidade é importante mas a formação decisiva é a que aprendemos nas empresas.

Como é que se faz? O crescimento económico tem uma palavra importante. O sucesso das empresas não é o governo que determina, o sucesso é determinado pelos gestores, acionistas e pessoas da empresa. O estado pode ajudar através de boas políticas macro.
Considera sustentável o crescimento do PIB a que temos vindo a assistir, em Portugal?
O crescimento é uma boa notícia para o país, mas temos de nos preocupar com a sustentabilidade desse crescimento que passa por termos, no terreno, mecanismos que aumentem a produtividade das empresas. Estamos numa economia de mercado e a concorrência é sempre e cada vez mais elevada e global. Há reformas de fundo que têm de ser feitas e não estão feitas.

A que é que se está a referir?
À reforma da Segurança Social, a reforma do próprio Estado, a reforma política.

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