Coronavírus

Um quinto das empresas quer despedir até setembro

segurança social
Segurança Social. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

O mercado de trabalho passará o verão apenas à beira do abismo. O pior é esperado para o último trimestre do ano.

Os dados oficiais do desemprego permanecem grandemente um retrato congelado da realidade pré-covid, que não traduz ainda o peso dos perto de 180 mil novos registados em centros de emprego desde início de março. Mas do verão avista-se o precipício. Nas intenções dos recrutadores, praticamente um quinto prepara-se para reduzir pessoal ao longo dos próximos meses. E o final do ano deverá ser pior.

Desde o final da última crise, os meses de março a setembro têm sido aqueles em que se obtêm os maiores ganhos de emprego. Mas a pandemia deitou por terra qualquer perspetiva de época alta no recrutamento. Até setembro, 19% das empresas deverão começar a reduzir o número de trabalhadores, aponta o último inquérito do grupo Manpower para o terceiro trimestre, divulgado esta semana. O estudo antecipa uma perda global de emprego nos 9%, com base nas expectativas atuais, que será mais pesada no setor de hotelaria e restauração (-29%), no setor financeiro e serviços (-19%), na indústria (-12%) e no comércio (-10%). Já construção e outros serviços antecipam reduções de 6% e 1%, respetivamente.

“As consequências ao nível da destruição de emprego já se estão a sentir de forma considerável, com o número de desempregados a aumentar 22,1% em abril, face ao mesmo período de 2019, segundo dados do IEFP. Analisando em termos prospetivos, o sentimento que recolhemos junto dos empregadores não altera este cenário, pelo que prevemos uma recuperação lenta do emprego”, enquadra Rui Teixeira, do grupo Manpower.

Mas este é apenas o cenário imediato, no qual 62% dos empregadores estima ainda manter o nível de emprego e 10% admitem ainda aumentar os quadros, no mesmo inquérito.

Setembro crítico

Na análise às condições atuais, outra consultora, a Randstad, prevê agora o final do verão como o período mais crítico para o mercado de trabalho. “O desemprego vai subir e vai subir muito. São pouquíssimas as empresas que dizem que vão manter os planos de contratação que tinham para este ano, e há uma esmagadora maioria das empresas que não iria despedir e que agora vai ter de despedir”, refere Nuno Troni. “O início vai ser em agosto, setembro”.

As perspetivas estão dependentes em muito do resultado da atividade económica na reabertura, e em parte do amortecedor temporário oferecido pelo recurso ao lay-off simplificado – que agora se estende até julho, e impõe pelo menos dois meses de bloqueio a grande parte dos despedimentos. São perto de 850 mil os trabalhadores portugueses sujeitos a redução de horários e suspensão de contratos, num limbo entre a atividade e o desemprego do qual ainda não se avista desfecho.

As projeções do governo e das instituições nacionais e internacionais com previsões macroeconómicas antecipam já um agravamento considerável da taxa de desemprego. O Ministério das Finanças espera uma redução no emprego em 3,9%, com a taxa de desemprego a ir neste ano aos 9,6%. Já o FMI apresenta a pior previsão, vendo a taxa ir aos 13,9%. Por enquanto, a taxa oficial de desemprego permanece em mínimos muito por conta da passagem de muitos desempregados à inatividade. Mantinha-se ainda no primeiro trimestre em 6,7%.

Nos número que vão engrossar o desemprego, Troni chama sobretudo a atenção para a situação dos quadro médios das empresas com alguns anos de carreira. “Estamos a terminar os lay-off e há um prazo a partir do qual as empresas vão poder despedir. Vão despedir e vão despedir muito. O que vamos ter são quadros médios e funções qualificadas, e também pessoas nas funções técnicas operacionais de suporte, pessoas na casa dos 30 e muitos, 40, 50 anos, que vão sair das empresas. São essas que vão ter muita dificuldade em regressar ao mercado de trabalho”.

Já para os recém-licenciados que a partir deste verão procurarão encaixar num mercado de trabalho novamente em regressão, o cenário pode não se apresentar tão difícil em alguns setores de maiores qualificações. “As empresas vão continuar com os programas de estágio. Poderão diminuir em volume, mas vão continuar com os programas de primeiro emprego. As melhores faculdades vão continuar a ter empregabilidade a 100%”, prevê o diretor da Randstad.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: JOAO RELVAS / LUSA

Desemprego registado volta a crescer em agosto, supera 409 mil inscrições

ensino escola formação

Estes são os empregos e as competências mais procuradas em Portugal

Manuel Heitor, ministro do Ensino Superior.
(PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Alunos vão pagar até 285 euros para ficar em hotéis e alojamento local

Um quinto das empresas quer despedir até setembro