Consumo

Veggies. Em Portugal marcas pensam em nicho. Em Espanha vale 438 milhões

D.R.
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764 mil portugueses tem alimentação baseada em vegetais. Uma oportunidade para as marcas que têm de deixar de olhar para este segmento como um nicho.

Todos conhecemos ou temos alguém na nossa vida que é veggie. Agora sabemos que, pelo menos, 9% dos portugueses têm uma alimentação com base nos vegetais. Percentualmente, os números não diferem muito de Espanha, onde 9,9% têm essa opção alimentar, mas se do outro lado da fronteira os produtos com base em plantas valem 438 milhões de euros, por cá as marcas ainda não olharam devidamente para o potencial deste mercado. “As marcas precisam de repensar a maneira como estão a ‘deixar escapar’ esta oportunidade”, alerta David Lacasa, sócio da Lantern, consultora que fez o primeiro retrato sobre a realidade vegetariana em Portugal.

Os números da consultora são expressivos. Existem cerca de 764 mil portugueses adultos veggies, termo que engloba os vegetarianos (que não comem carne nem peixe, mas os seus derivados), vegan (que não consomem qualquer produto de origem animal) e flexitariana (comem carne e peixe, mas só de vez em quando).

“Em Portugal ainda há a tendência para considerar que este é um mercado de nicho, quando já não o é”, garante David Lacasa, ao Dinheiro Vivo. E para mais um ‘nicho’ com tendência a aumentar, com a crescente consciência dos consumidores pelo meio ambiente e pelo bem-estar animal.

Segmento em crescimento

“Esperamos um crescimento relevante nos próximos anos. Em Espanha o número de veggies cresceu 27% em apenas dois anos, de 7,8% para 9,9%. Atendendo aos hábitos que, cada vez mais, se instalam e prevalecem na decisão dos consumidores, prevemos que este crescimento continue nos dois mercados a um ritmo de 2 dígitos nos próximos 3-5 anos pelo menos”, diz David Lacasa.

O consultor vê sinais desse potencial crescimento no facto de 43% dos portugueses terem declarado ter reduzido ou eliminado o consumo de carne vermelha no último ano, tendo 54% declarado ter reduzido ou eliminado o consumo de enchidos. “A redução no consumo da carne, revelada inclusive neste estudo desenvolvido em Portugal e que é já uma tendência em Espanha, é uma amostra clara de como este fenómeno continuará a crescer.”

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Em Espanha este segmento já tem um peso relevante, com os produtos com base em plantas, incluindo bebidas vegetais e alimentos substitutivos, a valer 438 milhões. Na Europa, entre 2013-2018, o lançamento de produtos com etiqueta vegan tem crescido 55% e os com etiqueta vegetariana 35%, adianta David Lacasa, citando dados da Mintel, empresa de estudos de mercado.

“Portugal ainda há tendência para considerar que este é um mercado de nicho, quando já não é. E por isso a tendência de adaptação das marcas tem sido mais gradual e há uma margem de crescimento ainda muito expressiva. Em Espanha, só as bebidas vegetais estão a movimentar mais de 250 milhões de euros, com crescimentos muito fortes. Estimamos que a oportunidade seja, pelo menos, similar em Portugal”, considera David Lacasa.

Impacto dos veggies na oferta das marcas

Mas os veggies estão já a influenciar a oferta das marcas. “Nos laticínios, as bebidas e sobremesas com base vegetal têm tido uma preferência por parte do consumidor cada vez maior. Se olharmos para a categoria da carne e enchidos, podemos ver também como quase todas as marcas tem já no mercado um substituto vegetal”, exemplifica.

E há áreas mais ‘ameaçadas’ do que outras. “Fundamentalmente, aqueles que têm uma base animal. Os laticínios e cárnicos são os segmentos mais ameaçados. Nestes dois segmentos vamos assistir a uma mudança relevante em termos de proposta de valor e de mensagens estratégicas, transparecendo como principal prioridade o bem-estar animal e o impacto no meio ambiente. Nos ovos, por exemplo, já estamos a ver como o mercado está a evoluir para ovos de galinhas de campo ou criadas em liberdade”.

É neste contexto que tem de ser visto movimentos como a da cadeia de restauração Burger King que tem vindo a apostar nos produtos baseados em plantas, tendo lançado em novembro o Rebel Whopper no mercado europeu, incluindo Portugal, ou o piloto levado a cabo pela concorrente McDonald’s no Canadá.

Mas é um impacto “transversal” que não se limita aos produtos alimentares. “Em sectores como a cosmética ou o cuidado pessoal estão a desenvolver-se cada vez mais produtos vegan e sem impacto na natureza, as preferências (mesmo dos não veggie) também têm crescido. O que só demonstra como em todos os segmentos, o impacto é transversal”, diz.

Aumento da população lança novos desafios à produção agrícola. Fotografia: Erik De Castro/Reuters

Fotografia: Erik De Castro/Reuters

Um efeito que tem vindo a fazer-se sentir ao nível das embalagens, com um consumidor, cada vez mais, preocupado com “o impacto ambiental das embalagens em que os produtos são apresentados, o que representa uma mudança de paradigma também na oferta das marcas.”

Mais de metade insatisfeito com os produtos substitutivos de vegetais

Há aqui uma oportunidade para as marcas. Em Portugal mais de metade (55%) dos inquiridos diz-se insatisfeito com os produtos substitutivos dos vegetais. Caro, com muitos ingredientes não saudáveis, demasiado açúcar, muito plástico são algumas das queixas elencadas pelo estudo. Mais, um em cada três disse que é ‘complicado’ ou ‘muito complicado’ encontrar pratos para a sua dieta fora de casa.

“As marcas precisam de repensar a maneira como estão a ‘deixar escapar’ esta oportunidade. Os consumidores com uma preocupação pela sua dieta estão à procura de comer mais verduras de uma maneira conveniente e saborosa. Isto significa que não se trata apenas de as marcas criarem substitutos vegetais dos produtos animais, mas sim que está na hora de terem uma clara proposta clara de valor neste âmbito”, alerta David Lacasa.

“As inspirações de cozinha e confeção são mundiais e há inúmeras oportunidades de fazer receitas e produtos baseados em vegetais saborosos e convenientes que não sejam apenas um hambúrguer vegetal. A cozinha tradicional portuguesa tem muitas receitas vegetais onde as marcas podem inspirar-se, às quais se juntam as cozinhas e receitas indianas, coreanas ou africanas que tanto nos inspiram e com a qual as pessoas têm cada vez maior afinidade”, continua o consultor.

Os vegetais foram dos artigos cujos preços mais subiram na UE. Fotografia: Fernando Fontes / Global Imagens

Fotografia: Fernando Fontes / Global Imagens

“As marcas precisam de alargar os seus horizontes e pensar em propostas que acrescentem valor e não apenas substituam produtos. Quando o veggie pensa em comer fora de casa é onde encontra as suas principais dificuldades e é nesta resposta que as marcas têm de estar”, sintetiza.

E como estão as marcas portuguesas a acompanhar esta tendência? “Em geral, estão ainda a adaptar-se gradualmente e de uma forma ‘leve'”, comenta o consultor. “Algumas como a Nobre têm algum produto no mercado e também há pequenos produtores que estão a apostar por este segmento”.

“Em Portugal, este segmento é ainda visto como um nicho, com interesse pouco substancial. Por isso o ajuste das marcas está a dar-se de forma mais lenta e apenas adaptada ao interesse que o mercado vai revelando. Facto que o nosso estudo vem contrariar a chamar à atenção das marcas: há mais 750.000 possíveis consumidores para uma oferta veggie e, por isso, a janela de oportunidade para as marcas é excelente, sendo que estas devem apostar na inovação, criatividade e qualidade para, sem qualquer dúvida, ganhar de imediato este público.”

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