união para o mediterrâneo

“Vemos muitas indústrias a migrarem para Marrocos. É o caminho certo”

D.R.
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Nasser Kamel, secretário-geral da União para o Mediterrâneo, defende mais integração entre a Europa e norte de África, mesmo quando haja competição.

Se a tendência europeia é a de um mercado de trabalho cada vez mais envelhecido, a do norte de África é de crescente juventude na mão-de-obra. E de muito desemprego. Perto de um terço dos jovens com formação superior da bacia sul do Mediterrâneo não encontra trabalho. A estes juntam-se os milhões chegados de abaixo do Saara, e que se detêm à beira do Mediterrâneo. Entre a pressão das migrações e incapacidade de as economias absorverem as pessoas, há o risco de que do grande contingente jovem populacional do Sul não se venha a retirar dividendo.

Chegados aqui, Europa e orla mediterrânica, que vivem uma política de vizinhança e cooperação, têm dois caminhos. “Devem milhões mudar do Sul para o Norte, porque o Norte precisa de pessoas, ou devemos investir no Sul e extrair benefícios económicos de investir na mão-de-obra, na formação e na criação de uma zona maior de prosperidade ou coprosperidade?”

A pergunta é de Nasser Kamel, secretário-geral da União para o Mediterrâneo, organização que entre hoje e amanhã realiza em Cascais a sua 4ª Conferência Ministerial sobre Emprego e Trabalho, com Portugal como anfitrião. E a resposta dada pelo diplomata egípcio que desde junho do ano passado lidera o grupo de 43 países tende a seguir pelo segundo caminho: investir mais a Sul, mesmo que alguns sectores europeus possam perder pelo caminho.

“Marrocos é o vizinho natural de Espanha e de Portugal. E, sim, vemos muitas indústrias a migrarem para Marrocos. É o caminho certo porque talvez essas indústrias não se consigam manter viáveis na Europa, se tivermos em consideração as tendências demográficas e o custo do trabalho – e o custo do trabalho na Europa nos próximos 20 anos. É aquilo em que acreditamos para Marrocos, Tunísia, Egito, Jordânia”, defende.

O momento é de crescente protecionismo a nível mundial. Mas, para Nasser Kamel, a ser uma ameaça, o norte de África sê-lo-á não por levar consigo indústrias e empregos, mas pelo oposto. “Quando a nossa vizinhança imediata está em turbulência, nós estamos em turbulência”, diz. “Investir na vizinhança e um investimento benéfico por duas vias. Economicamente, há ganhos para todos, e do ponto de vista geopolítico, para que os vizinhos sejam estáveis e prósperos e fonte de valor acrescentado ao invés de exportarem violência e extremismo”.

De resto, há também vias de cooperação crescentes. São exemplo as futuras interligações energéticas do sul da Europa ao norte de África. “Haverá inúmeras conexões entre as margens, entre Itália e Egito, e entre Marrocos e Espanha e Portugal. Será possível jogar com os diferentes fusos horários, diferentes consumos. Podemos poupar muito”, defende o secretário-geral para quem Portugal e Marrocos, que se preparam para construir uma interconexão para exportar renováveis, estão “destinados a uma relação mais próxima”.

A União para o Mediterrâneo, criada há dez anos, não lida com o problema das migrações, mas antes com as causas deste. Leva já mais de 50 projetos regionais iniciados num investimento de cinco mil milhões de euros. Na área do emprego, Portugal está com outros sete países envolvido no programa Med4Jobs. A iniciativa visa a integração no mercado de trabalho, formação e mobilidade dos chamados jovens “nem-nem” – que não estão no emprego ou na escola. “Só este projeto tocou a vida de mais de 100 mil pessoas nos últimos quatro anos”, diz Nasser Kamel.

O programa vai desde a reconversão de competências em centros de formação à promoção do empreendedorismo, passando pela mobilidade profissional. A União para o Mediterrâneo dirige o programa Homere – semelhante ao europeu Erasmus, mas para estágios – e já colocou 40 mil jovens do norte de África a estagiar na Europa, e vice-versa. A empregabilidade da medida está acima de 80%, segundo a organização.

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