Vendas das empresas tardam em recuperar da pandemia

Estudo do Banco de Portugal antecipa “impactos significativos e duradouros”, mas poucos negócios têm estratégia para combater o choque.

As empresas portuguesas enfrentam um “cenário de recuperação muito gradual” do volume de negócios para níveis anteriores à pandemia, e poucas delas surgem, nesta altura, preparadas para mudar a agulha e combater o choque com mudanças como alterações do mercado-alvo da sua atividade, conclui um estudo do Banco de Portugal publicado ontem.

Três economistas da instituição analisam o impacto de curto prazo da pandemia nos negócio do país, numa retrospetiva dos resultados dos inquéritos que INE e Banco de Portugal têm vindo a promover regularmente junto das empresas, o último dos quais em julho. Nesse mês, 65% das empresas continuava a reportar quebras de faturação (88% no caso do alojamento e restauração). As vendas mantinham-se e média 17% abaixo do nível anterior ao confinamento.

Para os autores do estudo, “este cenário de recuperação muito gradual deverá manter-se nos meses seguintes”. Além disso, “as empresas de grande dimensão e dos sectores do alojamento e restauração e dos transportes e armazenagem são as que sobressaem nesta situação, antecipando períodos mais longos de retorno à normalidade”.

Com um grande número de empresas a apontar uma retoma de faturação que não deverá chegar ainda este ano (29% no inquérito INE/BdP de junho), é esperado que as empresas procurem estratégias que as tornem mais resilientes a choques”. No entanto, poucas parecem estar a encontrá-las num contexto que, seis meses após a chegada do novo coronavírus a Portugal, se mantém de forte incerteza.

O documento publicado pelo Banco de Portugal destaca, por exemplo, que apenas 16% das empresas ouvidas no inquérito realizado em junho davam conta do objetivo de redirecionar a atividade para novos mercados-alvo.

As medidas de reorientação possíveis sondadas por INE e BdP passariam pelo recurso ao teletrabalho, investimento em tecnologias de informação, mudanças de fornecedores, de produtos e serviços prestados, de atividade principal, o nível de stocks. “Os resultados mostram que menos de 10% das empresas consideram muito provável vir a implementar a maioria das transformações referidas”.

Os autores do estudo admitem que a incapacidade de as empresas se adaptarem ao choque reflita “a natureza global desta crise, verificando-se uma deterioração da atividade generalizada aos vários mercados, e, por outro, a elevada incerteza quanto aos desenvolvimentos futuros da pandemia, o que dificulta a tomada de decisões no presente”.

Lay-off funcionou e outros apoios garantiram liquidez

O estudo do Banco de Portugal baseia-se também nas respostas dos empresários portugueses para avaliar o impacto da pandemia no emprego nos meses cobertos pelo inquérito e conclui que, devido à medida de lay-off simplificado que se manteve até final de julho, este acabou por ser amortecido.

“O impacto sobre o emprego foi relativamente contido, com três quartos das empresas a reportar variações nulas no número de postos de trabalho entre março e julho, para o que contribuiu de forma assinalável a medida do lay-off simplificado”, analisa.

Por outro lado, avalia a eficácia das restantes medidas adotadas (moratórias bancárias, linhas de crédito e suspensão ou adiamento de obrigações fiscais), e defende que os apoios ajudaram as empresas que mais precisavam deles.

“As empresas que beneficiaram destes apoios apresentavam uma situação relativamente mais adversa, quer em termos de encerramento e quedas do volume de negócios no período analisado quer em termos de condições de liquidez reportadas em abril”, entendem os autores, Cristina Manteu, Nuno Monteiro e Ana Sequeira. “Em julho, a situação de liquidez da generalidade das empresas tinha melhorado significativamente – o que é consistente com a evolução da atividade – mas essa melhoria foi mais notória nas empresas beneficiárias”, defendem.

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