Vendas: “Outubro foi uma tragédia”

Fortunato Frederico da Fly London
Fortunato Frederico da Fly London

Em entrevista à Notícias Magazine do último domingo (publicada com o DN e o JN), o dono da Fly London diz que a crise e a chegada tardia do Inverno afectaram as vendas e as encomendas. Mas recusa que a solução passe por despedir ou por cortar salários – mais depressa pede aos funcionários que trabalhem “mais uma hora, uma hora e meia”. Apesar de tudo, garante que o bónus de fim de ano não será esquecido.

O negócio este ano está muito afectado pela crise?

No mercado interno, que não é Fly, é Foreva, o mês de Outubro foi um mês de tragédia, estávamos completamente assustados… Antes das primeiras chuvas, íamos com 65% a menos. Vieram as chuvas, o mau tempo, e lá baixou para 40%. Mas já não tivemos tempo de recuperar…. Acabar o ano, na Foreva, com 10%, 12% a menos não nos assusta porque já tínhamos projectado esse cenário com aperto em alguns sectores.

Despedimentos não?

Não, será a última coisa a fazer nesta fábrica. Se tiver que pedir ao pessoal para trabalhar mais uma hora, hora e meia, para não baixar salários e não despedir ninguém, farei isso com toda a lisura. Mas penso que, a curto prazo, não será necessário.

E as encomendas do estrangeiro, as da Fly, têm-se ressentido?

Isto é como o míldio, aquela doença que aparece na vinha, uma mancha aqui e de repente… espalha-se. Apareceu em Portugal e onde já vai… Vínhamos com um crescimento na Fly de cerca de 20% até Junho, Julho, e notámos que em Setembro as coisas baixaram. Se esta tendência continuar até ao fim do ano, teremos apenas 8% de crescimento. Na Foreva a coisa está pior e há algumas perspectivas de pisarmos o risco vermelho. Mas defendo que não se devem baixar salários, deve-se pedir às pessoas para trabalhar mais. Se todas as pessoas trabalharem mais tempo, os tribunais vão pôr os processos em dia, as finanças vão pôr as cobranças em dia, vai-se produzir mais e as empresas podem fornecer os serviços mais baratos. Isso vai criar uma dinâmica de crescimento e de criação de emprego. Se for o contrário, “cortar, cortar”, criará recessão, desemprego…

E então esta meia hora a mais, que o governo agora decidiu, é uma decisão boa?

É meia decisão. Acho que o governo devia ter optado por falar com os sindicatos, não se pode decidir por decreto. E dizer “Meus amigos, ou é abaixamento de salários ou despedimento. O que é que vocês acham que é mais racional, é pedir que durante um período de dois, três anos, as pessoas trabalhem mais e depois ver que riqueza é que isso criou e como é que ela pode ser distribuída, ou despedir?” Penso que não há sindicato que dissesse “queremos é o pessoal todo na rua, queremos é tudo despedido”! Tenho a certeza que se dissesse aos meus trabalhadores, eles preferiam trabalhar mais horas! No passado trabalhava-se 48 horas e ninguém morria nem emagrecia por causa disso! A minha mãe ficou viúva. Mas para não faltar nada aos filhos, levantava-se duas horas mais cedo e ia duas missas, a das seis e a das sete, onde cada um ganhava um pão de centeio. Se até a minha percebeu isso, que às vezes é preciso trabalhar mais duas horas para ter as coisas, então agora não percebem?

Este ano vai mesmo distribuir lucros pelos trabalhadores? Com esta crise?

Estamos a pensar, no fim do ano, não fugir à tradição. É um bónus pelo sacrifício.

E essa tradição vale quanto a cada trabalhador?

Àqueles que nunca faltaram, será um mês. Depois, esse mês é afectado pelos dias de ausência, quanto menos trabalho tiveram na empresa, menos recebem.

Paga, em média, o salário mínimo, ou um bocadinho mais?

O salário mínimo sempre com um pequeno acréscimo. Mas não é muito, porque também não podemos…

E os trabalhadores qualificados, os quadros?

Os quadros ganham dentro daquilo que o mercado manda. 90% dos quadros desta empresa foram formados cá. Para os fixar, ganham sempre um bocadinho acima da média.

Neste momento tem 1500 lojas no mundo…

Clientes, clientes! 1500 clientes em 55 países no mundo.

Já foi visitar todos esses países?

Todos não, não fui ainda ao Canadá, não fui ainda àquelas ilhas… à Austrália. Mas está no meu programa ir.

E lojas Fly London?

As lojas são nossas. Uma em Lisboa, outra no Porto, na Dinamarca, em Londres, em Berlim. Não faz parte, para já, do nosso projecto, ter uma rede de lojas próprias, como a Camper. Ainda é cedo. É preciso muito dinheiro, não queremos recorrer a empréstimos para fazer esse crescimento, não queremos ficar na situação em que o país está hoje por causa de empréstimos. A nossa filosofia é ir montando uma loja onde o mercado cresce e temos já força. E é para servir de amostra, porque as lojas têm sapatos de criança, de senhora, têm óculos, têm roupa, mostram ao mercado o que é a Fly London.

Não tem empréstimos?

Dos difíceis, Graças a Deus, não. Temos, claro, para gerir a empresa, mas não para crescimento. Esse é feito com recursos próprios.

Os bancos a si nunca lhe fecharam as portas?

Nunca me fecharam as portas e nunca me pediram avales pessoais Os bancos ainda confiam em nós. Pelo menos durmo descansado.

Leia aqui como nasceu a Fly London e como cresceu até se tornar na oitava marca de sapatos mais vendida do mundo

Leia toda a entrevista de Fortunato Frederico na Notícias Magazine

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