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Venezuela. O Eldorado transformou-se num deserto

Fotografia: Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Fotografia: Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Em 2012, havia 296 empresas portuguesas a exportar para a Venezuela; hoje há 139

Já foi o Eldorado das empresas portuguesas. Em 2010, José Sócrates levou a Caracas perto de duas dezenas de empresários na comitiva e saiu da capital venezuelana com acordos no valor de 1,65 mil milhões de euros. A mesma investida foi feita, em 2014, por Paulo Portas, então ministro dos Negócios Estrangeiros. Desses negócios, pouco resta. O Dinheiro Vivo entrou em contacto com cerca de 20 empresas que têm, ou tiveram, algum tipo de relação comercial com o país governado por Nicolas Maduro. O retorno foi quase unânime: “Não temos interesse em pronunciar-nos sobre a situação na Venezuela”.

Mas olhando para os dados fornecidos pela Aicep sobre as trocas comerciais entre os dois países, é possível perceber que em cinco anos, o Eldorado transformou-se em deserto. Em 2012, as exportações para a Venezuela renderam a Portugal 313 milhões de euros; no ano passado não ultrapassaram 76 milhões. Nos primeiros cinco meses de 2017, a economia portuguesa ganhou 3,6 milhões de euros com as vendas para Caracas, uma quebra de 62,9% face ao mesmo período do ano anterior. E se em 2012 a Venezuela ocupava a 19.ª posição na lista dos clientes de Portugal, com uma quota de 0,69%, nos cinco anos seguintes foi caindo a pique até chegar ao 50.º lugar em 2016, com uma quota de 0,15%. Entre janeiro e maio deste ano, a Venezuela representou apenas 0,02% das exportações nacionais, sendo hoje o 102.º maior comprador de bens do país. Em 2012 havia 296 empresas portuguesas a exportar para a Venezuela; no ano passado, restavam 139.

Em declarações ao Dinheiro Vivo, a Aicep reconhece que as relações arrefeceram, mas garante que as empresas mantêm o interesse no país sul-americano. “Não obstante o potencial da economia da Venezuela, dada a situação que o país atualmente atravessa, que é por todos conhecida e comprovada pelas estatísticas, tem-se verificado um abrandamento nas relações económicas entre os dois países. No entanto, tal não se tem traduzido numa clara intenção por parte das empresas portuguesas em sair do mercado venezuelano. Os múltiplos projetos que continuam a decorrer nas mais diferentes áreas, com particular destaque para os setores alimentar e construção, tanto ao abrigo do Convénio Bilateral como através das vias normais de comércio internacional, provam isso mesmo”.

No setor alimentar, a Ramirez é uma das marcas que tenta resistir. “Nos últimos 10 anos as exportações para esse mercado têm sido regulares, incluindo participações especiais no domínio das permutas estatais”, conta Manuel Ramirez, presidente do conselho de administração da marca de conservas. A Ramirez admite, porém, que “a instabilidade que se vive no país motivou um decréscimo progressivo das condições de pagamento ao exterior” e que este ano ainda não houve “condições para concretizar negócios nesse mercado que, desde há décadas, aprecia muito e inclui os nossos produtos na cesta básica”.

No caso do grupo Pestana, a presença na Venezuela é bem visível. O grupo abriu em 2008 um hotel em Caracas, que chegou a assegurar 33% dos lucros na América Latina. Hoje, os responsáveis admitem que “as circunstâncias da Venezuela têm naturalmente dificultado a operação hoteleira”, garantindo, no entanto, que a unidade “tem conseguido operar dentro da normalidade possível”.

Outra das empresas que se mantêm no país de Nicolas Maduro é o Grupovarius, que ainda em novembro do ano passado fechou com a Venezuela um contrato de 63,5 milhões de euros para vender 14 mil toneladas de carne ao país. O grupo liderado por Alexandre Cavalleri confirmou ao Dinheiro Vivo que “até ao momento a relação comercial do Grupovarius com a Venezuela mantém-se com base nos princípios acordados e sempre cumpridos pelas partes”, sublinhando que o país “continua a ser visto pelo Grupovarius como um mercado importante”, que “pela sua dimensão, entre outras razões, continua a ser um excelente destino”. O grupo chegou à Venezuela em 2008, na sequência de um acordo bilateral entre os governos dos dois países. Quando a Venezuela ainda era a terra prometida.

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