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Viagem ao país do desemprego. Pior em Barrancos, melhor em Vila do Bispo

Uma praia em Albufeira, um dos concelhos do país com menor rácio de desemprego. Fotografia: LUÍS FORRA/LUSA
Uma praia em Albufeira, um dos concelhos do país com menor rácio de desemprego. Fotografia: LUÍS FORRA/LUSA

Situação é muito melhor nos extremos norte e sul de Portugal continental. Maioria dos municípios, cerca de 95%, tem menos desempregados.

Quando a crise e o programa de ajustamento atingiram o seu auge, em meados de 2013, o município duriense de Cinfães, distrito de Viseu, era um dos mais afetados pelo desemprego, acompanhado nessa má sorte pelos concelhos vizinhos de Resende e Baião.

Hoje, quatro anos volvidos e com a economia a crescer, a esmagadora maioria dos municípios portugueses apresenta rácios de desemprego muito inferiores (o peso do número de desempregados inscritos nos centros do IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional na população concelhia).

Cinfães, apesar de ter um nível de desemprego ainda relativamente elevado face à média continental, foi o município que mais melhorou a sua situação ao longo dos últimos 12 meses.

Neste ranking, elaborado pelo Dinheiro Vivo com recurso aos dados mais recentes do IEFP (junho de 2016) e às estimativas populacionais de 2016 (INE), o valor mais alto, onde o desemprego mais pesa, continua a registar-se na vila alentejana de Barrancos, distrito de Beja, com um rácio de 10,4%. Lamego aparece em segundo, com 10,2%. Cinfães está com 6,5%, mais ou menos a meio da tabela; há um ano estava com 10%.

As economias locais continuam a tentar combater os efeitos nefastos da interioridade, do isolamento, do envelhecimento populacional e do despovoamento. Tentam aliciar o investimento empresarial, mas este tem, como sempre, preferido ir para grandes centros urbanos, sobretudo Lisboa e Porto.

Que o digam as gentes de Barrancos, a capital do presunto DOP (Denominação de Origem Protegida). “O problema de Barrancos chama-se interioridade. As vias de comunicação são terríveis. As poucas fábricas existentes, de processamento e cura de carne, sobretudo de porco preto, têm enormes dificuldades em trabalhar, em exportar, em escoar a sua produção, que assim se torna mais cara”, descreve João Ramos, deputado do PCP eleito por Beja.

“Outro problema grave que fere a nossa indústria e o emprego é o fornecimento de energia elétrica, que tem falhas constantes. Isso gera custos elevadíssimos a toda a gente. Tudo isto são problemas estruturais, há anos que a situação não melhora”, lamenta.

“Restam as instituições, a autarquia de Barrancos, que é o maior empregador local, e que mesmo assim também enfrenta dificuldades crescentes. A economia não gera receitas suficientes, a Lei das Finanças Locais não é aplicada devidamente.”

Mas há problemas conjunturais que também prejudicam o mercado de trabalho. Os grandes incêndios de junho nas zonas de Pedrógão Grande e de Góis também já estarão a penalizar a economia local, tendo em conta o grau de destruição. No final de junho, o pequeno concelho de Góis (com 3,9 mil pessoas) registou um incremento de 18% no desemprego registado.

Cinfães tentou contrariar o seu passado recente, apostando na “formação profissional e na qualificação dos munícipes desempregados”. Parece estar a dar algum resultado. A edilidade diz que fez uma parceria com o IEFP, abrindo “14 cursos de formação na modalidade vida ativa que abrangem 420 cinfanenses”. É um número importante à escala do concelho, que tem menos de 19 mil habitantes e que no final de junho contava com 1230 desempregados registados.

“Estes cursos têm a duração de 300 horas e permitem uma aquisição de conhecimentos em diversas áreas: operador/a de distribuição, rececionista de hotel, empregado/a de restaurante/bar, técnico/a de informação e animação turística, empregado/a de andares, técnico auxiliar de saúde e acompanhante de crianças”, explica a câmara.

E também aqui o turismo está a ser o foco. “Durante o mês de abril iniciou-se também um curso de educação e formação de adultos na área de empregado/a de andares [profissionais responsáveis pela higiene e arrumação dos quartos de hotel], destinado a pessoas com o 4º ano de escolaridade e que lhes permite a obtenção do 6º ano”, ação com duração de sete meses. “Foram integrados 30 desempregados.”

Do lado oposto, com rácios de desemprego inferiores a 3% aparecem muitos concelhos do Algarve e do Minho raiano, onde o turismo é cada vez mais o grande motor económico. Em Vila do Bispo, apenas 1,7% da população está registada nos centros do IEFP; em Albufeira, 2%. Em Melgaço e Monção, duas terras minhotas com vista para Espanha, a intensidade do desemprego caiu para 2,6% da população total.

Outra boa marca a nível nacional acontece em Alcácer do Sal, também com apenas 1,8% da sua população sem trabalho.

O rácio de desemprego médio em Portugal continental rondava, no final de junho, os 4%.

A situação do mercado de trabalho melhorou no país, que hoje tem um nível de desemprego (nacional) em redor dos 8,8% da população ativa.

Há muitas e diferentes situações, mas esse alívio é visível na esmagadora maioria dos municípios do Continente. Em 95% deles. De acordo com os cálculos do Dinheiro Vivo, em junho, 264 dos 278 concelhos de Portugal continental experimentaram uma melhoria nesse indicador de intensidade do desemprego. Quatro ficaram na mesma: Montemor-o-Novo, Proença-a-Nova, São Pedro do Sul, Santa Comba Dão e Mêda.

Estes rácios subestimam a taxa de desemprego uma vez que contabilizam a população total do concelho, idosos, estudantes, todos os inativos. Ou seja, a taxa de desemprego oficial será certamente superior em todos os 278 concelhos analisados.

Para termos a taxa de desemprego é preciso conhecer a dimensão da população ativa, mas o INE não divulga esses dados, pelo menos os mais recentes.

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