Entrevista a Emma Navarro

BEI. “Ajudámos a criar mais de 150 mil empregos em Portugal, em 2018”

Emma Navarro, vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. Fotografia: Álvaro Isidoro/Global Imagens
Emma Navarro, vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. Fotografia: Álvaro Isidoro/Global Imagens

Vice-presidente do Banco Europeu de Investimento responsável pelos empréstimos a Portugal veio apresentar o balanço do ano passado. “Muito bom”, disse

Emma Navarro é a única mulher no comité executivo do Banco Europeu de Investimento (BEI), uma instituição gigante que é responsável pelo financiamento de grandes e pequenos projetos em toda a Europa.

Em 2018, o BEI concedeu quase 56 mil milhões de euros em empréstimos e foi, como tem sido desde 2015, o principal alicerce financeiro do famoso Plano Juncker (investimentos estratégicos). O grupo BEI (o banco mais o Fundo Europeu de Investimento) emprestou ainda mais dinheiro. Um total de 64 mil milhões de euros.

A instituição calcula que ajudou a criar e a manter “5 milhões de postos de trabalho em toda a União Europeia (UE)”, tendo apoiado “mais de 374 mil pequenas e médias empresas (PME)”.

Nos últimos anos, sobretudo depois do ajustamento da troika, Portugal começou a aparecer como um caso exemplar de como usar o dinheiro barato do BEI e de como aproveitar o famoso Plano Juncker. Tendo em conta o tamanho da economia, é o terceiro país que mais investimentos consegue gerar (dinheiro público e privado).

Navarro, uma jurista e economista de nacionalidade espanhola, esteve em Lisboa para fazer o balanço das atividades de 2018 e concedeu esta entrevista à margem desse encontro.

“A nossa atividade em Portugal em 2018 foi muito positiva, é dos poucos países – foram oito no total – onde aumentamos o nosso financiamento” face a 2017.

No ano passado, o grupo BEI concedeu empréstimos no valor de 1.979 milhões de euros a Portugal, um aumento anual de quase 4%. Em 2017, o crédito concedido também já tinha subido: 7%. “Podemos dizer que a tendência é crescente”.

“Em termos relativos, Portugal é das operações mais importantes, está em terceiro lugar quando se mede o financiamento concedido face ao tamanho da economia, do produto interno bruto (PIB)”, acrescenta a dirigente.

“O tipo de projetos que estamos a financiar é muito bom, o portefólio está muito bem alinhado com as nossas prioridades”.

E dá exemplos: “O financiamento de projetos para contrariar as alterações climáticas quadruplicou em 2018 face a 2017. Representa agora cerca de 40% do total de fundos, cerca de 617 milhões de euros. O financiamento de infraestruturas chave duplicou, para quase 500 milhões de euros. O financiamento de PME continua a ser a nossa grande prioridade, tendo recebido 904 milhões de euros”. “É cerca de metade do apoio dirigido ao país.”

No campo das infraestruturas, o BEI destaca grandes obras, como as três novas barragens nos rios Tâmega e Torno, no norte do país. Um investimento que está avaliado em 1500 milhões de euros.

O BEI é um banco grossista. Vais aos mercados buscar financiamento muito barato (tem rating máximo) e depois assina protocolos com os bancos retalhistas portugueses para que estes passem o dinheiro à “economia real”. É assim que o crédito tem chegado às empresas de menor dimensão.

“O nosso apoio às PME ajuda a criar e a suportar emprego na economia portuguesa. Estaremos a falar de mais de 150 mil postos de trabalho”, estima Navarro. “Deu um impulso muito grande ao emprego em Portugal”, garante.

O plano contra o Brexit

Um dos temas que mais preocupantes do momento é o que vai acontecer se ou quando o Reino Unido (RU) sair da UE (brexit). O divórcio está agendado para dia 29 de março, depois do jantar. O BEI garante estar preparado para o impacto.

“O RU é um dos nossos maiores acionistas, com cerca de 16% do capital, o que equivale a 40 mil milhões de euros. Mas temos um plano para substituir o capital que ficará em falta depois deles partirem”, começa por dizer a vice-presidente. Há a parte do “capital efetivo” que é “pago ou subscrito pelos países e que no caso do RU é 3,5 mil milhões de euros”. “Essa será substituída pelas reservas do próprio BEI.”

Depois há o capital contingente (ainda não foi pago, mas está reservado para o BEI, caso seja necessário). A parte dos britânicos “será substituída pelos outros Estados membros de acordo com a sua participação acionista”. Além disso, “está em discussão um aumento de capital assimétrico de países que desejam reforçar a sua quota, como a Polónia e a Roménia”.

Com isto, “estamos preparados para o brexit, ele não irá afetar a nossa capacidade de financiamento. Se nada fizéssemos, a perda dos 40 mil milhões de euros de capital do Reino Unido significaria que tínhamos de reduzir o nosso volume de empréstimos em 100 mil milhões de euros. Não podia ser”.

Além do brexit há outras incertezas na Europa. Navarro também discorreu sobre elas.

“É verdade que estamos num contexto de riscos negativos, há mais incertezas”, mas por exemplo, “Portugal está a crescer acima da média europeia”.

Em todo o caso, “o nosso papel é justamente contrariar” a materialização desses riscos negativos. “Basicamente é apoiar os investimentos de longo prazo que são necessários, aumentando o potencial das economias”, refere.

Ainda sobre Portugal, a economista considera que “é notável o progresso que a vossa economia fez” em termos de exportações nos últimos anos.

Mas há trabalho a fazer. Melhorar as qualificações e reduzir a burocracia são duas das tarefas.

A vice-presidente do BEI diz que “esses dois assuntos foram mencionados” num estudo recente. “São problemas que preocupam as empresas portuguesas, mas não estão no topo”. “A maior preocupação penso que é a incerteza, a segunda é o custo da energia. A questão da falta de trabalho qualificado é a quarta maior preocupação em Portugal”.

No entanto, na Europa como um todo, a falta de qualificações certas “é a primeira preocupação”. Por isso, “é uma barreira importante que temos de superar, especialmente quando sabemos que a nossa vida ativa vai ser mais longa”. “O BEI está preparado para apoiar todas as medidas necessárias para fazer essa adaptação à mudança”, remata a responsável.

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