Vinhos do Pico estão na moda e já atraem investidores estrangeiros

Aos italianos instalados na ilha, poderão em breve juntar-se franceses e americanos, que estão a pagar 70 mil euros por hectare. A falta de mão-de-obra para trabalhar a vinha preocupa.

É no meio de quilómetros e quilómetros de pequenos muros de pedras de basalto negro que mãos experientes amontoaram, como forma de proteção dos ventos agrestes do mar, que são plantadas as videiras na ilha do Pico. Crescem implantadas em extensos campos de lava, numa paisagem de tal forma bela e extraordinariamente exigente que está classificada, pela UNESCO, Património Mundial desde 2004. Uma classificação que veio dar novo alento à viticultura do Pico, atraindo novos investidores, locais, do continente e estrangeiros, e que estão a fazer disparar os preços das parcelas para valores nunca vistos. Mas a falta de mão de obra, e o seu custo elevado, é um problema que pode colocar em perigo este desenvolvimento, promovendo o abandono das vinhas.

Desde a classificação da UNESCO, mas com um enfoque muito especial na última década, com o VITIS, os fundos comunitários para a reestruturação e reconversão da vinha, que são majorados na zona património mundial, bem como com os apoios do Governo Regional, que a área de vinha no Pico tem vindo a crescer. Não ia além dos 240 hectares em 2004, hoje chega aos 1.200 hectares e o espaço para crescer é ainda imenso. O presidente da Picowines, a Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, lembra que em meados do século XIX, antes da filoxera, que arrasou a produção local, havia 12 mil hectares de vinha na ilha.

"O maior entrave à recuperação das vinhas abandonadas e à manutenção das já existentes é a falta de mão-de-obra. Também devido ao esgotamento da capacidade de laboração dos agentes económicos existentes, qualquer novo projeto de reabilitação deverá sempre ser acompanhado de garantias de transformação inerentes às uvas que forem produzidas nessas áreas", diz o presidente da CVR Açores. Vasco Paulos reconhece que o abandono das vinhas é uma preocupação, e sublinha que, para que este seja evitado, "é necessário manter os apoios à manutenção das vinhas", já que estes são "fundamentais para pagar o elevado custo da mão-de-obra que se pratica na ilha", devido à impossibilidade de mecanização da vinha. "Também o pagamento das uvas ao produtor de forma célere é um fator incentivador do setor", acrescenta.

Losménio Goulart, presidente da cooperativa, concorda e lembra que um trabalhador indiferenciado pode facilmente ganhar 60 euros ao dia e um especializado pode chegar aos 80 euros. Mas mesmo assim, há poucos. Para este responsável, a solução teria de passar por uma "estratégia conjunta", envolvendo o governo regional, a Segurança Social, a autarquia e os empresários locais (que terão de se comprometer a assegurar emprego e condições de vida condignas), convidando famílias de países estrangeiros, preferencialmente de língua oficial portuguesa, para se instalarem no Pico.

Grandes empresas apostam nos vinhos do Pico
Uma coisa é certa: os vinhos do Pico estão na moda e atraem cada vez mais investidores de fora. António Maçanita e Anselmo Mendes são alguns dos enólogos que têm ajudado a dar visibilidade e notoriedade aos vinhos da região. Mas não só. Há, também, grandes empresas a apostar no Pico. Os responsáveis da Sogrape estiveram recentemente na Ilha a visitar a cooperativa, para estudar um possível projeto de vinificação; a Picowines tem, ainda, uma parceria com a Herdade do Rocim, na produção do Oceânico.

Há ainda os italianos Cinzia Caiazzo e Gianni Mancassola, a viver no Faial desde 2008 e onde implementaram o seu pojeto Adega do Vulcão, estendendo-o ao Pico em 2017. Mas os negócios mais recentes envolvem compradores franceses e americanos, que estão a pagar à volta de 70 mil euros por hectare, preços 10 vezes acima do normal, garante Losménio Goulart, que teme pelo efeito da especulação imobiliária sobre os picarotos. "Um residente, com o salário médio de cá, dificilmente compra alguma coisa a estes preços", diz. Já o presidente da CVR admite que "o interesse imobiliário sobrepõe-se ao interesse pelo vinho, mas ambos se completam", dando como o exemplo o surgimento de empreendimentos de enoturismo.

Já a diretora dos Serviços de Ambiente e Alterações Climáticas do Pico destaca a "qualidade de vida" que a Ilha do Pico permite como um dos grandes atrativos para investidores estrangeiros. "A ilha está na moda e a paisagem também vende muito. A montanha do Pico é uma atração", sublinha Vanda Serpa. Sobre os apoios financeiros concedidos no âmbito do sistema de incentivos à manutenção de paisagens tradicionais da cultura da vinha, em currais (estabelecidos pelo Decreto Regulamentar Regional 24/2014A), esta responsável indica que, em 2005, o encargo financeiro foi de perto de 94 mil euros, para 40 hectares de vinha, subindo para 275 mil euros cinco anos depois, para 117 hectares. Em 2015, foram atribuídos 371 mil euros a 206 proprietários de 157 hectares de vinha. Já este ano, há 384 beneficiários que receberam 1,6 milhões de euros. Têm, em conjunto, quase 773 hectares de vinha.

O melhor ano de sempre da Cooperativa do Pico
Com mais de 1,2 milhões de euros já assegurados, e ainda a dois meses do fim do ano, a Picowines vai terminar 2021 como o melhor ano de sempre, em termos de vendas. Um valor que representa já mais do dobro da faturação de 2020, muito impactada pelo efeitos da pandemia e da falta de turistas, e que permite já estabelecer para 2022 o objetivo de chegar aos 1,7 milhões de euros. A aposta no mercado nacional e internacional, com a entrada no Brasil e no Canadá, Alemanha, Inglaterra, França e Reino Unido, ajudou à recuperação. Mas a adega tem, ainda, 450 a 500 mil garrafas das colheitas de 2019 e de 2020 por vender, o que faz com que a vindima "catastrófica" de 2021, ao nível da produção, não seja propriamente uma má notícia para a cooperativa. Embora seja terrível para os produtores.

"Recebemos este ano 240 toneladas de uva, 30% menos que em 2020, que já foi um ano mau, e 60% abaixo da colheita de 2019, quando temos hoje muitos mais sócios, e alguns deles já com áreas consideráveis", diz o presidente da cooperativa. Em consequência, o preço médio de pagamento das uvas ao viticultor caiu pelo segundo ano consecutivo. O Pico orgulha-se de pagar a uva ao preço mais elevado do país - em anos bons, o Terrantez do Pico, uma das castas autóctones da região, a par do Verdelho e do Arinto dos Açores, chega a ser paga a quatro euros o quilo, este ano não foi além dos 2,85 euros -, e Losménio assume a vontade de regressar a esses valores em breve.

"A cooperativa tem aqui uma responsabilidade social, com um papel quase de regulador, já que as pequenas adegas que compram uvas a terceiros, acabam por se apoiar nos preços que nós praticamos. Além disso, se baixamos em demasia o preço da uva, corremos o risco de dar um sinal de desânimo aos sócios. Se as explorações não forem rentáveis, e não o são sem os apoios do Estado, disso não tenhamos dúvidas, podemos assistir a um abandono crescente das vinhas", explica. As dificuldades da pandemia fizeram com que a adega estivesse ainda a dever aos sócios as duas colheitas anteriores, mas o bom momento de vendas neste segundo semestre permitiu já liquidar a campanha de 2019. Losménio quer ainda liquidar um terço das uvas de 2020 até ao final do ano, se as vendas em novembro e dezembro ajudarem.

A cooperativa precisa, ainda, de investir numa nova linha de engarrafamento e rotulagem, para substituir a que tem, comprada em segunda mão e que opera já com grandes deficiências, mas está, ainda, a estudar qual o melhor enquadramento, a nível dos programas comunitários de apoio, para poder avançar. "Temos de preparar a adega para o futuro. Dentro de três a quatro anos vamos ter as vinhas instaladas a produzirem 2 a 2,5 milhões de garrafas", sublinha o presidente da Cooperativa.

Nova estratégia com reforço nos licorosos
Além disso, a estratégia passa também por posicionar melhor os vinhos do Pico, cujo preço médio, de venda ao público, ronda os 10 euros. "É fácil perceber que estes vinhos nunca poderão ser baratos. Não só porque têm uma qualidade excecional, mas por todos os encargos e custos operacionais elevados que esta viticultura acarreta, e pela baixa produtividade por hectare que gera. A estratégia tem passado por fazer alguns vinhos especiais, em pequenas quantidades controladas, como o Gruta das Torres, que vendemos a 30 euros e que esgotou em semanas, ao mesmo tempo que mantemos o Terras de Lava IG em maior quantidade, e com margens de lucro mais reduzidas, para que os picarotos possam continuar a ter acesso aos nossos vinhos", refere este responsável.

O Gruta das Torres foi uma ideia de Bernardo Cabral, o enólogo consultor da Picowines (a enóloga a tempo inteiro na Cooperativa é Ana Rita Bouça), que decidiu estagiar o seu Arinto dos Açores 2018 na referida gruta, a 17 metros de profundidade. Foi uma edição limitada de 1183 garrafas, que estagiaram, durante 15 meses, no maior tubo lávico conhecido em Portugal. E há já uma nova edição do Gruta das Torres em estágio para lançamento daqui a um ano.
Os licorosos, tradicionais na região, são outra das apostas da cooperativa, que está não só a fazer o rebranding destes vinhos, como pretende reforçar a sua oferta com uma gama alargada, lançando os Ilha do Pico Licoroso 20 e 30 anos. "Temos a maior história de licorosos da ilha, temos a responsabilidade de fazer jus a essa história, fazendo um stock anual destes vinhos para envelhecimento", diz, por seu turno, Pedro Cavaleiro, diretor-geral da Picowines.

De olhos postos na terra dos czares
Exemplo maior dos licorosos do Pico é o Czar, o primeiro vinho conhecido no mundo por atingir naturalmente, sem adição de álcool, açúcar ou leveduras, 18% ou mais de graduação. Produzido a partir, maioritariamente, da casta Verdelho das vinhas centenárias que crescem no solo vulcânico da ilha, no Lajido da Criação Velha, este é um vinho feito de uvas muito maduras. A retirada das folhas das videiras, dias antes da colheita, garante-lhes o processo de amadurecimento. É produzido desde a década de 60 e engarrafado desde os anos 70, com a marca Czar, em referência ao facto de, após a revolução russa, em 1917, terem sido encontrados vinhos licorosos do Pico nas caves do palácio de Nicolau II.

Mais de cem anos depois, Fortunato Garcia aposta no regresso dos vinhos do Pico ao mercado russo com a sua mais recente "joia", o Czar 2013, dando resposta ao sonho do seu pai. O Czar 2013 - Lote I foi lançado em 2019, com os habituais seis anos de envelhecimento em barrica, e já esgotou. Foram 500 garrafas, vendidas a 130 euros.

O Lote II, que agora vai chegar ao mercado, foi criado em plena pandemia, quando Fortunato Gracia encontrou uma barrica de 1999 e decidiu que iria juntar uma pequeníssima parcela deste vinho à colheita de 2013. O resultado foi um vinho "de excelência", que estagiou oito anos em barrica, e que terá uma edição limitada: serão 863 garrafas, todas numeradas, numa garrafa de vidro fino, com estampagem a ouro.

Só em pré-venda, o novo Czar 2013 já vendeu quase 70 garrafas, a 490 euros cada. É um vinho que nasce de olhos postos nos mercados do Norte e Leste da Europa e, em especial, na Rússia, país em que Fortunato Garcia tenta entrar há anos. Primeiro, foi o embargo da UE por causa da anexação da Crimeia a impedi-lo, este ano é a covid que esta a complicar tudo. O encontro com o governador de São Petersburgo e um importador local de vinhos premium está previsto para dezembro.

Este Czar 2013 Lote II assinala, ainda, um novo posicionamento da marca no mercado, ainda mais premium, já que o produtor decidiu que só voltará a engarrafar o seu licoroso em anos de qualidade absolutamente excecional, sempre numa quantidade inferior a mil garrafas. Os vinhos "não perfeitos" vão dar origem a uma nova linha, cuja marca não está, ainda, definida. Mas há boas notícias para os amantes deste néctar tão especial: para o ano voltará a haver Czar, já que a colheita de 2014 tem a qualidade necessária para ser engarragada; já a de 2015 não é garantido que o permita; 2016, 2017 e 2018 não têm qualidade suficiente para serem engarrafados como Czar, 2019 está em dúvida. A colheita de 2020 poderá vir a chegar ao mercado, lá para 2028.

Quanto à produção de 2021, "atingiu os 19,8% de álcool provável", o que indicia que poderá ser um Czar "muito bom", mas será seguramente uma colheita muito pequena e exclusiva, já que a produção este ano foi de 100 litros por hectare, contra os 400 que Fortunato Garcia costuma conseguir. "Uma produção que já de si, normalmente, é seis vezes menor do que as dos outros. 2021 foi um ano para esquecer, se der para engarrafar Czar já fico muito feliz", sustenta.

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