Monitor Orçamental

Vítor Gaspar critica política orçamental de Donald Trump

Donald J. Trump, Presidente dos EUA. Fotografia: EPA/KEVIN DIETSCH
Donald J. Trump, Presidente dos EUA. Fotografia: EPA/KEVIN DIETSCH

Dirigente do FMI calcula que medidas expansionistas de Trump custem aos contribuintes dos EUA mais 10 pontos percentuais em dívida.

A política orçamental que está a ser conduzida pela administração norte-americana, liderada por Donald Trump, é pró-cíclica, geradora de défices e dívida pública, criticou esta quarta-feira, Vítor Gaspar, o diretor do departamento de Assuntos Orçamentais do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os Estados Unidos são, por exemplo, o único país do mundo desenvolvido no qual o FMI vê um agravamento notório da dívida ao longo dos próximos cinco a seis anos. O nível de endividamento público terminou 2016 nos 107,4% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo que o Fundo vê este rácio engordar 10 a 11 pontos percentuais até 2022.

Caso único entre os 35 países avançados que foram analisados. Há outro país que apresenta um aumento do mesmo rácio, o Luxemburgo, mas a subida é marginal, cerca de 0,2% do PIB.

Na apresentação do estudo Monitor Orçamental, o ex-ministro das Finanças português apontou os EUA como um exemplo menos bom de condução da política orçamental já que esta não é contra-cíclica, como defende Gaspar.

Para Gaspar, as políticas dos governos devem ser contra cíclicas, isto é, usarem medidas como reduções de impostos ou aumentos de despesas durante recessões económicas, por exemplo. Nos tempos bons devem fazer o contrário, ou pelo menos evitar cortar nos impostos ou subir gastos.

“Nas próximas semanas, saberemos muito mais sobre a política orçamental dos EUA, da atual administração e do Congresso. O cenário neste Fiscal Monitor assume que há um estímulo orçamental modesto. Especificamente, ele baseia-se em IRS e IRC mais baixos, o que ascenderá a um estímulo de 1% do PIB nos anos de 2018-19”, calcula Gaspar.

“A política assumida é modestamente pró-cíclica, uma vez que a economia está próxima do potencial em 2017. Um ponto interessante aqui é que, juntamente com algumas revisões menores, a referida política é suficiente para explicar grande parte do aumento do rácio da dívida face ao PIB de 11,3% até 2022 e cerca de 4% do PIB no grupo das economias avançadas”, diz o diretor do FMI.

Ou seja, isto “ilustra que as políticas pró-cíclicas tomadas numa conjuntura favorável [como se projeta para os EUA nos próximos anos] podem ser um fator importante de aceleração dos rácios da dívida pública”.

Além dos cortes nos impostos, o FMI repara noutras medidas “expansionistas” como aumentos na despesa com defesa e segurança interna.

“Apesar dos seus efeitos expansionistas, espera-se que estas políticas gerem défices crescentes no médio prazo” e “em resultado disso, projetamos que o rácio da dívida dos EUA aumente de forma continuada num horizonte de cinco anos”, diz o estudo.

China também é criticada

Gaspar também criticou a China e o governo do Presidente Xi Jinping por não estarem a levar a cabo uma política orçamental prudente. “A China dá-nos um exemplo claro do papel das políticas orçamentais prudentes”, em que “o governo deve estar preparado para, em última instância, agir contra riscos macroeconómicos”, observou o português.

E continuou, afirmando que “na China, todos os indicadores da dívida têm crescido rapidamente e já é assim há muito tempo. Estas tendências destacam-se nas comparações internacionais e são globalmente relevantes”. “O principal desafio é o reequilíbrio entre o crescimento na China e a resposta ao rápido endividamento. Isso melhorará as perspetivas de crescimento sustentável e reduzirá os riscos associados, mesmo que tal implique custos no curto prazo.”

O rácio da dívida pública chinesa está atualmente em cerca de 46% do PIB, sendo que o FMI projeta um agravamento de quase 13 pontos percentuais até 2022. O rácio de 46% é baixo face aos níveis de alguns grandes países mais desenvolvidos, como os EUA, que superam os 100%.

(atualizado às 17h35 com as críticas de Gaspar à China)

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