Vítor Ribeirinho: "Queremos duplicar a estrutura da KPMG Portugal nos próximos três anos"

Presidente da consultora há um ano, Vítor Ribeirinho põe o talento no centro da estratégia que lhe permitiu crescer 13% neste ano. Em tempos de incerteza, investir no país é uma prioridade que assume. Vê com bons olhos as contas públicas certas, mas não a carga fiscal que retira competitividade às nossas empresas. E diz que a subida do malparado não será um drama, dada a solidez da banca.

Vítor Ribeirinho é senior partner e há um ano presidente da KPMG Portugal, onde chegou há 30 anos. Formado em Contabilidade e Administração pelo ISCAL, passou pelo departamento financeiro da Jerónimo Martins e é Revisor Oficial de Contas desde 1999, sendo também membro do Conselho Superior da Ordem e perito contabilista em Angola.

Vivemos um cenário macroeconómico de enorme incerteza e já com alguns países da Europa em terreno recessivo. Está tão otimista quanto o governo para 2023 ou segue as preocupações de Bruxelas sobre o cenário macro ainda muito marcado pela inflação?
Era importante, antes de irmos às projeções macro para 2023, reter o que aconteceu nestes dez meses. O Banco de Portugal apresentou os números a 6 de outubro e há três dimensões que gostaria de destacar. A primeira tem que ver com a taxa de crescimento: temos tido capacidade de reagir; há algum arrefecimento ao longo dos trimestres mas vamos acabar em terreno positivo, os 6,7% são um indicador muitíssimo positivo. O segundo é o desemprego: vivemos quase em pleno emprego, com uma taxa de desemprego a apontar 5,8% no final do ano, e isso é também muito positivo. E por fim temos o fator de incerteza maior, que é a inflação. O governo é mais otimista, o FMI aponta para mais perto de 8%, mas há definitivamente uma indicação de que a economia em 2022 teve uma performance bastante positiva. Claro que a guerra e o seu impacto nos preços resultou neste arrefecimento, mas ele não deve descurar o foco do que as empresas têm vindo a trazer, com aposta na inovação, no investimento. Em 2023, embora vamos crescer menos - é inevitável - é importante acreditar que vamos conseguir crescer, nem que seja um bocadinho isso será positivo.

Bruxelas e FMI apontam para um crescimento português no próximo ano que é metade dos 1,3% estimados pelo governo... O investimento à boleia do PRR pode dar um empurrão?
Sim, julgo que aquilo que tem sido o motor do crescimento português, nomeadamente no pós-pandemia, já conseguiu repor os valores próximos do ano recorde de 2019, com uma recuperação muito mais rápida do turismo do que se esperava. Nesta semana tivemos mais boas notícias, com o Porto escolhido como destino global e acredito que o comportamento favorável das exportações será o que nos vai aproximar mais da visão otimista do governo. Por outro lado, o tema dos juros e da inflação é em si uma incerteza. Mas há uma verdade definitiva: o PRR e o que pode ser o seu impacto positivo em 2023 sobre a nossa capacidade de executar o programa, que é bastante abrangente e ambicioso para o país. São fatores competitivos que outros países não têm e que nós temos de capitalizar.

A prioridade do governo são as contas certas, a redução da dívida e a contenção do défice. Faz sentido, tendo em conta que o Pacto de Estabilidade está suspenso?
Há um consenso global entre os nossos players nacionais e internacionais de que o combate ao défice é um fator crítico de sucesso para a economia. É por si um objetivo que é importante continuar a perseguir e terá certamente impacto positivo na nossa redução da dívida. Sobretudo se pensarmos que nos últimos dez anos vivemos, ao nível das taxas de juro - particularmente para um país com o nosso nível de endividamento -, num oásis. As taxas que incidiram sobre a dívida permitiram que tivéssemos uma pequena folga. Claro que este aumento vai implicar que mesmo com um rating favorável da República, mesmo com condições favoráveis para irmos ao mercado levantar capital, a nossa dívida vai aumentar. Por isso o rigor das contas públicas terá de ser o fator crítico de sucesso, para que possamos cada vez mais evoluir daquilo a que eu chamo a terceira divisão da dívida na Europa e passarmos para um patamar em que estejamos mais confortáveis e sejamos vistos como bons alunos na gestão orçamental do país.

Mas este controlo foi feito com uma mudança na abordagem às contas públicas mas também com efeito da inflação. Reduzindo-se a inflação, pode manter-se?
Há de facto um acompanhamento do governo relativamente à aplicação da política fiscal que em alguns momentos apelidamos de mais ou menos agressiva; obviamente que ela está sempre condicionada àquilo que é a capacitação do OE para assumir determinadas medidas. Mas a experiência e a informação de um survey global anual da KPMG, o CEO Outlook, que vamos lançar nos próximos dias, dão-nos uma perspetiva quanto ao otimismo dos CEO portugueses e internacionais no que respeita às perspetivas de crescimento. E será sempre por aí que se conseguirá ultrapassar o fator crítico que é o controlo da dívida e do défice. O crescimento que é necessário manter-se, mesmo que baixo, é importante para continuar a combater o flagelo da inflação.

A tributação das nossas empresas é uma dificuldade adicional à nossa competitividade?
Relativamente à política fiscal, as preocupações da comunidade internacional com que vamos trabalhando - estamos numa rede global KPMG e portanto temos acesso a essa visão global - colocam-se em três dimensões. A atração de riqueza, a retenção de talento e a importantíssima capacidade de trazer investimento internacional para cá. E as organizações internacionais, nomeadamente a OCDE, classificam Portugal em termos de competitividade no IRS e no IRC menos bem. Porque de facto temos uma carga fiscal que em alguns projetos faz que as nossas empresas possam perder fatores de competitividade e ser diferenciadas menos bem relativamente a congéneres internacionais. Esta é uma matéria em que Portugal tem de trabalhar. O governo estará consciente, acredito, dessa necessidade, de que a capacitação orçamental através do crescimento do PIB será certamente o fator critico de sucesso para nos permitir criar condições, particularmente no momento atual em que tanto se fala de deslocalização de empresas internacionais. Até pela conjuntura não só económica mas geopolítica . Temos vários contactos com escritórios em outras cidades do mundo que estão a revelar interesse de empresas internacionais globais virem para Portugal, podemos captar investimento e dar mais emprego aos nossos jovens, atrair mais talento e ter mais oportunidades.

Para combater a inflação, o BCE já começou a subir juros ao fim de 11 anos e muito mais rapidamente do que se esperava (1,5%). Teme que haja mais dificuldades em pagar créditos e que venha aí uma nova onda de malparado?
Muito se tem falado da função do BCE e dos outros bancos centrais, como a Fed, e creio que todos concordamos que a função principal do BCE tem de ser essa, proteger o euro, estabilizar os preços e estabelecer uma política económica da UE que permita aos países o equilíbrio das suas contas públicas e o aumento da sua competitividade. O aumento das taxas é inevitável, é o mecanismo usado pelos bancos centrais para combater a inflação. Se eu pudesse aconselhava as famílias a estar menos endividadas e menos dependentes da flutuação da taxa de juro. A pressão sobre famílias e empresas vai aumentar, os juros, face ao comportamento atual dos bancos centrais, terão o pico algures em dezembro ou início de 2023, mas depois vem a tal incerteza que os próprios bancos centrais não conseguem resolver. A OCDE prevê que no quarto trimestre de 2023 as taxas de curto e longo prazo estarão entre 1% e 2,12%, o que seria uma boa notícia projetando uma inflação de 2%. Os modelos do Banco de Espanha projetam juros nos 2,25% a 2,5% - e só aí poderemos ter uma estabilização. Isto traz o desafio do malparado. Até agora vivemos com taxas de juro de zero ou até negativas e a banca, naturalmente, não teve nas suas contas quaisquer reflexos de um comportamento adverso de crédito malparado. Agora, há uma perspetiva razoável de o malparado aumentar.

Em 2024, teremos um contexto de juros mais altos e algum malparado, mas não é preocupante?
Acho que não. Tenderia a dizer que vamos estabilizar as taxas num nível equilibrado: 2%/2,5%, com maior equilíbrio ao nível da inflação. E aí teremos capacidade de gerir melhor o nosso orçamento. Há uma substancial diferença entre o momento atual e o que vivemos no pré-troika, porque então a banca tinha critérios de concessão de crédito menos rigorosos, num contexto de expansão. O crédito hoje é de qualidade diferente, os critérios mais robustos, os bancos têm rácios de liquidez, de solvabilidade, de transformação dos seus depósitos absolutamente mais favoráveis. Portanto acredito que o reflexo do malparado para a banca não terá um impacto substancialmente negativo - até porque a banca vive bem com o crescimento das taxas de juro, as margens são mais interessantes e apelativas. Portanto, vamos observar em 2023/2024 um voltar atrás, mas a fotografia não tem a mesma cor - ainda assim isso trará algum efeito negativo nos preços do imobiliário, nomeadamente no médio e baixo rendimento. Acredito que o comportamento das taxas de juros pode ser adverso no próximo ano e depois estabilizar, mas em níveis que não serão os do primeiro trimestre de 2022.

E as comissões bancárias para onde deviam caminhar?
Antes do euro, a banca vivia essencialmente de duas fontes de rendimento: a margem financeira (créditos tipicamente com taxa de juro elevada) e o nível de serviço prestado. E quando íamos fazer um crédito, o banco para nos atrair isentava-nos de comissões, era um fator competitivo. A banca teve de transformar isso porque as margens desapareceram, as operações de venda de moeda também (os bancos ganhavam muito dinheiro antes do euro a comprar e vender divisas), ou seja, as fontes principais de rendimento foram secando. E as comissões acabam por assumir um papel muito importante na rentabilidade. O que acredito é que serão de novo, num futuro próximo, um fator competitivo de atração do cliente. Os bancos vão usar esse mecanismo para compensar de alguma forma o peso que as pessoas passarão a ter no rendimento com o crescimento das taxa de juro, porque o rendimento voltará a vir da margem.

E como vê a discussão sobre mais uma taxa extraordinária sobre os lucros da banca?
O problema é que elas já são ordinárias, transformaram-se num comportamento regular de taxação dos bancos. Honestamente, neste momento os bancos têm de continuar a fazer o caminho de desempenhar um papel a que o governo tem vindo a apelar, construtivo e positivo, de apoio às famílias - mas não são instituições de caridade e têm de cobrar pelos serviços, ser rigorosos nos investimentos e nos créditos. Há que ter presente que os bancos ao longo dos anos da troika viveram uma desnatação da posição natural dos acionistas. Durante muitos anos, a banca teve de fazer sacrifícios, congelar salários, promoções, teve dividendos muito abaixo do seu padrão. A banca fez o seu percurso, é natural que possa continuar a desempenhar o seu trabalho, mas tenho dificuldade em aceitar que se penalize um setor que vive muitos desafios para ser eficiente e rentável.

E a taxa sobre lucros inesperados noutros setores faz sentido?
Estas taxas foram aplicáveis, úteis e racionalmente corretas em determinado contexto, mas tenho dificuldade em aceitar que não sejam ajustadas quando os contextos são adversos. A banca está a recuperar e ainda bem, porque a situação de alguns bancos era difícil. Mário Centeno disse ainda há dias que na altura da troika três quartos dos depósitos estavam em bancos cuja situação económica, financeira e de estabilidade estava em causa. A banca fez o seu papel, a energia é uma discussão diferente porque abrange fatores que não são meramente económicos, são exógenos às empresas do setor, e tenho dificuldade em entender bem os efeitos que os Estados devem ter sobre elas. Mas a banca precisa de ter condições para continuar a ajudar-nos a sair desta situação, nomeadamente nos investimentos que as nossas empresas fazem e de que necessitam para serem competitivas.

A KPMG definiu um plano de compromisso global, em direção a um futuro consciente e mais próspero, focado nas pessoas e no planeta. Que plano é esse?
O meu primeiro ano económico como CEO terminou a 30 de setembro e o que planeámos para os próximos cinco anos (o meu mandato) é um foco inabalável em dois fatores inegociáveis na nossa casa: confiança e eficiência, porque é uma atividade que vive da qualidade dos seus trabalhos. A segunda dimensão são as pessoas. É a nossa estratégia integrada ao nível das três áreas de negócio, consultoria, fiscalidade e auditoria. Há uma visão mais integrada e acima de tudo homogénea, consistente entre as três functions. E as pessoas estão no centro da nossa atividade e estratégia. Iniciámos este mandato com cerca de 1100 pessoas, atingimos um ano depois perto de 1450 - tivemos contratações recorde neste ano e conseguimos na maior parte das áreas a retenção de talento. A terceira dimensão tem que ver com o posicionamento no investimento que estamos a fazer. Fechámos este ano a crescer 13% - duas vezes o crescimento histórico português - e não somos uma startup, mas apesar desta maturidade de 45 anos tivemos este crescimento e crescemos a dois dígitos nas três áreas de negócio.

E esse crescimento vem de onde?
Vem sobretudo do investimento nas pessoas, desta pool de talento de jovens que atraímos todos os anos, mas também do investimento na inovação, incontornável para nós. A Web Summit, a que a KPMG está associada desde a fundação e tem um papel importante, é para nós um momento de afirmação da capacidade nacional de apostar na tecnologia, na inovação, no desenvolvimento de novas ideias, na digitalização da economia. E isso para mim tem sido reflexo de que Portugal está no caminho certo relativamente à sua afirmação em inovação e tecnologia. A minha preocupação vem do CEO Outlook porque os sinais fazem que os CEO considerem que é importante reavaliar a sua vontade de continuar a investir (30%) e entre os que ainda não o ponderam 40% irão fazê-lo nos próximos seis meses. Na KPMG acredito que estamos no caminho certo: estamos a apostar num processo de descentralização de operações - o talento não pode ser só de Lisboa e Porto. Estamos a trabalhar com a KPMG internacional no desenvolvimento de um centro de excelência na área de low code a ser desenvolvido a partir de Portugal e já concluímos que podemos fazê-lo aqui, mas abrangendo todo o país. Estamos a trabalhar na abertura de um hub tecnológico em Évora que permitirá a quem vive na região trabalhar numa multinacional como a KPMG, em projetos à escala global, sem ter de sair dali. Portanto, o nosso foco são as pessoas e acreditamos que é o caminho para continuar a crescer dois dígitos. E temos ambição de, nos próximos três anos, conseguirmos duplicar a estrutura atual.

Estão a recrutar quantas pessoas por mês?
Até 2020, cerca de 200 jovens, mas neste ano foram 450 pessoas. Somos um contribuinte ativo para melhorar os níveis de emprego no país e continuaremos a fazê-lo. Como disse, tenho a ambição de duplicar a dimensão da KPMG Portugal em três anos.

A KPMG está prestes a divulgar o relatório sobre a emergência da força de trabalho digital. Já pode divulgar as principais conclusões sobre Portugal?
Volto aos pontos-chave que os CEO identificaram no survey, que envolveu 1500 pessoas e algumas dezenas de CEO em Portugal, e que traz quatro mensagens. Primeiro, a perspetiva económica. Cerca de 71% globalmente e 64% em Portugal veem nos próximos três anos o crescimento das economias com otimismo - é sinal de que há confiança para manter níveis de investimento. E enquanto 86% dos CEO internacionais acredita que vamos estar em recessão, em Portugal só 36% consideram que vai haver recessão em 2023 e/ou que será prolongada. (Talvez não tenhamos essa sorte, infelizmente...) Depois há o tema da geopolítica e como as organizações se prepararam, com 81% já com medidas concretas para atacar o problema e 74% em Portugal. Na tecnologia, há um risco iminente de algum arrefecimento na vontade e capacidade de as empresas continuarem a investir, e esse é o desafio que deixo às nossas empresas, que têm feito um trabalho tremendo pela competitividade, compensando falhas com mais investimento, mas não se pode tirar o pé do acelerador. Uma nota para a cibersegurança, fator crítico de sucesso e que não se pode descurar. E depois vem o tema do talento. Eu não acredito que Portugal, mesmo com menos crescimento ou até recessão, possa ter um efeito negativo na taxa de emprego atual. A curto prazo, 39% dos CEO globais e 44% dos portugueses congelaram contratações - é um sinal que não podemos ignorar - e 46% globalmente e 32% em Portugal consideram reduzir a força de trabalho. Não é um sinal positivo, mas temos de partir da nossa base de pleno emprego e creio que não irá pôr em causa a economia. O ESG é a quarta dimensão e é incontornável, um fator de competitividade e de grande escrutínio para as organizações. Mas quando chegamos a um cenário como o atual, há preocupação de os CEO poderem ter menos vontade ou capacidade de investir nestas áreas que são fundamentais à competitividade, além de para o planeta.

Nesta terça-feira foi conhecido o vencedor deste ano do prémio KPMG Global Tech Innovator, a HiiROC, na área do hidrogénio verde. É uma aposta que junta todas estas dimensões: ESG, inovação, talento...?
O GTI é uma competição à escala global da KPMG que tem o seu momento mais alto na Web Summit, em Lisboa. E o vencedor neste ano é uma startup inglesa que tem associada esta ideia de produzir hidrogénio de forma mais competitiva e forte. E sim, estamos a seguir o nosso propósito: desenvolver e dar condições para que novas empresas possam apresentar-se no mercado, levar as suas ideias adiante e que a KPMG possa ser um acelerador dessas ideias. Ao nível do PRR, uma parte substancial do que está previsto é para o hidrogénio e também aí temos vindo a desenvolver competências na nossa equipa afeta ao apoio a clientes para a execução difícil do PRR. Uma das agendas principais tem que ver com o hidrogénio. E independentemente de ter maior ou menor impacto na nossa economia, é incontornável que esse é um dos fatores mais relevantes nos próximos anos, para combater o problema energético e aumentar a capacidade de crescimento do país.

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