Habitação

Viver na Margem Sul é duas vezes mais barato que em Lisboa

Paulo Spranger/Global Imagens)
Paulo Spranger/Global Imagens)

Preço do metro quadrado na capital é o mais alto do país. Zonas limítrofes estão a ser mais procuradas pelos lisboetas

O Cristo Rei virou-lhe as costas e houve quem nela só visse um deserto. Mas os tempos mudaram e as rendas dos lisboetas também. São cada vez mais os que escolhem a margem sul do Tejo para fugir à especulação imobiliária que está a esmagar a capital. Que o diga Jorge Nunes, que há pouco mais de um mês trocou o Largo da Graça por Cacilhas. A renda que paga por um T4 em Almada não chegava para metade de um apartamento semelhante no centro de Lisboa.

“Vivia num prédio com mais de 100 anos que estava muito degradado. Soube que o senhorio não tinha capacidade para fazer obras e pôs o prédio à venda. Percebi que a partir do momento em que o prédio fosse comprado o mais provável era ir para a rua. Não fazia sentido alguém investir dinheiro naquele prédio e manter as rendas. Assim que comecei à procura percebi que não valia a pena continuar em Lisboa porque os preços estão ridiculamente altos. Almada foi a primeira opção”, conta o tradutor ao DN/Dinheiro Vivo. Por uma casa de cinco assoalhadas na capital nunca lhe pediram menos de 1300 euros.

Os números batem certo com as contas do Instituto Nacional de Estatística (INE). Arrendar em Lisboa é duas vezes mais caro do que na margem sul. Segundo as médias de 2017 do INE, publicadas ontem, o metro quadrado na capital custa 9,62 euros, o valor mais alto do país. Já nos seis municípios que compõem a margem sul, o valor ronda os 4,77 euros. Ou seja, arrendar uma casa de cem metros quadrados na Moita ou no Montijo não chega a custar 500 euros; em Lisboa, chega quase aos mil.

“E isso é se forem avaliados por baixo”, garante Romão Lavadinho, presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses. “Na realidade, grande parte dos apartamentos em Lisboa estão a ser arrendados por valores muito superiores. Um T1 ou T2 com 60 ou 70 metros quadrados está a ser arrendado por 1200 ou 1300 euros. Grande parte da população, principalmente a classe média e os jovens, estão a ter de ir para a periferia”, sublinha.

A “periferia” não se esgota abaixo do Tejo. Nos seis municípios que fazem fronteira a norte com a capital, as rendas ainda conseguem ser 32% mais baratas do que no centro. A média até poderia ser mais alta, se não incluísse dois vizinhos abastados: em Cascais o metro quadrado vale 8,06 euros e em Oeiras chega aos 7,84 euros. Em Sintra, um dos maiores municípios do país, arrendar cem metros quadrados custa em média 526 euros.
Foi para lá que voltou Patrícia Fernandes, depois de uma experiência de dois anos nas Avenidas Novas. Pagava 600 euros por um T2 a cinco minutos a pé do trabalho.

“Era preço de amigo. Segundo o senhorio, a casa podia ser arrendada por 1200 euros”, conta a jornalista de 28 anos. Quando começou a pensar em aumentar a família, fez as contas e aviou as malas. “A prazo, nunca conseguiria ter condições para manter aquela casa. Não iria conseguir comprá-la e o arrendamento não valia a pena”. Patrícia e o marido trocaram as Avenidas por Massamá e a renda do T2 pela prestação ao banco de 400 euros por um T3.

“Neste momento, tirando a compra, as pessoas não têm qualquer hipótese porque não há ativos para arrendamento”, sublinha Luís Lima. Para o presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária (APEMIP), os valores das rendas estimados pelo INE até seriam bons se fossem reais. “Quem me dera que houvesse esses preços em Lisboa. Hoje encontrar um T1 de 50 metros quadrados até 600 euros é impossível, não existe. Não há oferta. Hoje nem um quarto se arranja por 300 euros em Lisboa”, destaca.

Para o responsável, a solução passa por construção nova. “Há zonas limítrofes, tanto em Lisboa como no Porto, que é possível desenvolver. Temos um problema gravíssimo para os jovens e para a classe média e precisamos da intervenção ou do Estado ou das autarquias. É preciso ter casas que os portugueses possam pagar”.

Para António Frias Marques, presidente da Associação Nacional de Proprietários, o nível das rendas na capital “é natural porque há procura e não há que ficar escandalizado”. Querer o Chiado ao preço da Brandoa é como meter o Rossio na Betesga. “Há sítios muito procurados mas aos quais o português normal não chega”, afirma. “As coisas falham porque em Portugal, cerca de 10% do parque imobiliário afeto ao arrendamento são casas das câmaras. Têm de ser muito mais. Nos últimos anos não se construiu habitação social nenhuma. Porque o verdadeiro problema da habitação em Portugal não são os preços das casas, são os ordenados muito baixos”.

Até lá, em data ainda por anunciar, a Lei das Rendas vai voltar a ser discutida em São Bento, onde cada metro quadrado vale 10,11 euros.

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