Enoturismo

WoW. No mundo do vinho também há chocolate

Vista do Porto a partir do World of Wine. Fotografia: Direitos Reservados
Vista do Porto a partir do World of Wine. Fotografia: Direitos Reservados

Com seis museus e nove cafés, bares e restaurantes, o World of Wine conta com a maior loja de chocolate da região. Abre a 31 de julho

No coração das caves de vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia, “aquecem-se os motores” e ultimam-se os preparativos para a abertura do World of Wine (WoW), o maior investimento em enoturismo no país. São 105 milhões de euros de investimento, para o “novo quarteirão cultural e turístico” do Porto, como a The Fladgate Partnership, dona da Taylor’s, lhe chama, e que abre oficialmente dia 31 de julho a restauração e a 1 de agosto os espaços museulógicos. Sem a pompa e circunstância de uma cerimónia oficial – adiada por força das limitações em tempos de covid – mas com toda a vontade de captar os dois milhões de portugueses que residem num raio de 40 quilómetros. E os espanhóis que ainda se vão deslocando à cidade. Até ao final do ano, espera receber 200 mil pessoas e em 2021 conta ultrapassar o meio milhão de visitantes.

Anunciado em 2017 (embora as obras só tenham arrancado no início de 2018), o WoW abre portas três anos depois, em plena pandemia e praticamente sem turistas à vista. E por isso os preços também foram revistos. Em vez dos 20 euros inicialmente previstos, o WoW vai ter “preços especiais para o mercado nacional”, que vão dos 14 aos 17 euros para acesso a cada uma das experiências museológicas, sendo o Wine Experience a mais cara, dado que inclui uma prova de vinhos. Há ainda preços especiais para famílias e bilhetes multi-experiences: a visita a dois museus custa 23 euros e pode ser feita no espaço de 48 horas. Por 30 euros pode visitar três museus, dispondo de dois meses para o fazer. Os bilhetes vão estar à venda na loja online do WoW.

Fermentation - Wine Experience Cortada

Mas é ainda possível usufruir da vista deslumbrante do World of Wine sobre o Porto sem qualquer pagamento prévio. O ponto central deste novo quarteirão é uma praça ao ar livre, servida por várias soluções de restauração (dois restaurantes de alta gastronomia, um de comida tradicional portuguesa, duas opções para refeições rápidas, um bar de vinhos e um café especializado em sobremesas tentadoras) e que é “o local perfeito para quem quer apenas apreciar a vista, enquanto saboreia um café ou de um bom copo de vinho”.

O investimento, inicialmente anunciado como sendo de 100 milhões, “um arredondamento dos 102,8 milhões projetados”, diz Adrian Bridge, CEO da Fladgate Partnership, acabou por subir para 105 milhões. Mas o parque temático do vinho tem também novas valências, como o The Chocolate Story, um museu interativo dedicado em exclusivo à história do chocolate. São 2400 metros quadrados, seis vezes mais do que o previsto, para dar a conhecer um percurso com mais de cinco mil anos que atravessou diversas civilizações e continentes. Inclui uma fábrica de chocolate para que os visitantes assistam, in loco, ao processo de transformação das sementes de cacau em chocolate, cujos produtos poderão ser experimentados no Chocolate Café.

Planet Cork

Planet Cork

Da cortiça ao copo
Sempre se soube que o novo parque ia ter espaços dedicados ao vinho, desde a cortiça, com o Planet Cork (com abertura prevista uma semana mais tarde), até ao copo, com o The Bridge Collection, o espaço museológico onde estarão em exposição mais de mil copos da coleção privada de Adrian Bridge, cujos exemplares mais antigos remontam ao ano de 7000 a.C. Há, ainda, o Porto Region Across The Ages, que dá a conhecer o património histórico e cultural da cidade Invicta, ou o Porto Fashion & Fabric Museum, uma homenagem à indústria têxtil e ao seu peso no desenvolvimento económico da região e do país, mas também à moda, ao calçado e à filigrana. Este espaço só abre numa segunda fase, prevista para outubro.

O The Chocolate Story foi, na verdade, o único museu que se manteve no segredo dos deuses. “Este é um espaço que faz a diferença no WoW. Claro que o chocolate e o vinho do Porto fazem um excelente casamento, mas não podemos esquecer que muitos dos visitantes do WoW serão crianças e quisemos pensar nelas, com um espaço para festas e com aquela que é seguramente a maior loja de chocolate do Porto”, diz Adrian Bridge.

The Chocolate Story

The Chocolate Story

Apesar das contingências da pandemia – e o World of Wine teve de ser, devidamente, adaptado para as novas regras, designadamente de distanciamento social, designadamente impondo maior distância entre as mesas nos vários espaços de restauração –, este repsonsável mostra-se confiante. “Ainda não temos os bilhetes à venda, mas já temos procura muito elevada de pedidos de informação no chat online, o que nos gera uma expectativa muito positiva. Até porque há muito conteúdo no WoW para visitar e apreender. Claro que o mercado do turismo está complicado, mas além dos milhões portugueses há, também, os espanhóis que vêm de carro até ao Porto”, diz, acrescentando: “Acho que temos um potencial grande e acredito que, em 2020, poderemos ter mais de 200 mil visitantes. Ninguém sabe o que vai acontecer em 2021, mas com um ano completo de atividade e todos os espaços em funcionamento, incluindo mais restaurantes, a minha expectativa é que possamos chegar a mais de meio milhão de visitantes”.

Porto Region Across The Ages

Porto Region Across The Ages

O WoW arranca, nesta primeira fase, com 330 dos 350 novos postos de trabalho que se comprometeu a criar e para os quais recebeu “mais de 10 mil candidaturas”. Entrevistados foram mais de mil para criar a equipa final. Destes 330 iniciais, 53 são funcionários dos hotéis do grupo, designadamente do Yeatman, que se situa paredes meias com o World of Wine, e que estavam em lay-off.

“Num contexto de taxa de ocupação na ordem dos 25% a 30%, e sem eventos, é natural que necessitemos de uma estrutura mais reduzida, o que tem um grande impacto nas nossas equipas de food & beverage. Quando tivemos de colocar colaboradores em lay-off, o nosso compromisso foi sempre que não perderiam o seu posto de trabalho. Agora que estamos a abrir oito restaurantes no WoW é lógico que se faça essa transferência de pessoal, com formação e experiência, do Yeatman”, diz Adrian Bridge.

Com o hotel a registar taxas de ocupação de 25% a 30%, o Infante Sagres ainda encerrado – o grupo tenta decidir se reabre a 1 de agosto ou de setembro – e o Vintage House a funcionar quase em pleno apenas aos fins de semana, mas com uma faturação na ordem dos 40% da registada no período homólogo do ano passado, é fácil antever que o ano de 2020 vai ser muito complicado.

Prejuízos em 2020
“O turismo é um negócio de risco e de ciclos. Este é um ciclo negativo”, diz, pragmático, Adrian Bridge, que estima que só em 2023 ou 2024 consiga voltar à faturação atingida em 2019 – que foi de 36 milhões no turismo. O empresário admite mesmo que sejam precisos “cinco anos ou mais” para absorver os prejuízos deste ano. E sublinha: “A boa notícia é que as pessoas continuam a consumir vinho do Porto”.

O negócio do vinho do Porto contribuiu, o ano passado, com 62 milhões de euros para as vendas globais do grupo, que se situaram nos 125 milhões (um valor recorde). Este ano, a quebra no mercado nacional é de 41%, mas o grupo Fladgate, que tem as casas Taylor’s, Fonseca, Croft e Krohn, tem 93% das suas vendas assentes na exportação e há mercados, como os asiáticos, os Estados Unidos e o Canadá, que “estão a correr bem”, pelo que Adrian Bridge admite fechar o ano com “algum crescimento” face a 2019, mas que, “nunca será suficiente para cobrir os prejuízos da área do turismo”, reconhece.

“O nosso último orçamento prevê uma quebra de 65% a 70% no final no ano, nas vendas do segmento turístico. É brutal, mas o setor da hotelaria é um jogo de médio e longo prazo”, frisa. E por isso mesmo a Fladgate não deixa de investir. Por estes dias, abre, em regime de soft opening, um restaurante nos Clérigos, em frente à mítica Livraria Lello, e em agosto espera conseguir inaugurar o Museu de Vitrais, junto à Sé do Porto. Questionado sobre os valores do investimento associado a estes dois projetos, Adrian Bridge admite que são da ordem de algumas centenas de milhares de euros, nada que se compare aos 105 milhões do World of Wine.

Números do Enoturismo em Portugal

2,2 milhões de pessoas
Foi o número de visitantes do segmento de enoturismo em 2016, segundo o estudo mais recente disponível

410 milhões de euros
É o volume de negócios estimado do enoturismo, através de uma rede de 60 mil agentes económicos, de acordo com a estimativa da recém-criada APENO – Associação Portuguesa de Enoturismo

1,376 milhões de pessoas
Os visitantes que, em 2019, passaram pelas diversas nas caves de vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia. Este ano, no primeiro semestre, a quebra foi de 75% e há metade dos espaços que ainda não reabriram

 

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