Crise na Venezuela

Y ahora, Venezuela?

Fotografia: REUTERS/Marco Bello
Fotografia: REUTERS/Marco Bello

Instabilidade política e social, escassez de alimentos, moeda fraca e hiperinflação são alguns dos problemas que Maduro tem de resolver

No país onde o salário mínimo já não é suficiente para ir à mercearia, todos parecem estar incomodados e, os que podem, vão saindo. Tem sido assim com as empresas, que vão cortando as suas operações para Caracas, com os emigrantes que vão regressando aos seus países – cerca de quatro mil portugueses já terão chegado à Madeira, por exemplo – e, com as companhias aéreas que têm desistido de voar para Caracas.

“Infelizmente a Venezuela está a desligar-se do mundo”, classifica Peter Cerdá, vice-presidente da Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) para a América.

Não é de estranhar. Ao longo dos últimos anos, as transportadoras internacionais têm tentado reclamar junto do governo de Nicolas Maduro receitas de bilhetes vendidos no País. Não têm tido sucesso. A IATA estima que estejam por entregar às transportadoras 3,8 mil milhões de dólares. São à volta de 3,2 mil milhões de euros, um valor equivalente ao “saco azul” que o GES terá movimentado entre 2006 e 2014.

Nos últimos meses, Caracas perdeu as principais ligações aéreas internacionais. Gol, LATAM, Aeromexico, United Airlines, Iberia, Caribbean Airlines, Insel Air, Aruba Air, Air Canada, American Alines, Delta, Lufthansa, Avianca, Gol e Air France suspenderam a sua operação para a Venezuela sem data para retorno.

A TAP ainda é das poucas, a par da American Airlines, que mantém os voos internacionais para a Venezuela. É uma espécie de serviço público aos 400 mil emigrantes portugueses no país e que fonte oficial da companhia aérea diz que é para manter. Mas desde janeiro de 2015 que a companhia portuguesa não vende bilhetes diretamente no país, perante cerca de 90 milhões de euros de receitas ainda por receber.

Mais recentemente, outra alteração: a tripulação que serve os voos para a Venezuela está a ficar em Curaçao, nas Antilhas, ainda que o objetivo seja “logo que possível” retomar as pernoitas em Caracas.

A contribuir para a mudança estão também os confrontos que têm varrido Caracas – e que já terão provocado 100 vítimas mortais desde o início de abril -, perante a vontade de Maduro em instaurar no país um regime cubano onde se persigam, detenham e calem as vozes da oposição.

Mas a instabilidade política está longe de vir sozinha. A Venezuela enfrenta uma verdadeira crise económica: este ano, o desemprego deverá atingir 25% da população ativa, antecipa o FMI. Estima-se ainda que a inflação possa atingir uns estonteantes 2000%.

Na primeira metade do ano, a oposição estima que a hiperinflação tenha sido de 1766%. Os salários são, por isso, curtos para fazer face às despesas. Desde o início do ano que chegam da Venezuela relatos de incapacidade para comprar um cabaz básico no supermercado. É o caso de Mariana Mejias, de Mariche um bairro pobre de Caracas, que recebe o salário mínimo e segundo adiantou à CNN, sem apoio alimentar não conseguiria sobreviver. A venezuelana de 62 anos explica que uma saca de arroz vale 8000 bolívares, algo inacessível a um salário de 219,000 bolívares (48 euros).

E pode piorar. Em pouco mais de sete anos, o bolívar venezuelano perdeu 99% do seu valor. As desvalorizações arrancaram em 2010, ainda com Chávez, com um corte inicial de 50%, que se tem repetido como forma de responder à crise. No mercado paralelo – câmbios utilizados pela população por considerarem as contas governo exageradas -, o dólar já chegou a superar os 10 mil bolívares, valor que compara aos 24 bolívares que valia quando Maduro assumiu o cargo, mostra a Reuters.

Os emigrantes portugueses

Ainda não se conhece o efeito desta crise nas remessas repatriadas pelos emigrantes portugueses. Mas o aumento de moeda em circulação e a desvalorização constante desde o início do ano abrem caminho a uma quebra no envio das poupanças dos emigrantes portugueses para Portugal.

A Venezuela é, depois do Brasil, o principal destino de emigração portuguesa na América Latina – os números oficiais apontam para 400 mil portugueses. Mas há muito que o envio de poupanças para Portugal deixou de ser significativo. Ora pela desvalorização da moeda, outras vezes pela dificuldade em retirar divisas do país, a verdade é que as remessas enviadas de Caracas valem hoje menos de 0,3% do total de economias repatriadas pelos emigrantes portugueses no mundo.

As remessas enviadas para os bancos portugueses cresceram 76,8% em 2007, e em 2008 e 2009 já valiam 19 milhões de euros. São os melhores registos num passado recente e não mais repetidos.
A queda começou em 2010, quando os 400 mil emigrantes portugueses em Caracas (números oficiais) enviaram para 15 milhões de euros para Portugal.

Nesse mesmo ano, Hugo Chávez, então presidente da Venezuela, anunciou a primeira desvalorização do Bolívar venezuelano desde 2005. O efeito no envio de poupanças dos emigrantes foi imediato: em 2011, só chegaram a Portugal 9,26 milhões de euros; menos 41% do que um ano antes. Em 2012, houve uma ligeira recuperação – a única significativa ao longo dos últimos anos – e, foram enviados 12 milhões de euros para Portugal.

Em 2015, o Banco de Portugal contava apenas metade – 6,49 milhões – e, no ano passado, depois de um ligeiro aumento, entraram nos bancos nacionais 8,70 milhões – uma fatia praticamente irrisória no bolo de 3,34 mil milhões que os emigrantes portugueses no mundo fizeram chegar ao País.

Os dados referentes a 2016 são o último registo oficial das remessas vindas da Venezuela, e aproximam-se do montante enviado, por exemplo, pelos imigrantes britânicos em Portugal para o seu país.

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