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Ensino remoto veio para ficar… mas só como complemento

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Professora a dar aulas a partir de casa, num exemplo de ensino remoto (Olivier DOULIERY / AFP)

Pandemia acelerou implementação do ensino remoto, mas universidades portuguesas ainda dão prioridade ao presencial.

O que significa o ensino remoto, online, a que muitos estabelecimentos foram obrigados a aderir para a aprendizagem? Vai ser prioritário no futuro e que aplicação terá no ano letivo de 2020/21? No final de maio, a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, anunciou que “não irá ter aulas presenciais em 2020/21”. O que motiva a decisão é a pandemia, mas o estabelecimento com mais de 800 anos admite que as soluções tecnológicas atuais permitem manter as aulas teóricas 100% online, com alguns ganhos em certos casos de qualidade e eficiência e haverão algumas sessões presenciais de discussão em pequenos grupos de alunos e professor. Entretanto, já em junho seis escola da Universidade de Harvard, nos EUA, anunciaram o mesmo modelo.

Maria José Chambel, autora, investigadora e professora em psicologia das organizações da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, admite que essa é “uma boa solução”, mas todas as instituições portuguesas com quem falámos quer a prioridade ao ensino presencial, mesmo em 2020/21. “O ensino remoto testado à força durante a pandemia é uma oportunidade extraordinária para implementar a mudança de que o ensino já necessitava em Portugal e no mundo”, diz a especialista, que acredita que a situação atual “deve ser usada para reformular o tipo de ensino, como componente forte de ensino à distância”.

Chambel diz mesmo que a reforma de Bolonha já pressupunha que apenas a chamada tutoria deve ser mesmo presencial no ensino superior. “O chamado ensino expositivo das aulas normais pode e deve ser online, já que tínhamos muitas vezes 100 alunos numa sala e os alunos, hoje, têm mais ferramentas de aprendizagem num computador do que a ver o professor explanar um tema na sala”.

O que deve ser presencial, então, é a tal “tutoria, com grupos mais pequenos a poderem debater ao vivo, com os alunos a terem ter um papel mais ativo na discussão em sessões com uma componente mais prática e participativa”. Embora admita que em Portugal existam muitos ainda com dificuldade em aceitar que o ensino remoto possa substituir boa parte do trabalho nas salas de aula, “sabemos há alguns anos que as aulas demasiado expositivas são uma prática pedagógica pouco adequada” na atualidade e, “mesmo sem ser maioritário em muitos casos, o ensino remoto deve passar a ser prioridade para ficar”.

Ensino à distância “não implica perda de qualidade”

A Porto Business School foi a entidade com quem falámos que vê maiores oportunidades no ensino remoto, embora mantendo sempre a componente presencial. Rui Coutinho, diretor executivo de inovação e crescimento da Porto Business School, explica-nos que desde o início de março as aulas passaram a ser online e nas semanas seguintes desenvolveram inclusive técnicas para que os MBA e pós-graduações se manterem online, criando mesmo novos cursos pensados de raiz, incluindo “masterclasses e programas de formação para executivos online e on demand, com certificado e classificação”. Mais recentemente lançaram um Digital MBA, “que é o primeiro MBA totalmente feito para o formato online numa business school das que estão no top do Financial Times em Portugal”.

O regresso presencial às aulas será importante para cursos mais tradicionais, mas as novas “modalidades online suportadas por aulas, na maioria, dadas por professores em autênticos estúdios preparados para transmissão de qualidade ao vivo no campus e com ferramentas interativas serão importantes e para manter no futuro”.

A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa alinha quase no mesmo diapasão, indicando que no ano letivo de 2020/2021 serão utilizados “novos modelos de ensino/aprendizagem”, “que se diferenciam” do normal, explica Hugo Miranda, subdiretor da faculdade.

Entretanto, há uma comissão composta por alunos, professores e membros da direção e Conselho Pedagógico que prepara alterações concretas ao modelo de ensino/aprendizagem e de funcionamento” onde se pretende que o ensino presencial só seja prioritário nas aulas “com forte componente experimental”, exista redução da carga letiva presencial e reforço do estudo autónomo nas aulas teóricas e teórica práticas”, bem como “concentração de aulas presenciais de cada aluno no menor número de dias possível”, mantendo um “contacto presencial com todos os alunos”. Mantêm-se assim “algumas aulas presenciais”.

Hugo Miranda admite ainda não ter dados sobre possível redução das inscrições devido à pandemia ou de mudanças nas propinas, mas deixa uma garantia a alunos futuros e famílias: “o ensino à distância não representa necessariamente uma perda de qualidade”.

O responsável admite mesmo que houve lições aprendidas durante o 2.º semestre em plena pandemia, “que sugerem que é possível assegurar muitas das atividades de ensino com qualidade e sem perda do tempo de contacto com os alunos”. No entanto, diz que a faculdade não se está a “converter para ensino à distância” por completo: “só estamos a reagir às condições” da pandemia e “evitar contágio”.

(PAULO SPRANGER/Global Imagens)

(PAULO SPRANGER/Global Imagens)

“Presencial com virtudes insubstituíveis” e “maioritário”

No caso da Nova SBE, business school sediada em Carcavelos, a prioridade para o próximo ano letivo “é o ensino maioritariamente presencial”, “fazendo uso das dimensões” generosas do novo campus e “respeitando as medidas preventivas” devido à pandemia.

Em algumas disciplinas haverá um sistema chamado blended, ou híbrido, “com aulas assíncronas previamente gravadas”, com “elevada qualidade” e usando “sistemas de gestão de aprendizagem” com suporte “de uma equipa técnica de instructional designers”. As explicações são de Ana Balcão Reis, Presidente do Conselho Pedagógico e Rita Cunha, Associate Dean, Pre-Experience Studies da Nova SBE. Nestes casos, “as sessões presenciais serão complementares” às sessões online.

A escola admite ainda que o investimento nas novas metodologias e tecnologias e a aprendizagem das últimas semanas vão contribuir “para um salto para o futuro” e que conseguiu lidar bem com aulas remotas e exames online com o encerramento do campus. No entanto, não concretiza sobre qual o nível de ensino remoto a utilizar no futuro, enfatiza-se apenas “que o ensino presencial continuará a ser maioritário em todos os programas” já que tem “virtudes insubstituíveis”. Já sobre as inscrições para o próximo ano ainda não sentiram impacto negativo, embora “haja alguma incerteza em relação aos alunos internacionais”.

A Universidade Católica Portuguesa, nomeadamente o Centro de Braga, não defende o ensino 100% online, “até porque os alunos preferem o presencial” e é “fundamental para a formação integral”, diz-nos o presidente da escola, João Duque. A aposta também para 2020/21 também é um misto, com mais percentagem de aulas presenciais para os alunos dos primeiros anos e aulas práticas. “O complemento online em relação ao presencial pode ser benéfico, mesmo sem pandemia, mas nunca poderá substituir completamente o presencial”. Neste caso, também não há expectativa de impacto significativo nas inscrições até porque contam corresponder às expectativas, sem diminuir qualidade e “até pode ser oportunidade para reforçar a qualidade, com outros recursos e captar novos públicos”. Já as propinas não mudam, mesmo com mais componente online, “até porque o ensino reforçado com tecnologia é uma mais-valia”.

Mostrar como se faz “deve ser ao vivo”

O Instituto Superior Técnico (IST) também se vai adaptar no próximo ano letivo reduzindo a densidade de alunos com “parte das aulas em ensino remoto”, mas sendo um estabelecimento com forte componente prática: “a percentagem no início do ano será tão baixa quanto possível, já que a vivência no campus do IST é uma componente formativa indispensável à formação dos alunos”. Rogério Colaço, presidente do Técnico, diz-nos que a presença dos alunos nos laboratórios, em trabalhos presenciais de grupo faz “parte da matriz de formação do Técnico”, com a missão do “saber fazer” e “saber como se faz” a serem prioritárias sobre o “saber como se faz”. Em discussão está um novo modelo de regime misto, com uma parte das aulas remotas. O responsável admite que a aprendizagem com o ensino remoto “será importante para aumentar a eficiência formativa no futuro”, mas não acredita numa alteração “profunda ou permanente” pelo tipo de ensino do IST.

“Oportunidade para ter novos alunos”

Em Santarém, Instituto Politécnico de Santarém tem cinco escolas focadas num próximo ano letivo “essencialmente no regime presencial”, com os meios “telemáticos” a estarem a ser avaliados apenas “como ferramenta”, havendo preferência por tentar aumentar as salas de aula para ter mais espaço para os alunos. João Moutão, presidente interino do politécnico, diz mesmo que “o ensino de excelência só é compatível com um ensino presencial”, até porque “trata-se de uma instituição que privilegia um ensino de natureza prática e laboratorial”. Só os mestrados é que podem recorrer “a algumas metodologias de ensino à distância”.

O responsável vê a crise pandémica como possível oportunidade e espera ocupação de vagas nos 100%: “com o aumento do número de desempregados”, podem haver mais pessoas “a aproveitar o momento para a sua requalificação profissional”, “redirecionando a formação para setores com mais carência de profissionais”. Moutão diz mesmo que “a crise veio demonstrar que temos de voltar a apostar no nosso setor primário, na indústria 4.0 e digitalização dos serviços, na saúde e na educação social”, setores a que este politécnico “dá resposta”.

Ensino básico “deve ser presencial”

Embora não seja o foco desta abordagem, Maria José Chambel lembra ainda que as vantagens do ensino remoto são menos claras no ensino básico e secundário. A especialista diz mesmo que, ao contrário do que acontece com o ensino superior, é preciso “cuidado” porque “a formação de jovens mais novos requer bem mais ensino presencial, porque o seu foco e maturidade são muito diferentes dos alunos mais velhos”, isto além de existirem nesses casos “mais alunos sem acesso a computador próprio ou internet”.

“O contacto com os professores nas escolas, especialmente no ensino básico, é fundamental e necessário”, admite, com a possibilidade de nesses casos se encontrarem novos espaços para manter a distância necessária e os alunos nas escolas. O Ministro da Educação anunciou esta sexta-feira um regime misto para o próximo ano letivo, embora indicando “que o regime-regra seja o presencial” e que o próximo ano letivo será mais longo.

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