250 anos à frente do seu tempo com o mundo na mira

Abriu Sevilha em plena pandemia seguindo os planos para liderar na Ibéria e tem a porta sempre aberta para os hoje 170 membros "desta grande família" que todos os dias ajuda a construir valor. Defensor acérrimo do salário digno, Bruno Bobone está a trabalhar ativamente para ter todos os trabalhadores a ganhar mais de mil euros.

Para ser um Pinto Basto não é preciso nascer Pinto Basto, "basta ter trabalhado um dia neste grupo". Repete-o Bruno Bobone e deixou-o escrito no livro editado para contar a história do grupo mais antigo de Portugal, que atravessou gerações sempre livre e à frente do seu tempo. Os negócios gerados por António Ferreira Pinto Basto e fermentados pelo irmão Domingos, 18 anos mais novo - de tal forma que é ao seu consulado que se atribui a data de fundação do grupo, em 1771 -, são há 38 anos geridos pelo hexaneto Bruno, que nos guia pelas conquistas de então e de hoje do grupo de transporte e logística, fundador de riquezas portuguesas como a Vista Alegre e a Quinta da Fôja, sempre crescendo de olhos postos no além-mar.

"O senhor Pinto Basto acreditava que ser empresário é ser criativo, trabalhador e inovador. Que a empresa é feita por pessoas que precisam de ser cuidadas e realizadas, que investe na instrução dos seus empregados, tanto técnica como social e cultural, criando creches nas empresas, promovendo clubes desportivos, orquestras e teatros para que possam ter acesso a maior educação e a viverem a vida com maior conhecimento e oportunidades", escreveu no DN no início deste ano em que se celebram os 250 anos do grupo. Foi com esta visão "de que é a pessoa que importa" que se desenvolveu a caminhada da Pinto Basto, que se foi modificando com o tempo - na maioria das vezes à frente dele - mas mantém até agora a convicção de que é essa visão a razão da sua longevidade, nos períodos de expansão como nos de crise. "A empresa existe para criar riqueza, mas o seu verdadeiro objetivo só se concretiza quando essa riqueza é distribuída por todos quantos nela e com ela trabalham", defende o atual CEO. Como o defendia já o fundador da Vista Alegre, que acreditava que só era possível fazer tendo as pessoas felizes e com esse foco abriu aos trabalhadores a possibilidade de permanentemente se melhorarem com formação criativa, cultural, social. "Nos contratos feitos com os rapazes, havia garantias de que continuavam a estudar e se fugissem a isso deixavam de ter os benefícios que a empresa oferecia", exemplifica Bobone.

Independência e expansão virada para fora

No escritório sobre o Tejo, no número 1 da Avenida 24 de Julho, a dobrar o Cais do Sodré, via-se chegar os barcos carregados ou partir para todas as paragens das rotas que se ligavam a Lisboa. A aventura da família arrancou em Cabeceiras de Basto mas foi no Porto que se estruturou e arrancou no trading, a trabalhar sobretudo com o norte da Europa e o Brasil, ligada ao vinho do Porto e enquanto casa comercial, onde terá principal papel o filho de Domingos, José Ferreira Pinto Basto, que fundou a Vista Alegre e conseguiu o contrato do tabaco que lhe deu enorme projeção. Liberal dos cinco costados - "por razões mais empresariais do que outras", acredita o sucessor -, era um homem muito avançado para a época e por isso defensor da Carta Constitucional e da liberdade que ainda norteia a família.

"Preferimos perder negócio do que a nossa independência", garante Bruno Bobone, parafraseando o Presidente da República na cerimónia de comemoração desta data, há uma semana: "Não é frequente as empresas serem verdadeiramente independentes do Estado, mas em 250 anos de vida, entre revoluções, guerras, mudanças de regime, nunca a Pinto Basto perdeu esta postura de independência."

Valores com cada pessoa no centro

Foi essa visão, a par do entendimento de que é preciso haver preocupação com cada indivíduo, com o seu desenvolvimento e felicidade e que cabe à empresa proporcionar isso aos seus trabalhadores, que o grupo viveu sem grandes sobressaltos épocas como o 25 de Abril. "Eu tenho sempre a porta do gabinete aberta para esta grande família - e já aqui ajudámos muitas pessoas -, e sempre que alguém novo chega à Pinto Basto faço questão de ter uma conversa para transmitir-lhe as ideias do grupo, que são os valores da Doutrina Social da Igreja. Não importa se a pessoa é ou não católica, mas que aceite esses valores de subsidiariedade, de acreditar nas pessoas, inclusão, de solidariedade e de participação, por que nos regemos. Não gosto de códigos de ética porque os vejo como definidores do limite de até onde se pode errar; prefiro que a pessoa pense se está certa, que aposte no desenvolvimento pessoal, seja capaz de tomar a decisão, e naturalmente os erros vão acontecer, porque são da condição humana, mas há que reconhecer e tentar verdadeiramente ser melhor."

É essa doutrina que já fez chegar às quase 500 pessoas com que contava nesta família quando Angola estava no auge. O grupo é ainda dos maiores operadores desse país, como de Moçambique, tem força nos EUA e no Brasil, um posto na Ásia e um polo em Hong Kong e grande presença na Europa, mas o maior foco está em Espanha. "Somos muito globais - a crise do petróleo e a pandemia ensinaram-nos a diversificar ainda mais - e o mercado ibérico é extremamente importante, até como mercado natural da empresa, de angariação de clientes para outros mercados. Por isso mesmo fizemos investimentos em plena pandemia: já tínhamos Madrid e abrimos Sevilha em 2020 e foi uma excelente decisão que já está a crescer com significado extraordinário, no sentido de cumprirmos o nosso desígnio de sermos o maior operador ibérico de logística."

Quando a covid rebentou, a pancada no volume de negócios do grupo foi dura, o setor caiu 40%, a atividade dos cruzeiros parou (só agora está a retomar). E foi o espírito familiar que mais contou para manter as pessoas ligadas e empenhadas, "incrivelmente dedicadas" ao ponto de "quererem dispensar parte dos salários. Graças a Deus não precisamos de nada, até porque as áreas que se mantiveram ativas até cresceram, na ordem dos 30%, permitindo-nos equilibrar o ano e estar hoje já em franco crescimento", conta o CEO. Mesmo com os problemas complicados que afetam a logística (leia mais na pág. 18), com a falta de contentores a aumentar a necessidade de trabalho para garantir melhor serviço ao cliente.

Liderança ao serviço da comunidade

Para Bruno Bobone, é nas alturas de crise que tem de se pensar e investir, não só para colher os frutos quando a tempestade passa mas para "ocupar o espírito com projetos que nos desfoquem da preocupação, do desgaste, da depressão". "Hoje estamos a crescer, temos contratado e espero continuar este caminho nos próximos anos."

À frente do grupo esteve sempre um Pinto Basto, mas Bruno garante que não é receita obrigatória, ainda que esteja longe de pensar na sucessão ("até aos 120 anos, penso ficar...", ri-se. "Se a certa altura for importante ser alguém de fora, será. As pessoas aqui têm acesso ao lugar de topo, sejam Pinto Basto ou não. Aliás, a condecoração que o Presidente da República nos deu é muito significativa por isso mesmo, porque é dada à empresa, que a merece pela obra desenvolvida - não a quem desempenha as funções de liderança num dado momento."

Faz o paralelo entre essa forma de trabalhar, para o bem maior, e Portugal: "O líder do país tem de pensar no país como um grupo e não focar-se na sua pessoa ou no partido de que está à frente." Para Bobone, a forma como se lidou com a pandemia pecou pela falta de coragem na decisão, exceção feita ao processo de vacinação - "liderado por um homem da minha terra, Quelimane (Moçambique, onde cresceu), porque se teve a consciência de usar uma instituição organizada para fazer algo organizado, que é fundamental, em vez de se usar favores políticos para tudo; a política tem de ser uma arte nobre, mas tirando os ministros precisamos é de profissionais competentes", defende. E na maioria das decisões "o mundo inteiro errou" porque não entendeu a importância de proteger quem era mais afetado deixando o resto da economia funcionar. "Foi criminoso. Criámos pobres, pessoas com grandes dificuldades e em quem ninguém vai pensar. É preciso coragem, não medo, porque o medo é inimigo da democracia, promotor da ditadura e da limitação de liberdade; e já vivemos demasiado com esta consciência de uns valores muito promovidos pela esquerda portuguesa que nos censura o pensamento e a palavra."

Lamenta por isso que não haja uma "alternativa à direita como deve ser" e acredita que essa condição prejudicou o PS na governação, "porque não teve oposição que o obrigasse a fazer bem, permitindo-se aumentar muito este caminho da censura popular e adoção de conceitos que não se sabe que base têm, uma censura popular, não institucionalizada e muitas vezes contraditória".

Se a liberdade está nas fundações da empresa até hoje e se estende à condição do país, a preocupação com o desenvolvimento das pessoas não lhe fica atrás. É por isso que defende o salário digno, que permite a cada um "fazer a sua vida, pagar seus custos de vida, a formação da descendência, ter capacidade de lhes dar formação apropriada e ainda ficar com algum dinheiro para investir no crescimento individual, seja pessoal, cultural, social ou profissional." Explica que isso não significa pagar o mesmo a todos ou pagar o dobro do que se pode, mas entender que é preciso pôr as pessoas, o seu bem-estar e felicidade no centro. E isso passa pela participação nas decisões da empresa que afetam a vida de quem nela trabalha: "Temos de ouvir as pessoas, fazê-las rever-se e sentirem-se realizadas porque contaram na decisão. É essencial conhecermos e preocuparmo-nos com as pessoas com quem trabalhamos.

Na Pinto Basto, Bruno Bobone começou um processo para que todos os trabalhadores com mais de um ano de casa ganhem acima dos mil euros/mês. "É um caminho em que estamos empenhados. E é com o objetivo desse salário digno que devíamos estar já a trabalhar no país", diz, ainda que não descarte a importância do salário mínimo nacional. "As coisas não podem ser feitas sem pensar, mas também temos de admitir que da parte dos empresários tem de haver uma cultura nessa linha. O erro não é só de quem pede... Há quatro anos, o SMN eram 450 euros e agora serão 705 e não sei de muitas empresas que tenham falido por isso. É preciso promover uma produtividade crescente para se conseguir pagar mais, mas isto tem de ser trabalhado no sentido de evoluirmos para a fasquia dos 1200 euros de salário em média."

Hoje, o líder da Pinto Basto tem outra preocupação: os que vão sofrer com a revolução digital que vivemos, que deviam estar a ser preparados, para a reconversão ou para o papel que podem ter na sociedade. Como num grande grupo, "é preciso coragem para liderar um país e exige responsabilidade. Um primeiro-ministro tem de perceber do que o país precisa".

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