indústria aeronáutica

737 Max. Boeing arrisca perdas milionárias com reputação em risco

Foto: REUTERS/Jason Redmond
Foto: REUTERS/Jason Redmond

Com as operações do modelo de aeronave suspensas, a construtora enfrenta uma crise que poderá ter efeitos pesados.

Os mais de 25 mil milhões de euros de valor bolsista que a Boeing perdeu após o acidente da Ethiopian Airlines, a 10 de março, foram o primeiro indicador do efeito devastador que a crise poderá ter nos resultados financeiros da empresa. A suspensão das operações do 737 MAX, que agora é mundial, deixa em terra 370 aparelhos já entregues e põe em causa as encomendas do modelo, cuja celeridade das vendas não tinha precedentes na história da Boeing – cinco mil encomendas, cerca de 900 entregas programadas para 2019. Mais: os custos associados à proibição de circulação da frota MAX são potencialmente gigantes, com cancelamentos de encomendas, avaliadas já em mais de 55 mil milhões de dólares, remarcações, indemnizações, tripulações em suspenso e custos de parqueamento dos aviões. Mas o risco maior, para lá dos números, é na reputação e na imagem da empresa.

A forma como a construtora aeronáutica norte-americana lidou inicialmente com o desastre do voo ET302, que vitimou 157 pessoas, tocou num valor fundamental da indústria da aviação: a confiança inabalável na segurança dos aviões.

A primeira reação da empresa foi reafirmar a integridade técnica do modelo 737 MAX 8, apesar de este ser o segundo acidente fatal com o avião em menos de seis meses, após o desastre da Lion Air, em outubro de 2018, em que morreram 189 pessoas. Quedas com perda de vida são extremamente raras na aviação comercial, um feito que se deve a padrões de segurança rigorosos abraçados por toda a indústria e o envolvimento global dos reguladores para garantir o cumprimento dos requisitos. Por isso, a posição da Boeing de reiterar confiança no modelo causou dúvidas e não foi levada em conta por dezenas de países e reguladores, que quase de imediato começaram a suspender a operação dos 737 Max durante a investigação às causas do acidente.

Para Paul Hudson, diretor da associação de direitos dos passageiros FlyersRights.org, só haveria um caminho a tomar: “Deixar os aviões em terra até que o problema seja resolvido, testado de forma rigorosa e os pilotos tenham sido meticulosamente treinados de novo”, afirmou ao Dinheiro Vivo.

A Administração Federal de Aviação (FAA), que regula a indústria e está sob a tutela do Departamento dos Transportes, ordenou a suspensão da operação dos 737 MAX (8 e 9) após receber dados de satélite mostrando que o voo ET302 da Ethiopian Airlines e o JT610 da Lion Air seguiram a mesma trajetória antes de caírem. Ou seja, uma indicação preliminar de que o problema de software que causou o acidente da Lion Air poderá ter estado na origem da queda do voo da Ethiopian Airlines. As similitudes encontradas “justificam investigação adicional sobre a possibilidade de uma causa comum aos dois incidentes que precisa de ser compreendida e endereçada”, referiu a FAA na ordem emitida.

Os contornos destes dois casos lançaram uma crise de credibilidade sobre a Boeing. No rescaldo do acidente da Lion Air, na Indonésia, a construtora passou os últimos meses a desenhar uma correção para o software de controlo de voo dos 737 MAX, incluindo para o MCAS – Maneuver Characteristics Augmentation System. Este novo sistema tinha sido desenvolvido, explica a Boeing, porque o posicionamento do motor do aparelho (diferente no MAX em relação aos 737 anteriores) poderia levar o avião a subir demasiado sem velocidade suficiente, e o software tomaria então controlo para corrigir a situação.

A investigação ao acidente da Lion Air indicia que os pilotos tentaram, sem sucesso, sobrepor-se ao MCAS, que foi ativado devido a um erro de leitura do sensor. Problema: os pilotos não faziam a menor ideia do que se tratava, nem como desligar este software, porque a Boeing não incluiu informação no manual.

O motivo para essa decisão terá sido evitar sobrecarga de informação para os pilotos, segundo o The Wall Street Journal, já que a construtora promoveu o MAX como sendo similar ao antecessor 737 e, portanto, sem grandes necessidades de nova formação. O tweet em que Donald Trump criticou a excessiva complexidade dos aviões modernos adveio desta questão.

“A Boeing tem estado a trabalhar de perto com a FAA no desenvolvimento, planeamento e certificação da melhoria de software, e esta será implementada na frota 737 MAX nas próximas semanas”, adiantou a companhia. Quando o ET302 caiu, no domingo passado, o manual do aparelho já incluía informação sobre como proceder em caso de erro de leitura do sensor. Mas o update ainda não tinha sido finalizado.

O risco maior para a Boeing, para lá dos números, é na reputação e na imagem da construtora aeronáutica.

Demora acentua crise

A atitude da Boeing perante o segundo acidente foi dúbia, sendo que a decisão de suspender a operação do 737 MAX nos EUA só foi tomada pela FAA três dias depois, num momento em que a posição era considerada insustentável. “Enquanto outros reguladores e companhias tomam medidas, a credibilidade da FAA está a vacilar”, escreveu na Bloomberg o colunista David Fickling, espelhando uma posição que se tornou constante nos noticiários de televisão e rádio após a tragédia. A Southwest Airlines estava a receber múltiplas questões de passageiros preocupados com os seus voos, visto que a companhia opera 34 MAX 8, e o ex-secretário dos Transportes Ray LaHood apelava a uma proibição imediata destes aviões durante a investigação.

Paul Hudson, da Flyers Rights, criticou a demora e disse ao Dinheiro Vivo que deixar o modelo voar era inaceitável, “a não ser que o avião seja exonerado pela caixa negra”. Qualquer outra decisão seria “política e económica em vez de guiada pela segurança”.

Ainda assim, as duas companhias norte-americanas que têm estes aparelhos na sua frota, Southwest Airlines e American Airlines, alinharam na rejeição do problema. “Continuamos confiantes na segurança aérea do MAX 8 e não temos quaisquer mudanças planeadas”, disse ao Dinheiro Vivo Dan Landson, porta-voz da Southwest. “Estamos a trabalhar com os clientes que desejem remarcar os voos para outro tipo de aeronave”, explicou. No dia seguinte, tudo mudou: a companhia foi forçada a deixar em terra os aviões MAX 8, referindo que iria “responder” às indicações da FAA “em concordância com o interesse da segurança na aviação”.

O mesmo cenário aconteceu com a American Airlines. A empresa, que opera uma frota de 24 MAX 8, tinha garantido que não havia “factos sobre a causa do acidente” para lá das notícias na comunicação social e que por isso se mantinha a “total confiança” na nave e na capacidade da sua tripulação. O volte-face aconteceu menos de 24 horas depois, embora a American tenha sublinhado que deixar os aviões em terra era uma questão de zelo com base em “nova informação” adquirida pela FAA.

A Boeing, que não respondeu aos pedidos de comentário, foi reiterando em comunicado que mantém “total confiança” na segurança do 737 MAX. O CEO Dennis Muilenburg disse que a suspensão é um “passo proativo” que constitui “abundância de cautela”, uma expressão repetida por outros intervenientes – apesar de os Estados Unidos terem sido os últimos a chegar a esta decisão.

Escândalo 787 Dreamliner

Ainda não há muito, a Boeing esteve envolvida noutro escândalo. Passaram seis anos desde que o então novo modelo 787 Dreamliner foi suspenso devido a problemas com as baterias de iões de lítio. O secretário dos Transportes da altura, Ray LaHood, proibiu o Dreamliner de voar enquanto a questão não fosse clarificada e resolvida. Em causa vários incidentes de problemas elétricos relacionados com a bateria, incluindo um incêndio a bordo da All Nippon Airways que obrigou a uma aterragem de emergência. A proibição de operação do 787 Dreamliner custou 600 milhões de dólares à Boeing, obrigada a compensar as companhias aéreas prejudicadas. Todavia, no longo prazo, o impacto nas vendas foi – segundo a própria – “mínimo”. O caso 737 MAX deverá ter custos bem mais pesados.

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