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Cerâmica à procura de negócios da China

Vista Alegre
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Empresas de cerâmica e cutelaria exportam cada vez mais para os mercados do Extremo Oriente, que se renderam à Cutipol e à Vista Alegre

Três mulheres de traços asiáticos olham para as peças expostas no stand da Bordallo Pinheiro com surpresa. As taças em forma de couve, pratos de melancia e decorações em forma de bacalhau passam de mão em mão e refletem os flashes dos telemóveis. O vaivém de possíveis clientes do Extremo Oriente é potenciado pela curiosidade em torno das peças, mas não é exclusivo da Bordallo Pinheiro. Logo ao lado, no stand da Vista Alegre, as peças elaboradas em parceria com a marca de luxo Christian Lacroix são alvos de comentários. E, no pavilhão ao lado, os talheres da Cutipol são outro ponto de interesse dos visitantes japoneses e sul-coreanos.

As empresas portuguesas presentes na feira Ambiente – uma das maiores feiras de bens de consumo, que decorreu em Frankfurt e contou com mais de quatro mil expositores, de 95 países – questionadas pelo Dinheiro Vivo, são unânimes: as exportações para o Extremo Oriente estão a crescer e há um interesse cada vez maior pela cerâmica e cutelaria portuguesas, conhecidas pela qualidade.
“Exportamos 90% da produção, para 60 países, mas os maiores são os mercados do Extremo Oriente, como a Coreia do Sul, o Japão, Taiwan, China e Singapura”, diz ao Dinheiro Vivo David Ribeiro, diretor comercial da Cutipol. “O fenómeno é engraçado: Crescemos tanto na Coreia que o embaixador até me ligou. Somos muito famosos nesse mercado.”

Mesmo sem telefonemas de embaixadores, a Vista Alegre destaca o “grande crescimento do mercado coreano”, diz Nuno Barra, administrador da empresa. Questionado sobre o fenómeno, garante que “o que se tem vindo a fazer em cerâmica é muito diferente do que se fazia há uns anos e os mercados asiáticos percebem que há em Portugal produtos muito interessantes e de grande qualidade”. Não é por acaso que têm lojas em Pequim, distribuição no Japão e na Coreia do Sul e vão abrir já este ano uma loja na China.

Também a Costa Nova tem tido muita procura dos mercados asiáticos. “No Extremo Oriente há uma grande apetência para o produto nacional, que passou a ser muito associado à qualidade”, diz Carlos Ruão, responsável de marca da empresa fornecedora de quatro restaurantes do chef José Avillez e destacando as exportações para o Japão.

Crescimento de dois dígitos
Maria José Marques, administradora da Herdmar, que exporta 90% da produção para 65 países, recebe efusivamente o ministro da Economia. Manuel Caldeira Cabral já tinha visitado a fábrica da empresa e, na visita de cerca de três horas à feira Ambiente, onde passou por mais de 40 das 88 empresas presentes – a maior parte da comitiva da NERLEI, a associação empresarial de Leiria -, reencontrou vários empresários com quem já tinha contactado. Ao ministro, a administradora da Herdmar revela que a empresa de cutelaria vai expor a Singapura e passar pela Indonésia e pelo Japão.

Questionado pelo Dinheiro Vivo, o ministro mostrou-se satisfeito com o sucesso das empresas portuguesas. “As empresas portuguesas tiveram uma melhoria enorme de qualidade e estão a ser copiadas devido a essa qualidade”, disse Caldeira Cabral, frisando que “quase todas as empresas disseram que tiveram um crescimento nas vendas”. E exemplifica: “Temos aqui grandes grupos, como a Vista Alegre, com um crescimento de 11% nas exportações e outras empresas a dizer que o crescimento em 2016 foi razoável e que em 2017 vai ser ainda melhor, mas que já cresceram 20% em 2016.”
Na feira, as empresas portuguesas referiram um crescimento na ordem dos dois dígitos, sobretudo devido às oportunidades em novos mercados. É o caso de A Metalúrgica, uma empresa familiar centenária que faz formas por medida e que cresceu 36% em 2016, com as exportações a valer 95% da atividade.

As perspetivas para 2017 são positivas e expressam-se já nas conclusões da feira. “As empresas efetuaram muitos contactos”, diz fonte oficial da NERLEI, em jeito de balanço. “As perspetivas de negócio são bastante positivas e foram já realizadas algumas encomendas.”
Vista Alegre aposta na internacionalização

O grupo da Visabeira, presente através da marca Vista Alegre e da Bordallo Pinheiro, aproveita as feiras internacionais para contactos com clientes e o administrador Nuno Barra diz que 50% dos contactos realizados são com novos clientes, “um pouco mais, porque os clientes estão a descobrir a marca agora”. Na Vista Alegre as exportações representam cerca de 70% do total da faturação e na Bordallo Pinheiro à volta de 49%. A faturação tem crescido a dois dígitos nos últimos anos, garante. A Vista Alegre fechou 2016 com uma faturação de 72 milhões de euros e a Bordallo Pinheiro com 5,4 milhões de euros, quando faturava 2,7 milhões em 2009, quando a Visabeira comprou a empresa.

SPAL em força nos Estados Unidos

A SPAL exporta para 45 países, de onde provêm 60% das receitas. “O mercado sofreu muito com a crise nos últimos anos mas está a recuperar”, diz António Alegre, diretor comercial da empresa de cerâmica, que investiu para aumentar a capacidade de produção de 18 milhões para 21 milhões de peças. Os EUA são o principal mercado, representando 15% das exportações mas o responsável desvaloriza o impacto de eventuais políticas protecionistas de Trump. Questionado sobre se as perspetivas são de crescimento, o responsável frisa que esse é o objetivo mas que a empresa, por estar presente em tantos mercados, “está muito dependente das convulsões externas”.

Cutipol com crescimento a dois dígitos

A Cutipol, marca histórica de cutelaria, exporta mais de 90% da produção para cerca de 60 países, diz David Ribeiro, diretor comercial da empresa. A Cutipol está em crescimento, com a faturação a crescer 35% o ano passado para cerca de 10 milhões de euros e a expectativa de um aumento de mais de 20% este ano, sobretudo devido aos novos mercados do Extremo Oriente. O Médio Oriente e os Estados Unidos também assumem um peso elevado nas exportações e o responsável destaca o crescimento de países como a Rússia. A empresa aumentou a capacidade de produção, tendo investido dois milhões de euros em dois anos. “Este ano vamos voltar a investir”, diz o responsável, embora frise que será num montante inferior.

Costa Nova, a escolha do chef Avillez

A Costa Nova, marca que o chef José Avillez escolheu para ter em quatro dos seus restaurantes, exporta já para 40 mercados. “Em 2016, 95% da nossa produção foi para exportação”, diz Carlos Ruão, diretor de marca da empresa. O ano passado a empresa registou um crescimento de 70% na produção. A empresa vai reforçar a produção com uma terceira fábrica, que começará a funcionar muito em breve e permitirá um aumento da produção anual em 40%. “Com o reforço da capacidade de produção podemos atacar novos mercados, onde o produto português tem muita procura”, como o Extremo Oriente. Já no que diz respeito à faturação, a empresa fechou 2016 com 15 milhões de euros de vendas, o que representou um crescimento de 25% face a 2015.

*Em Frankfurt. A jornalista viajou a convite da Vista Alegre

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