Indústria

Indústria campeã das exportações precisa de 20 mil trabalhadores

A metalomecânica tem uma forte componente exportadora
A metalomecânica tem uma forte componente exportadora

"Constrangimentos ao financiamento” da formação, designadamente por via das cativações orçamentais, estão a restringir o crescimento

A indústria metalúrgica e metalomecânica, o setor mais exportador da economia portuguesa, com um crescimento de 40% das vendas ao exterior desde o início da década, precisa, no imediato, de 10 mil trabalhadores para continuar a crescer. Isto, porque as estimativas são de que, até ao final do ano, esse número duplique e sejam 20 mil os operários em falta. No total, as 15 mil empresas do setor dão emprego a 200 mil pessoas. “Poderíamos ter mais 10 mil, no mínimo, se fosse possível encontrá-los e, particularmente, se houvesse uma aposta real na formação profissional em Portugal”, garante o vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).

Em causa estão “constrangimentos ao financiamento” dos centros protocolares de formação integrada, por via das cativações orçamentais, e o Cenfim neste momento “não está a abrir turmas novas para formar os trabalhadores de que precisamos”, diz Rafael Campos Pereira. Que assegura: “Se nos surgissem amanhã 10 mil novos profissionais formados pelo Cenfim, as nossas empresas iriam absorvê-los imediatamente. E, de facto, não crescem mais porque não há pessoas suficientes para ocupar os postos de trabalho que estão disponíveis.”

A situação não é nova, mas complicou-se. “Só no caso do Cenfim, foram cativados 2,4 milhões em 2016 de um orçamento de 17 milhões. No final do ano, só foram desativadas verbas para pagar diferenças salariais, mantendo-se cativados, definitivamente, dois milhões de euros. A que se juntam as cativações de 2017”, explica Rafael Campos Pereira.

E acrescenta: “Com montantes tão elevados, o Cenfim, que tem responsabilidades e compromissos com salários para pagar e atividades letivas iniciadas em anos anteriores para desenvolver, ficou impedido de abrir novas turmas de primeiro ano.” O que significa que a situação se vai agravar. “Daqui a três anos, vai ser verdadeiramente dramático, as empresas não vão ter trabalhadores”, afirma o vice-presidente da associação.

Rafael Campos Pereira refere que o setor tem sido muito dinâmico na captação de investimento direto estrangeiro pelo que o número de trabalhadores em falta vai rapidamente duplicar, até pelo “número muito significativo de novas empresas que estão a abrir em Portugal. Portugal tem atraído um grande número de empresas estrangeiras, designadamente na zona do Alto Minho, mas não só. Tem havido um investimento muito grande, há muitas novas empresas a abrir em Portugal, portanto, no final do ano, o défice [de mão-de-obra] será muito maior”.

As francesas Eurocas e Mecachrome abriram este ano as suas segundas unidades em Portugal. A primeira, num investimento de 50 milhões, em Estarreja; a Mecachrome em Évora, onde está a produzir peças para o setor aeronáutico e investiu 30 milhões. Tem 30 trabalhadores, mas espera chegar ao final do ano com 80. E a meta é ter cerca de 300 até 2020. A indiana Sakhti investiu 37,5 milhões numa segunda fábrica em Águeda. E a dinamarquesa Vestas acaba de inaugurar o seu centro de desenvolvimento no Porto e quer contratar 80 pessoas até ao final do ano.

São alguns dos exemplos de investimento estrangeiro no setor e, se até agora o Cenfim era um dos trunfos invocados pela AIMMAP nos contactos com potenciais investidores, a situação mudou. “Contamos as limitações que existem e admito que alguns decidam não avançar quando verificam que falta formação no país”, diz o vice-presidente da associação.

A automação e robotização há muito que é uma realidade na metalúrgica e metalomecânica e que se vai acentuando, promovendo uma substituição dos atuais postos de trabalho por outros “mais estimulantes e mais atrativos para as novas gerações”, designadamente nas áreas da logística, inovação e investigação, e com mais valor acrescentado. Mas Rafael Campos Pereira considera que a solução não está aí. “É preciso, para já, assegurar a formação para a indústria que temos, a indústria 3.5, e começar a pensar nas empresas que viremos a ter, tentando antecipar quais são os perfis profissionais do futuro e qual vai ser o trabalho de formação necessário”, defende.

Mas, para já, o setor vai de vento em popa. As exportações cresceram 16% nos primeiros quatro meses do ano, números “muito animadores” e que permitem antecipar um novo recorde no final do ano. “Por uma margem significativa”, diz Rafael Campos Pereira.

Este responsável aponta o “forte crescimento” registado fora da União Europeia, nomeadamente com as exportações para os Estados Unidos a duplicarem face ao ano anterior. No Reino Unido, e após um primeiro embate pós-referendo do brexit, tudo parece estar a regressar ao normal. Pelo menos a valores de 2015. “As perspetivas não são tão más como chegámos a temer.” Este é o quarto maior mercado de destino dos produtos da indústria metalúrgica e metalomecânica, após Espanha, Alemanha e França. O quinto lugar, que cabia a Angola, é, agora, ocupado pelos EUA.

Mas nem só a mão-de-obra preocupa o setor, o financiamento também. “Há muitas empresas de grande potencial e solidez prejudicadas na concessão de crédito, porque há uma dificuldade generalizada da banca portuguesa em compreender as PME, que têm de ser analisadas de acordo com a realidade que protagonizam e não pelas regras das grandes empresas”, defende Rafael Campos Pereira, que entende que a situação se agravou com o descalabro do BES, o “banco que melhor falava com as PME”.

A política fiscal e o custo da energia em Portugal são outras das questões que causam apreensão ao setor: no que ao fisco diz respeito, a preocupação é com as tributações autónomas que “introduzem uma imprevisibilidade insuportável nos negócios”.

Quanto à área da energia, são 300 as empresas que se uniram para comprar energia elétrica e/ou gás em conjunto, com poupanças médias na ordem dos 4,5%, mas a AIMMAP não poupa críticas à situação. “Estamos sistematicamente apreensivos com tudo o que acontece em matéria de energia e é difícil de compreender por que é que as empresas e os particulares pagam tantas rendas, nomeadamente à EDP”, frisa. Há que ter em conta que a fatura energética em Portugal chega a representar 40% dos custos de uma metalúrgica.

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